Sexta-feira, 24 de Agosto de 2018

No mundo (visitas último ano)


  1. Brasil - 16.748

  2. Reino Unido - 125

  3. Estados Unidos - 31

  4. Moçambique - 22

  5. Peru - 10

  6. não definido - 10

  7. Angola - 8

  8. Suíça - 3

  9. Alemanha - 2

  10. Argentina - 2

  11. Cabo Verde - 2

  12. China - 2

  13. Colombia - 2

  14. França - 2

  15. Irlanda - 2

  16. Japão - 2

  17. Australia - 1

  18. Benim - 1

  19. Chile - 1

  20. Espanha - 1

publicado por Fernando Gusmão às 12:27
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Terça-feira, 31 de Julho de 2018

Quando Pessoas Ganham para o Google

Em um futuro muito próximo, profissionais que estiverem preparados para perguntar e responder às perguntas que não são encontradas no Google serão melhor avaliados e, por isso, melhor remunerados. Além disso, estarão mais seguros quanto às próprias sobrevivências no mercado de trabalho.

Sabemos que os robôs já estão aqui. Estão, inclusive, nos nossos telefones, quando ligamos para o banco ou para uma loja. Estão nos carros sem motorista e nas impressoras 3D que já “imprimem” até automóveis. Lá atrás, em 2013, a Oxford University’s estimava que nos seguintes 20 anos mais de metade de todos os empregos estarão substituídos por tecnologias inteligentes. Os trabalhos administrativos e burocráticos —e até serviços mais sofisticados, como atendimentos médicos e legais— serão cada vez mais terceirizados para "máquinas”.

Com essa perspectiva de uma vida cada vez mais auxiliada por robôs é inegável que os jovens que estão na escola hoje entrarão em um mercado de trabalho muito diferente amanhã. E isso se tiverem a sorte de encontrar um lugar naquele mercado de trabalho.

No futuro as pessoas precisarão de outras e diferentes habilidades para garantir suas subsistências. Em um mundo onde o conhecimento técnico é cada vez mais restrito, outras habilidades e a confiança para percorrer disciplinas serão, com certeza, recompensados. 

Redobrar o investimento em ciência, tecnologia, engenharia e matemática não vai resolver o problema, pois o treinamento em altas tecnologias, se sabe, tem pesadas limitações imaginativas.

Diante disso, fica a grande questão: como os educadores de hoje devem preparar os jovens para a vida cívica e profissional, numa era cada vez mais digital?

Talvez seja ajudando seus alunos a tratar de questões como: 

Quais são as consequências políticas do desemprego em massa? 

Como devemos distribuir a riqueza em uma sociedade digitalizada? 

Quais as ramificações éticas da automação das máquinas?...  

Respostas a perguntas como essas não estão no Google prontas para copiar e colar.

publicado por Fernando Gusmão às 19:20
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Domingo, 1 de Julho de 2018

“Toda História é História Contemporânea”.  

 

 

Fernando Gusmão (https://fgusmaocouching.blogs.)

 

Na sua recente e importante obra “A História da Riqueza do Brasil “ Jorge Caldeira, com tratamento metodológico inovador, notadamente econométrico e antropológico, nos surpreende com conhecimentos novos e importantes sobre o Brasil colônia: a economia do interior do Brasil era mercantil; os negócios eram suportados por procedimentos informais “todo o sistema de crédito fundava-se no fiado”; a democracia era a base da vida política; atrair genros entregando uma filha em casamento era uma estratégia econômica de origem Tupi, sendo a efetiva fonte da miscigenação brasileira. Caldeira mostra que desenvolvemos aqui, naquele período, uma economia dinâmica e rica, com uma política eficaz em uma sociedade inovadora. Ou seja, sua visão da nossa História é, de certa forma, contrária à versão interpretativa dos nossos historiadores clássicos, que nos falavam de uma colônia exportadora, completamente despida de dinâmica própria, com uma economia, marcadamente, de subsistência.

 

Essa nova interpretação do Brasil colonial nos remete, naturalmente , ao pensamento do filósofo e historicista, R.G. Collingwood, que, quando tratou da hermenêutica da História, levou ao entendimento de que, diante de um passado inacessível, o objeto da História, seria, resgatar (Res Gestae) ações/fatos praticados no passado. Em adição, preconizava que as estruturas do conhecimento histórico se organizam no historiador ("dentro da cabeça" do historiador) e não na "História em si". Collingwood chega a acrescentar que "o historiador deve colocar-se acima das fontes, recorrendo a processos de seleção, interpolação e crítica", podendo, até, "postular fatos, preenchendo lacunas por meio da dedução", pois que lhe é “impossível libertar-se dos seus preconceitos intelectuais e ideológicos”. Ele afirma: "apontar o erro na discussão de uma idéia é o que permite o crescimento na educação" e “compreende-se um texto quando se compreende a pergunta de que ele foi a resposta”.

 

Uma concepção subjetivista da História substituiu, assim, a antiga visão objetivista, pois o conhecimento histórico é visto, agora, como um olhar pessoal do historiador para o passado. 

 

Por isso, Collingwood diz que toda verdadeira investigação parte de um certo problema e o propósito da investigação é solucionar esse problema. Para ele, a História, por um lado descobre fatos e acontecimentos e, por outro, os (re)constrói a partir de dados obtidos.

