Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

O Cavaleiro Inexistente - Resenha

“O Cavaleiro Inexistente”, de Ítalo Calvino.

Resenha por Fernando A. R. de Gusmão.

 

 

O livro “O Cavaleiro Inexistente”, de Ítalo Calvino, conta a história do campeão Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez, que, neurótica e fervorosamente, serve à Cristandade.

Passando-se na França, na época de Carlos Magno, o romance cativa imediatamente o leitor ao tratar de uma pluralidade de temas pós-modernos, inclusive de interesse para a psicanálise: a atual compreensão de desordem e do caos, a tradição posta ao contrário, o choque produzido na realidade pessoal pela imprecisão dos sentidos.

O autor utiliza-se de uma ampla alegorização, destacando-se a simbólica armadura branca e vazia, que dá substância à imprecisa identidade do paladino, já que a narrativa tem um bizarro pormenor: a figura central não existe. A armadura "alva, bem conservada, sem um risco, bem acabada em todas as juntas, (...)” guarda somente uma voz e é como que um exoesqueleto do cavaleiro na busca de feitos para preencher e assegurar sua interioridade. Esse singular detalhe é mote para Calvino pensar, inclusive, a questão do Ser, deixando, talvez, nas entrelinhas a solução da dúvida existencial de Hamlet, mantendo, porém, como arquétipo de cavaleiro, uma armadura cintilante que interioriza, apenas, a solidão e o vazio através de sua voz metalina. Essa voz metálica de Agilulfo fala, antes de tudo, do racional, caracterizando o que a Escola Psicossomática, da Sociedade Psicanalítica de Paris, designou como "pensamento operatório", maneira de pensar, mas, também, modo particular de relação com o outro, assinalada por uma pobreza de vida fantasmática e afetiva, com bloqueio da aptidão de representar ou de elaborar as solicitações pulsionais que o soma dirige à psique, a qual, no cavaleiro, inexiste. Esse mesmo “pensamento operatório” explica, inclusive, a penúria de investimentos libidinais por parte de Agilulfo e sua falta de reações afetivas perante as perdas e diante de outros episódios traumatizantes da história. Ainda, do ponto de vista psicossomático, vemos Agilulfo, enquanto falso self suposto (cf. HULAK e LEDERMAN, 1992), agindo como um “indivíduo que sacrificou sua pessoa em favor de uma personagem” [1].

Essa personagem vive o momento histórico/heróico da cavalaria medieval que, no entanto, no livro é tomada - acompanhando a vereda cervantina - como referência cômica. Calvino brinca, por isso, com a tradição dos romances de cavalaria e troça desse universo idealizado. O contexto cavaleiresco torna-se, então, objeto da hilaridade destrutiva que corrói as bases de um mundo concebido na literatura como lugar de afirmação do sujeito como super-homem audacioso, tributário de solicitações do divino ou dos amores de bem-educadas damas, que o impelem para aventuras, lutas e duelos. Para tanto, o cavaleiro tem como escudeiro o demente Gurdulu, essencialmente assimétrico, irracional, exclusivamente soma, sem um pingo de juízo. Por um lado, Agilulfo leva a sério o papel que lhe é dado, uma vez que sua obstinação o torna um modelo de soldado, muito embora, antipático a todos. Por outro, não se sentindo cômodo no contexto em que vive, sofre a melancolia da privação de sua individualidade física, seguindo condutas simbolicamente representadas na armadura polida que atua, regulada exclusivamente pela razão e pela convenção. Diametralmente em oposição a Gurdulu, seus atos são metódicos, sempre pautados pelo racional extremado e pelo completo desprezo pelo que possa comprometer essa racionalidade.

Assim, Agilulfo é sempre, e cada vez mais, uma armadura que fala e anda, mas que serve somente para balizar seu lugar no universo simbólico, enquanto almeja ser recheado pelo gozo, pela Vida, psicossomaticamente imitando e investindo numa personagem através da qual se comunica com o mundo referencial [2].

A falta de um corpo redunda, inclusive, na ausência de intercâmbios com a sua circunstância, pois o impulso da vida não tem onde se dispersar, anulando-se na dureza da armadura que lhe resguarda a forma para possibilitar seu trânsito pelo social. Ao afirmar que “não ofendo ninguém: limito-me a explicitar fatos, lugar, data e uma grande quantidade de provas”, Agilulfo confirma sua destituição de corporeidade por ser destituído de linguagem. Não a linguagem enquanto simplesmente meio objetivo demandado pela comunicação, mas linguagem como forma de interação intersubjetiva, espaço de subjetividade em que o sujeito se funda. Nesse caso, assinala FERRAZ (1997) [3]: “As palavras deixam de ter a função de ligação pulsional e tornam-se ‘estruturas congeladas, esvaziadas de substância e significação’ e o discurso mantém-se inteligível, porém totalmente destituído de afetos.”. No diálogo com Priscila fica clara essa atitude - e sua regulação pela norma interditante ao Eros - na medida em que ele lança-se numa dissertação sobre a paixão amorosa, encontrando nessa forma da expressão a maneira mais apropriada para ele, empedernido cartesiano, expor suas idéias sobre a paixão e o amor.

No trato com essa viúva, o paladino agrada a mulher ainda que aja de maneira excentricamente "controlada". Aqui a hilaridade vem do imprevisível, pelo absurdo de sua conduta diante das perspectivas da mulher. O tempo com ela é assinalado pela repetição e pelo fazer segundo as regras. Vai-se a noite e a fogosa viúva afoga-se nessa perfeita "funcionalidade". Mas, surpreendentemente, vê-se realizada e contente: a armadura mostrou-se como o mais perfeito dos amantes. Mesmo assim, Calvino admite que Pulsão de Morte está sempre situada além do Princípio do Prazer, quando trata da ironia dos compartes de Agilulfo quanto ao amor da ardente Bradamante pelo cavaleiro inexistente: se uma mulher já se satisfez com todos os homens existentes, o único desejo que lhe resta só pode ser satisfeito por um varão que, simplesmente, inexista.