Acrescenta o historiador: “por conseguinte, o plano da descoberta está já conhecido e formulado quando se diz que a descoberta, seja ela qual for, terá de satisfazer os termos do problema”. De fato, jamais se navega sem carta; por poucos pormenores que contenha, a sua carta tem marcados os paralelos da latitude e da longitude, e o seu propósito é descobrir o que se há de colocar sobre e entre aquelas linhas. Nesses termos, deveria o investigador re-presentar, no seu próprio espírito o pensamento que é objeto do seu estudo, tendo em consideração o problema do qual se partiu, reconstruindo os degraus através dos quais se vai tentando a sua solução. Conclui Collingwood: “assim, toda História é História contemporânea”.

publicado por Fernando Gusmão às 20:13
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Sexta-feira, 29 de Junho de 2018

De Platão a Neymar

De Platão a Neymar (Seria querer demais?)

Fernando Gusmão (https://fgusmaocouching.blogs.sapo.pt/)

Nós, os Homo Sapiens, surgimos na Terra há, aproximadamente, 300 mil anos. Platão, um notável exemplar de Homo Sapiens, veio bem depois, cerca de 2.500 atrás. Marcou profundamente o pensamento ocidental quando —450 anos AC—escreveu “A República”, onde entendeu a Vida como um dualismo —Alma e Corpo— ou seja, concebeu dois mundos: um inteligível e outro sensível, onde a inteligência seria mandatária dos sentimentos.  Essa ideia teve enorme influência no pensamento e na cultura ocidentais e ficou conhecida como o “Paradigma Platônico“ ou, mais precisamente, como o “Paradigma da Dominação“.

Paradigmas são como lentes que se usa no cérebro, em vez dos olhos, que nos faz enxergar a realidade de uma determinada maneira. Os paradigmas condicionam a maneira como devemos nos comunicar, comer ou vestir; indicam o modo como devemos conduzir nossa vida, nossas escolhas e objetivos. Os paradigmas se incrustam no senso comum, até que se estabeleça a necessidade de construir novos, que contemplem novos hábitos e valores.

O Paradigma da Dominação, proposto por Platão, propunha que a razão sobrepujasse a matéria, tendo encontrado muitos seguidores no ocidente, entre nossos melhores filósofos, como Plotino e Agostinho, sem esquecer Descartes, com o “Penso, logo existo”. Operando conforme o paradigma platônico, o Sapiens foi ao espaço, ao fundo dos mares, aumentou nossa expectativa de vida, nos trouxe inimagináveis ganhos materiais.

Infelizmente o Paradigma Platônico justificou, em paralelo, que fossem aceitos e adotados, através dos tempos e das culturas, diversos modelos de dominação, inclusive ideias abjetas e abomináveis, como, só para lembrar e sublinhar: a escravatura (senhores dominando escravos), o feudalismo (lordes dominando vassalos), o machismo (homens dominando mulheres), o feminismo (mulheres dominando homens), o cientificismo (o homem dominando a natureza) e o fascismo (governos dominando contribuintes).

Operando obrigatoriamente a partir do Paradigma Platônico da dominação, as organizações ocidentais –desde as famílias, até as empresas ou os países- adotam uma conhecida tecnologia organizadora chamada "Pirâmide de Autoridade". Nas grandes entidades, as Pirâmides de Autoridade tomam feições mais complexas, com diversos níveis hierárquicos, onde aparecem presidentes, ministros, superintendentes, gerentes, chefes de departamentos e por aí vai, até as camadas mais baixas e simples das organizações, que nas indústrias são chamadas de “chão de fábrica” e, na Sociedade, de povo.

Uma das características mais importantes das Pirâmides de Autoridade é o conhecido "Peso da Hierarquia", que, inclusive, faz com que comportamentos e atitudes praticados por níveis mais altos atuem fortemente sobre níveis subordinados, condicionando as pessoas a assumirem formas e maneiras de comportamento dos seus superiores hierárquicos. Daí, surge as conhecidas constatações comportamentais: "o exemplo vem de cima" ou “a palavra induz e o exemplo arrasta”. Conhecemos o fato de que –de forma geral, mas preponderante- em famílias em que os pais se comportam de modo civilizado, dando bons exemplos, os filhos crescem de maneira sadia, tornando-se adultos com quem temos gosto de conviver.

Assim, a corrupção das autoridades evoca, provoca e determina a corrupção dos subordinados. Quando um superior hierárquico não cumpre com a Lei, seus subordinados se sentem, devido ao "peso da hierarquia", com o direito e quase com a ”obrigação” de fazer o mesmo. É evidente que tudo isso leva qualquer corporação, empresa ou país ao caos.

A autoridade corrupta produz intoleráveis maus exemplos, que põem a perder uma nação, uma empresa ou o trabalho de educação que uma boa família esteja fazendo. No Brasil, a corrupção das autoridades —ajudada pelo peso da hierarquia— induz ao mau comportamento da sociedade em geral, na medida em que exemplos perversos de autoridades aparecem todos os dias, com ampla difusão pelas redes de comunicação, sejam sociais, sejam tradicionais.

Outro enorme problema trazido pela adoção do Paradigma da Dominação foi a construção de uma sociedade orientada, basicamente, pelo êxito, pelo dominar, pelo ganhar. Dito de outra forma, o Paradigma Platônico exigiu o aprimoramento, cada vez maior, de uma inteligência guerreira na sociedade, que hoje é formada por indivíduos cujo objetivo maior é: obter êxito, dominar, acumular bens e vencer na vida e onde o meu êxito precisa do fracasso, da escassez ou da mediocridade de um terceiro. Nessa visão, Neymar não passaria de um ser dotado de habilidades superiores à sua cultura.

Problemas modernos, como o Pânico, a Depressão e o aquecimento global são resultados do paradigma que hoje impera, da dominação, do êxito da acumulação, do poder. Nesse contexto, já é voz geral que as agressões à Natureza e a intensificação acelerada da violência entre os humanos apontam para a rápida extinção da Civilização.

Felizmente é possível observar a emergência recente de elementos de um paradigma novo: o Paradigma do Cuidado, sustentado no reconhecimento da alteridade, reconhecimento que tem na empatia natural dos homens sua raiz mais profunda. Como diz o filósofo Bernardo Toro, “precisamos deixar de ser uma sociedade orientada pelo êxito, pelo vencer, pelo ganhar. Nosso novo paradigma precisa ser o cuidado. Saber cuidar, saber fazer transações ganha/ganha e saber conversar. Não mais uma inteligência guerreira, mas sim uma inteligência altruísta.” Solidária e cooperativa.

 

publicado por Fernando Gusmão às 03:08
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Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2017

“Na Internet eu posso tudo”

 

Na cultura global contemporânea, caracterizada pelas novas tecnologias da informação, as pessoas estão como que submersas nas representações.

Como os tratamentos de imagem agora disponíveis, que já fazem parte do dia-a-dia dos indivíduos, são de uma realidade indiscutível, atuam como extensões do sujeito, expandindo o seu mundo e permitindo-lhe chegar a outras dimensões, prenhe de novos ambientes e de novos tempos.

No entanto, a Internet, ao introduzir uma nova forma de virtualidade, agora interativa, constitui-se, dada sua plasticidade, tanto em um espaço de encontro, criativo e libertador, quanto em uma morada do "des-encontro", ambíguo e aprisionante.

O ideário atual, que pugna pela autonomia, oculta o arranjo de dependência do sujeito: dependência da imagem, que atua, presentemente, como código identificatório e como fantasia de completude. O individualismo recusa o sujeito, ser dividido, atravessado e composto pelo Outro, mas, igualmente, assinalado pelo particular. Verifica-se como que uma troca do sujeito pelo indivíduo, que se reveste da conotação de uma não-divisão. O eu, portanto, assume o lugar do sujeito.

Esse individualismo tem a ver com o atendimento imediato das pulsões, sustentado pela quimera da autonomia total, que, enganosamente, é certificada veementemente pela mídia, dando como produto final o narcisismo da contemporaneidade.

Assim, na presença da fragilidade constitucional das relações humanas e na ausência de referências firmes e organizadoras, a marca permanente do espelho e seus efeitos de identificação estão levando o sujeito a buscar em um arcabouço ficcional uma apoio, mesmo que imaginário, conforme comentário recente de uma internauta:

"Na Internet eu posso tudo: eu faço amigos, eu me comunico com o mundo todo, eu compro, eu pesquiso, eu namoro, eu não me sinto sozinha, é mesmo uma companhia, eu chego em casa e entro na Internet e pronto! Acabou a solidão, os problemas” (http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672006000200005&lng=pt&nrm=is).

O poder de captação da imagem deslumbra e, ao mesmo tempo, aprisiona. A consequente alienação do internauta à imagem ou ao objeto observado o mantêm em um arranjo de subserviência. Com isso, o cibernauta enleia-se com o outro, não se distinguindo do objeto, diluindo os limites entre o privado e o social, não se reconhecendo “em casa” em nenhuma parte, desde que o espetáculo está em todo lugar.

Ele procura o lenitivo e a onipotência no ciberespaço para poder viver com sua impotência e sua fragilidade na vida real. Ter centenas de “amigos” na Rede o mantém na ilusão de superar seu isolamento. Capturado pelas redes imaginárias do eu, ele se separa da possibilidade de interrogar-se quanto às qualidades do seu desejo, mantendo-se na ilusão da propriedade de seu corpo e de um mundo arquitetado como sua virtual extensão. Esse suposto controle dissimula, no entanto, sua incoerência e sua alienação ao objeto aprisionante:

"No ciberespaço podemos realizar todas as nossas fantasias, o perigoso é não querer voltar..." (Simone, 20 anos, 20/6/2002, depoimento por e-mail) (http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672006000200005&lng=pt&nrm=is).

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publicado por Fernando Gusmão às 17:02
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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2017

A Empresa sob uma Visão Freudiana

Freud afirmou que o homem não é um animal gregário, mas sim um animal de horda, um ente individual numa horda administrada por um chefe.

Como via de conseqüência, a empresa seria, nessa visão psicanalítica, uma horda primitiva atualizada, espaço de atendimento da demanda de uma ilusão do amor do pai/gerente (o pai/gerente assimilado ao ideal de ego da empresa), igualitariamente dividido entre os colaboradores como pacto de aliança do grupo.

Nessa direção a psicodinâmica organizacional mostra que a empresa, como personalidade coletiva, reage, conscientemente e/ou inconsciente, de maneira efetiva evitando mudanças, mesmo que tais mudanças sejam do maior interesse para a própria entidade. Essa atitude configura o que se ajustou chamar de inércia organizacional.

A reação em questão origina-se de variáveis mais profundas e poderosas - a cultura organizacional - radicada no organismo das organizações - em tudo e em todos que a formam.