Vale notar, por sinal, que o olhar feminino permeia a narrativa como efeito de Calvino ter colocado como contadora da história uma religiosa, que vive em um convento e que escreve, em sua cela, a história do cavaleiro inexistente. Enquanto conta as desventuras de Agilulfo e de Gurdulu, a própria freira questiona a si mesma sobre o ato de escrever. Segundo ela, até que ponto é possível encontrar um sentido para a literatura a não ser fora dela? Por isso, ela termina por trocar sua função de escritora, mergulhando no próprio livro que escreve, no papel de Sofrônia.

Vivendo sua vida, “Agilulfo passava atento, nervoso, hierático: o corpo das pessoas (...) dava-lhe um certo mal-estar (...) mas também uma sensação (...) de desdenhosa superioridade” decorrente dele se sentir razão pura na ausência das paixões, dos sentimentos e das sensações. Razão absoluta mas jugulada e engessada, que não permite que haja percepção do que seja a completude do homem em seus aspectos material e subjetivo. Assim, a atitude de Agilulfo prende-se a um perceber que emoldura tudo em contrárias dualidades: significado/significante, conteúdo/forma, corpo/alma, psico/soma.

Em outra vertente, Agilulfo é, também, o homem pós-moderno, fracassado em seu projeto de ser alguém, de ser um ser específico, passando toda a vida como sujeito potencial, sempre reprimido, somente Ser enquanto subordinado aos interesses do Outro - social.

Nesse sentido, podemos percebê-lo, também, como um ser-vitrine da atual sociedade/espetáculo, perdido em sua exterioridade, vivendo função de uma contemporaneidade artificial, descartável, que se cumpre na celeridade e na impessoalidade do fast-food, na qual ele não passa de mais um passante/intérprete/platéia do shopping/moda. O Agilulfo contemporâneo, para assegurar sua singularidade e, ao mesmo tempo, o reconhecimento social, precisa da roupa, da grife, da melhor "beca" (a armadura impecável, brilhante e sempre polida), pois o olhar-espelho do outro é a ratificação da imagem que ele almeja. Por isso, ao ser questionada a virgindade de Sofrônia questiona-se principalmente a identidade desse cavaleiro dedicado que, pela sua ação de salvar a virgindade de uma donzela, recebeu a "identidade" de cavaleiro, com tudo que a simboliza (escudo, cavalo, armadura, elmo). Daí vem sua indignação: -Gostaria mesmo de ver, Torrismundo, você encontrar em meu passado algo de contestável – disse Agilulfo ao jovem, (...). – Talvez queira contestar, por exemplo, que fui armado cavaleiro porque, há exatos quinze anos, salvei (...) a filha virgem do rei da Escócia, Sofrônia? E a resposta: - Sim, vou contestá-lo: há quinze anos, Sofrônia, filha do rei da Escócia, não era virgem. Atingido, assim, no cerne de sustentação de sua identidade, Agilulfo, como falso self suposto, vai-se embora, carregando a tragédia de não ser ele mesmo por não lhe terem permitido a construção do seu self [4], pois agora sua imagem desvirtuada acaba por diluir-se, apesar da imponência da sua reluzente armadura e do modelo grandioso do herói das narrativas medievais.

Ao cabo e ao final, o inexistente Agilulfo luta sua boa luta e mostra-se como cada um de nós, ser comum mas, ao mesmo tempo, transcendental, no medievo ou hoje, continuamente envolto em seus conflitos, sua morte, seu ser (ou não ser), que nos lembra nossa densa humanidade, onde Narciso sempre se faz presente na arte da vida ou na Vida que, fundamentalmente, é Arte.

 

Referências Bibliográficas:

 

[1] HULAK, S. e LEDERMAN, G. Regênesis: o mito da Fênix em Psicossomática in Psicossomática hoje / Editado por Júlio de Melo Filho – Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

 

[2] HULAK, S e LEDERMAN, G.,. Cfe citado. “alguém que buscou a identidade mas permaneceu na identificação, mimeticamente, imitando e investindo numa personagem através da qual se comunica com o mundo referencial”.

 

[3] FERRAZ, Flávio C., Psicossoma: psicossomática psicanalítica / organizadores Flávio C. F., Rubens  M. V., -São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.

 

[4] HULAK, S e LEDERMAN, G., Cfe citado.

publicado por Fernando Gusmão às 21:30
link do post | comentar | favorito
1 comentário:
De Anónimo a 4 de Dezembro de 2016 às 01:02
"...ela termina por trocar sua função de escritora, mergulhando no próprio livro que escreve, no papel de Sofrônia."
Não seria no papel de Bradamante?

Abraços.


Comentar post

.pesquisar

 

.Agosto 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
25

26
27
28
29
30
31


.posts recentes

. No mundo (visitas último ...

. Quando Pessoas Ganham par...

. “Toda História é História...

. De Platão a Neymar

. “Na Internet eu posso tud...

. A Empresa sob uma Visão F...

. Sujeitos que se Constitue...

. A Escuta Psicanalítica

. A Escuta na Consultoria C...

. O Cavaleiro Inexistente -...

. “Toda História é História...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. O QUE É COACHING?

. Psicanálise: Ciêcia, Étic...

. Psicanálise: Antes - e ag...

. As Estruturas Clínicas na...

. A INTERNET ENQUANTO INSTR...

.arquivos

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Junho 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Julho 2009

. Fevereiro 2009

. Dezembro 2008

blogs SAPO

.subscrever feeds