Eugėne Enriquez, em uma publicação de 1997, vislumbrava na psicodinâmica das organizações sete níveis ou instâncias subjetivas que as conformam: as instâncias mítica, social-histórica, institucional, organizacional, grupal, individual e pulsional.

Essas sete instâncias, que podem ou não ocorrer todas (simultaneamente ou não) em uma organização, fornecem um apoio conceitual analítico da maior importância para a melhor compreensão da saúde psíquica da entidade.

Colaboram, também, para o entendimento da forma como se exerce a interferência da conjuntura sobre a subjetividade e sobre a psicodinâmica da instituição, por conta da intensificação de conflitos já existentes ou decorrentes da criação de novas e delicadas situações.

Sob esse olhar, o recalcamento das pulsões seria o modus operandi básico do processo organizacional, mas, também, seu condicionante fundamental, intervindo na mesma uma batalha interna a Eros, com o estabelecimento de uma oposição entre a felicidade individual e os interesses da empresa, uma peleja entre as pulsões, entre Eros, pulsão de vida e Tanatos, pulsão de morte.

Por isso, durante o desenrolar das suas vidas as empresas florescem, vivem, revelam algumas vezes doenças agudas ou crônicas que as martirizam e que podem, inclusive, levá-las à morte.

 

publicado por Fernando Gusmão às 20:42
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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2017

Sujeitos que se Constituem por meio de Palavras

 

A procedência etimológica da palavra comunicação é o substantivo latino communis, com seu sentido ou idéia de comunidade, de algo que diz respeito a um conjunto, espaço factível, por conseguinte, para uma relação de trocas.

A escuta que interessa à Consultoria Corporativa busca pautar-se na fala responsável do cliente e na constante abertura ao que está por vir, fugindo da necessidade de dar sentido à fala em função de uma lógica pré-configurada.

São destacadas tanto as narrativas não construídas e desconstruídas, como as formações sintomáticas, principalmente aquelas densas e cristalizadas. Assim, para a escuta em Consultoria Corporativa nada resta a não ser “nada” esperar para além do que é dito. A alternativa do consultor e, por conseguinte, também a do cliente, é ater-se ao próprio dito, responsabilizando-se pelo próprio discurso, reconhecendo-se como sujeitos que se constituem por meio de palavras, escolhas e ações.

O Consultor em Consultoria Corporativa tem que acreditar na possibilidade de inventar novos estilos, pautados pela ética profissional, para estar com os clientes e, assim, compreender suas modalidades de subjetivação, propiciando um espaço, por meio da escuta, para que eles resgatem suas narrativas e desenvolvam suas singularidades, tornando-se protagonistas de sua própria história e adquirindo, com isso, uma consciência crítica capaz de possibilitar suas inserções mais sadias -como sujeitos desejantes- em seus ambientes de trabalho.

O Consultor, comprometido com sua função de agente de transformação, da mesma forma que o psicanalista, opera pela sua escuta, pela sua aposta no sujeito da linguagem, pela sua fé na singularidade, na genuinidade de cada invenção e na sua certeza de verdade não toda.

A interlocução da psicanálise com a Consultoria Corporativa, propicia, portanto, a criação de espaços para a escuta da subjetividade anunciada nos sintomas, de modo a, inclusive, responsabilizar o sujeito em seu sofrimento e possibilitar seu tributo no sentido da superação dos seus problemas atuais.

Por isso, essa escuta tem que ser reinventada a cada encontro, respeitando a singularidade de cada cliente e tendo como princípio ético o acolhimento do sofrimento que aparece expresso no sintoma.

 

publicado por Fernando Gusmão às 22:30
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A Escuta Psicanalítica

No geral, fala-se para se ser escutado e sabe-se que o escutar é mais que o ouvir: é ouvir acompanhado, concomitantemente, da interpretação daquilo que foi ouvido. Conseqüentemente, o escutar não é passivo, pois quando se escuta, dá-se –ativamente- sentido ao que o outro está dizendo. Não se interpreta somente os sons. Também se escuta o silêncio. Também se dá sentido ao que é aprendido pelos demais sentidos. Escuta-se a partir de cada história social e de cada história pessoal. Existe, pois, uma brecha crítica entre o falar e o escutar. Ao reconhecê-la, pode-se assumi-la, seja como aquele que fala, seja como aquele que escuta.

Freud estabeleceu algo de novo: o entendimento da palavra como meio de ingresso por parte do sujeito ao incógnito em si mesmo e a escuta enquanto condicionante da especialidade de sentidos da palavra proclamada. Trata, em sua teoria e na lide clínica, de palavras que mostram e escondem; que produzem, em um primeiro momento, ejeções e, em seguida, trazem associações. Palavras que confirmam a presença de um outro-interno, mas que, também, possibilitam espaços de relação com um outro-externo quando caracterizado na sua escuta. A psicanálise introduz a especificidade de um arranjo de diálogo entre analisante e analista. Um advém com palavras que solicitam um desejo de ser entendido em sua dor, o outro escuta as palavras por ver nelas as veredas de ingresso ao ignoto que mora no analisante.

Assim, duas tarefas se impõem: a de escutar a palavra do outro e a de perfazer palavras que venham ao encontro dessa procura de auxílio.

Dessa forma, a circunstância analítica é, por definição, uma ocasião de comunicação: nela pululam pleitos nem sempre lógicos ou de fácil resolução, mas os quais, em seu núcleo, notificam o desejo e o imperativo de serem escutadas.

Assim, a psicanálise, levando em consideração acontecimentos do passado, inclusive aqueles da infância, abre espaço para que aquela coisa que anteriormente não mostrava muito sentido passe a ter um significado para o sujeito na medida em que pressupõe que tudo o que é dito pertence àquele que diz. Em “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”, de 1912, o criador da Psicanálise já advertia: “Não se deve esquecer que o que se escuta, na maioria, são coisas cujo significado só é identificado posteriormente”.

No contato com seus clientes, abrindo, cada vez mais, espaço para o que escutava de uma forma diferenciada, pôde Freud construir “tanto um novo ramo do conhecimento quanto um método terapêutico” .

Trazendo a consideração do inconsciente, Freud empurra a fala para uma outra dimensão, muito além do intento consciente de compartilhar algo: ao falar, o indivíduo informa muito mais do que o tanto a que de início alvitrou. O inconsciente quer ser escutado e ter seus anseios satisfeitos, utilizando-se de intricadas formações: atos-falhos, sintomas, sonhos, chistes, lapsos; fenômenos que indigitam para esse “desconhecido” que vive no sujeito. E, desse modo, brota da palavra “aquilo” que se esquiva do próprio enunciante.

publicado por Fernando Gusmão às 22:20
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A Escuta na Consultoria Corporativa

Para a Ciência, a linguagem (articulação e escuta) significa a mera emissão e recepção de sons, permitindo aos homens certa coexistência e comunicação.

Para a Filosofia, a linguagem não passa de uma tradução imperfeita de pensamentos.

No entanto, para a Consultoria Corporativa é na escuta que surge, com todo seu poder de criação, uma nova subjetividade de interesse do colaborador da empresa, onde as palavras deixam de ser apenas veículos de comunicação de idéias, tornando-se fundadoras, criadoras de sentidos e instintuintes de significados.

Para a Consultoria Corporativa, o ato de “ouvir” tem uma importância que excede a simples consideração de compreender por meio do sentido da audição. Aqui, ouvir o outro não solicita somente a existência de um sujeito emitente e de um sujeito receptor de mensagens porque, nas entrelinhas do discurso existirá, sempre, uma grande porção de informações veladas, que demandam um approach específico para serem clarificadas.

Capturar os dados escondidos atrás das palavras, atitudes e gestos do sujeito falante implica, por isso, em se caminhar, com o outro, através de areias movediças, repletas de ciladas; e de passagens difíceis, muitas vezes falsas. Essa saga pode ser muito benéfica para o cliente se aquele que se dispõe a escutar souber, efetivamente, o que está fazendo.

Portanto, no processo operacional da Consultoria Corporativa situa-se um “espaço de fala”, onde o cliente pode articular sua história, algumas vezes permeada de ansiedade e de aflição, que somente alguns ou, na maioria das vezes, ninguém sabe.

Sem rebates, sem feedbacks, sem um outro que dê atenção à sua fala, ou seja, sem uma efetiva escuta, ele se sente em abandono e sofre mais. Dito de outra forma, há problemas que podem ser resolvidos não por, mas com alguma pessoa de ouvidos bem aparelhados.

A escuta do Consultor em Consultoria Corporativa é uma escuta dirigida pela atenção, mas uma atenção muito especial, que ab-roga todo princípio centralizador e seletor que limita a escuta social e que lhe permite, ao ouvir o cliente, avaliar como e por que esse determinado sujeito, em uma singular situação profissional, reage de determinada forma.

Para tanto, a Consultoria Corporativa demanda um conhecimento seguro e profundo quanto às questões atinentes à comunicação, aos componentes que estruturam a relação comunicacional, aos empecilhos ou ruídos que interferem nesse processo e na pratica do ouvir, enquanto escuta construtiva e conseqüente.

publicado por Fernando Gusmão às 22:12
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Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

O Cavaleiro Inexistente - Resenha

“O Cavaleiro Inexistente”, de Ítalo Calvino.

Resenha por Fernando A. R. de Gusmão.

 

 

O livro “O Cavaleiro Inexistente”, de Ítalo Calvino, conta a história do campeão Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez, que, neurótica e fervorosamente, serve à Cristandade.

Passando-se na França, na época de Carlos Magno, o romance cativa imediatamente o leitor ao tratar de uma pluralidade de temas pós-modernos, inclusive de interesse para a psicanálise: a atual compreensão de desordem e do caos, a tradição posta ao contrário, o choque produzido na realidade pessoal pela imprecisão dos sentidos.

O autor utiliza-se de uma ampla alegorização, destacando-se a simbólica armadura branca e vazia, que dá substância à imprecisa identidade do paladino, já que a narrativa tem um bizarro pormenor: a figura central não existe. A armadura "alva, bem conservada, sem um risco, bem acabada em todas as juntas, (...)” guarda somente uma voz e é como que um exoesqueleto do cavaleiro na busca de feitos para preencher e assegurar sua interioridade. Esse singular detalhe é mote para Calvino pensar, inclusive, a questão do Ser, deixando, talvez, nas entrelinhas a solução da dúvida existencial de Hamlet, mantendo, porém, como arquétipo de cavaleiro, uma armadura cintilante que interioriza, apenas, a solidão e o vazio através de sua voz metalina. Essa voz metálica de Agilulfo fala, antes de tudo, do racional, caracterizando o que a Escola Psicossomática, da Sociedade Psicanalítica de Paris, designou como "pensamento operatório", maneira de pensar, mas, também, modo particular de relação com o outro, assinalada por uma pobreza de vida fantasmática e afetiva, com bloqueio da aptidão de representar ou de elaborar as solicitações pulsionais que o soma dirige à psique, a qual, no cavaleiro, inexiste. Esse mesmo “pensamento operatório” explica, inclusive, a penúria de investimentos libidinais por parte de Agilulfo e sua falta de reações afetivas perante as perdas e diante de outros episódios traumatizantes da história. Ainda, do ponto de vista psicossomático, vemos Agilulfo, enquanto falso self suposto (cf. HULAK e LEDERMAN, 1992), agindo como um “indivíduo que sacrificou sua pessoa em favor de uma personagem” [1].

Essa personagem vive o momento histórico/heróico da cavalaria medieval que, no entanto, no livro é tomada - acompanhando a vereda cervantina - como referência cômica. Calvino brinca, por isso, com a tradição dos romances de cavalaria e troça desse universo idealizado. O contexto cavaleiresco torna-se, então, objeto da hilaridade destrutiva que corrói as bases de um mundo concebido na literatura como lugar de afirmação do sujeito como super-homem audacioso, tributário de solicitações do divino ou dos amores de bem-educadas damas, que o impelem para aventuras, lutas e duelos. Para tanto, o cavaleiro tem como escudeiro o demente Gurdulu, essencialmente assimétrico, irracional, exclusivamente soma, sem um pingo de juízo. Por um lado, Agilulfo leva a sério o papel que lhe é dado, uma vez que sua obstinação o torna um modelo de soldado, muito embora, antipático a todos. Por outro, não se sentindo cômodo no contexto em que vive, sofre a melancolia da privação de sua individualidade física, seguindo condutas simbolicamente representadas na armadura polida que atua, regulada exclusivamente pela razão e pela convenção. Diametralmente em oposição a Gurdulu, seus atos são metódicos, sempre pautados pelo racional extremado e pelo completo desprezo pelo que possa comprometer essa racionalidade.

Assim, Agilulfo é sempre, e cada vez mais, uma armadura que fala e anda, mas que serve somente para balizar seu lugar no universo simbólico, enquanto almeja ser recheado pelo gozo, pela Vida, psicossomaticamente imitando e investindo numa personagem através da qual se comunica com o mundo referencial [2].

A falta de um corpo redunda, inclusive, na ausência de intercâmbios com a sua circunstância, pois o impulso da vida não tem onde se dispersar, anulando-se na dureza da armadura que lhe resguarda a forma para possibilitar seu trânsito pelo social. Ao afirmar que “não ofendo ninguém: limito-me a explicitar fatos, lugar, data e uma grande quantidade de provas”, Agilulfo confirma sua destituição de corporeidade por ser destituído de linguagem. Não a linguagem enquanto simplesmente meio objetivo demandado pela comunicação, mas linguagem como forma de interação intersubjetiva, espaço de subjetividade em que o sujeito se funda. Nesse caso, assinala FERRAZ (1997) [3]: “As palavras deixam de ter a função de ligação pulsional e tornam-se ‘estruturas congeladas, esvaziadas de substância e significação’ e o discurso mantém-se inteligível, porém totalmente destituído de afetos.”. No diálogo com Priscila fica clara essa atitude - e sua regulação pela norma interditante ao Eros - na medida em que ele lança-se numa dissertação sobre a paixão amorosa, encontrando nessa forma da expressão a maneira mais apropriada para ele, empedernido cartesiano, expor suas idéias sobre a paixão e o amor.

No trato com essa viúva, o paladino agrada a mulher ainda que aja de maneira excentricamente "controlada". Aqui a hilaridade vem do imprevisível, pelo absurdo de sua conduta diante das perspectivas da mulher. O tempo com ela é assinalado pela repetição e pelo fazer segundo as regras. Vai-se a noite e a fogosa viúva afoga-se nessa perfeita "funcionalidade". Mas, surpreendentemente, vê-se realizada e contente: a armadura mostrou-se como o mais perfeito dos amantes. Mesmo assim, Calvino admite que Pulsão de Morte está sempre situada além do Princípio do Prazer, quando trata da ironia dos compartes de Agilulfo quanto ao amor da ardente Bradamante pelo cavaleiro inexistente: se uma mulher já se satisfez com todos os homens existentes, o único desejo que lhe resta só pode ser satisfeito por um varão que, simplesmente, inexista.

Vale notar, por sinal, que o olhar feminino permeia a narrativa como efeito de Calvino ter colocado como contadora da história uma religiosa, que vive em um convento e que escreve, em sua cela, a história do cavaleiro inexistente. Enquanto conta as desventuras de Agilulfo e de Gurdulu, a própria freira questiona a si mesma sobre o ato de escrever. Segundo ela, até que ponto é possível encontrar um sentido para a literatura a não ser fora dela? Por isso, ela termina por trocar sua função de escritora, mergulhando no próprio livro que escreve, no papel de Sofrônia.

Vivendo sua vida, “Agilulfo passava atento, nervoso, hierático: o corpo das pessoas (...) dava-lhe um certo mal-estar (...) mas também uma sensação (...) de desdenhosa superioridade” decorrente dele se sentir razão pura na ausência das paixões, dos sentimentos e das sensações. Razão absoluta mas jugulada e engessada, que não permite que haja percepção do que seja a completude do homem em seus aspectos material e subjetivo. Assim, a atitude de Agilulfo prende-se a um perceber que emoldura tudo em contrárias dualidades: significado/significante, conteúdo/forma, corpo/alma, psico/soma.

Em outra vertente, Agilulfo é, também, o homem pós-moderno, fracassado em seu projeto de ser alguém, de ser um ser específico, passando toda a vida como sujeito potencial, sempre reprimido, somente Ser enquanto subordinado aos interesses do Outro - social.

Nesse sentido, podemos percebê-lo, também, como um ser-vitrine da atual sociedade/espetáculo, perdido em sua exterioridade, vivendo função de uma contemporaneidade artificial, descartável, que se cumpre na celeridade e na impessoalidade do fast-food, na qual ele não passa de mais um passante/intérprete/platéia do shopping/moda. O Agilulfo contemporâneo, para assegurar sua singularidade e, ao mesmo tempo, o reconhecimento social, precisa da roupa, da grife, da melhor "beca" (a armadura impecável, brilhante e sempre polida), pois o olhar-espelho do outro é a ratificação da imagem que ele almeja. Por isso, ao ser questionada a virgindade de Sofrônia questiona-se principalmente a identidade desse cavaleiro dedicado que, pela sua ação de salvar a virgindade de uma donzela, recebeu a "identidade" de cavaleiro, com tudo que a simboliza (escudo, cavalo, armadura, elmo). Daí vem sua indignação: -Gostaria mesmo de ver, Torrismundo, você encontrar em meu passado algo de contestável – disse Agilulfo ao jovem, (...). – Talvez queira contestar, por exemplo, que fui armado cavaleiro porque, há exatos quinze anos, salvei (...) a filha virgem do rei da Escócia, Sofrônia? E a resposta: - Sim, vou contestá-lo: há quinze anos, Sofrônia, filha do rei da Escócia, não era virgem. Atingido, assim, no cerne de sustentação de sua identidade, Agilulfo, como falso self suposto, vai-se embora, carregando a tragédia de não ser ele mesmo por não lhe terem permitido a construção do seu self [4], pois agora sua imagem desvirtuada acaba por diluir-se, apesar da imponência da sua reluzente armadura e do modelo grandioso do herói das narrativas medievais.

Ao cabo e ao final, o inexistente Agilulfo luta sua boa luta e mostra-se como cada um de nós, ser comum mas, ao mesmo tempo, transcendental, no medievo ou hoje, continuamente envolto em seus conflitos, sua morte, seu ser (ou não ser), que nos lembra nossa densa humanidade, onde Narciso sempre se faz presente na arte da vida ou na Vida que, fundamentalmente, é Arte.

 

Referências Bibliográficas:

 

[1] HULAK, S. e LEDERMAN, G. Regênesis: o mito da Fênix em Psicossomática in Psicossomática hoje / Editado por Júlio de Melo Filho – Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

 

[2] HULAK, S e LEDERMAN, G.,. Cfe citado. “alguém que buscou a identidade mas permaneceu na identificação, mimeticamente, imitando e investindo numa personagem através da qual se comunica com o mundo referencial”.

 

[3] FERRAZ, Flávio C., Psicossoma: psicossomática psicanalítica / organizadores Flávio C. F., Rubens  M. V., -São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.

 

[4] HULAK, S e LEDERMAN, G., Cfe citado.

publicado por Fernando Gusmão às 21:30
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Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

“Toda História é História Contemporânea”.

 

Por Fernando Gusmão
  
O filósofo e historicista, R.G. Collingwood, quando tratou da hermenêutica da História, levou ao entendimento de que, diante de um passado inacessível, o que o historiador faz é reeditar o passado em sua mente, o mais das vezes na forma de uma narrativa, inclusive salientando que "a experiência do falar é também uma experiência do ouvir."
 
Dessa forma, Collingwood tratou a História como um fundamento científico pós-pragmático da História presentista. Para ele, a História é, assim, uma espécie de investigação ou inquérito, sendo sua função o levantamento de dados desconhecidos. O objeto da História, seria, portanto, Res Gestae (ações/fatos) praticados no passado. Em adição, preconiza que as estruturas do conhecimento histórico se organizam no historiador ("dentro da cabeça" do historiador) e não na "História em si".
 
Collingwood chega a acrescentar que "o historiador deve colocar-se acima das fontes, recorrendo a processos de seleção, interpolação e crítica", podendo, até, "postular fatos, preenchendo lacunas por meio da dedução", pois que lhe é impossível libertar-se dos seus preconceitos intelectuais e ideológicos.
 
Ele afirma: "apontar o erro na discussão de uma idéia é o que permite o crescimento na educação" e “compreende-se um texto quando se compreende a pergunta de que ele foi a resposta”.
 
Uma concepção subjetivista da História substituiu, destarte, a antiga visão objetivista, pois o conhecimento histórico é visto agora como um olhar pessoal do historiador para o passado.
 
Por isso, ele diz que toda verdadeira investigação parte de um certo problema e o propósito da investigação é solucionar esse problema. Portanto, a História, por um lado descobre fatos e acontecimentos e, por outro, os (re)constrói a partir de dados obtidos, afirmações que a obra em estudo confirma nas suas múltiplas reflexões epistemológicas: "...ninguém poderá compreender a ciência natural a não ser que compreenda a história e poderá responder a interrogação sobre aquilo que a natureza é a não ser que saiba aquilo que é a História" (Collingwood, 1974).
 
Acrescenta o historiador:
Por conseguinte, o plano da descoberta está já conhecido e formulado quando se diz que a descoberta, seja ela qual for, terá de satisfazer os termos do problema. De fato, jamais se navega sem carta; por poucos pormenores que contenha, a sua carta tem marcados os paralelos da latitude e da longitude, e o seu propósito é descobrir o que se há de colocar sobre e entre aquelas linhas. Nesses termos, deveria o investigador re-presentar, no seu próprio espírito o pensamento que é objeto do seu estudo, tendo em consideração o problema do qual se partiu, reconstruindo os degraus através dos quais se vai tentando a sua solução.
 
Assim, conclui Collingwood “Toda História é História contemporânea”.
 
publicado por Fernando Gusmão às 13:30
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Domingo, 22 de Novembro de 2009

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Uma estratégia para análise de estruturas perversas: Recortes de uma situação de fato.
Fernando A. R. de Gusmão
 
1. Introdução
A analisante tem 33 anos. É casada e separada do primeiro marido. Atualmente está com um novo companheiro, de 47 anos, com quem vive em Recife. Do primeiro casamento teve dois filhos: uma filha, hoje com 16 anos, que mora com os avós maternos no interior do Estado e um filho de doze anos que vive com ela. Seus pais eram agricultores, de baixa renda, que viviam em um município próximo a Recife.
Apresentou-se para a primeira entrevista, em 19/8/2009, com vestes adequadas, atitudes, gesticulação e motilidade normais. Mostrou-se cooperativa e normalmente responsiva às deixas do analista. Não foi identificada nenhuma dificuldade quanto à sua orientação e nenhum deficit de atenção, permanecendo plenamente desperta durante a entrevista. No entanto, fez repetidas alusões à falta de memória, dizendo não recordar seu endereço e o número do seu telefone e que, muitas vezes, não recorda o próprio nome. No que diz respeito à inteligência, percebeu-se que a analisante mostrou boa capacidade de compreensão, estabelecendo relações e respostas adequadas, sem suspeita de diminuição ou de perda intelectiva. Ao ser perguntada, referiu algumas experiências ilusórias ou alucinatórias de pouca importância.
Produziu um discurso sem interrupções, com andamento regular, mantendo coerência entre as idéias, que se apresentam firmes e conexas, e se expressou por meio de mensagens claras e bem articuladas, em linguagem correta. Não foi identificado nenhum problema no campo da psicomotricidade.
Ao responder sobre a razão de pretender entrar em um processo analítico, disse que seu filho vem sendo atendido por psicóloga do próprio Cecosfire, que sugeriu que ela própria também procurasse apoio psicológico.
Nessa e nas sessões seguintes relatou grandes dificuldades comportamentais, dizendo-se e reafirmando-se como doente mental, com severas dificuldades de memória e de aprendizado. Nesse sentido, recortes das sessões sublinham os seguintes depoimentos:
Disse que ficou durante seis anos na 1ª série, até abandonar a escola. Falou não conseguir lembrar do próprio endereço e telefone. Por isso, exibiu ao analista uma conta da Celpe e um papel com a anotação do seu número telefônico. Falou que já trabalhou durante oito anos em uma indústria de confecções, mas foi afastada há 4 anos devido às suas dificuldades mentais (diz não ter coordenação motora). Nessa oportunidade se disse muito insatisfeita porque mesmo assim - não conseguiu “entrar no benefício”. Referiu em uma das sessões que já se submeteu a duas perícias, que havia “passado” na primeira, mas que tinha “ficado” na segunda. Fez referência ao fato de sair pelas ruas sem destino levando a que seus familiares saiam para procurá-la. Lembra que já foi atendida no Hospital Psiquiátrico da Tamarineira. Informa com segurança o nome dos três psiquiatras que a atendeu. Está sob medicação (informa com segurança que toma seis comprimidos de Diazepan e três comprimidos de Amitripitina por dia). Afirma que quando não toma as medicações fica sem conseguir lavar roupa e treme muito. Informa que nessas ocasiões tem crises de choro e a cabeça dói muito. Diz que não consegue sentir qualquer cheiro. Por isso, não pode cozinhar, pois esquece a comida no fogão e não sente o cheiro de queimado. Fala que na maior parte do tempo fica sem fazer nada, só olhando para o mundo. Disse que já foi atendida por diversas vezes no Hospital Getúlio Vargas e que o psiquiatra desse hospital falou para ela desistir de estudar. Disse que sofre muito de dor de cabeça além de ser alérgica. Já fez diversas tomografias e eletroencefalogramas.
Quando perguntada, respondeu que tudo o queria na vida era “ter uma renda”.
Ao final da terceira sessão começou a ficar bem caracterizada uma forte incoerência entre o que era relatado e as atitudes da analisante durante a sessão. Havia uma grande distância entre a pessoa que falava e a pessoa de quem se falava. Com isso, começou a se esboçar a possibilidade da analisante possuir uma estrutura perversa, nos termos da praxiologia lacaniana.
No entanto, Freud já dizia (1905) que o sujeito neurótico pode apresentar uma montagem perversa para solução do problema edipiano, ou como forma de evitar a dor psíquica revelando com isso traços perversos. Consequentemente, o processo analítico com esse tipo de paciente difere radicalmente do trabalho realizado com pacientes de estrutura perversa, propósito deste trabalho.
 
2. Revisão Bibliográfica
 
A revisão bibliográfica efetuada sobre a Clínica do Perverso apresentou as seguintes indicações:
Sugeriu que o perverso verdadeiro dificilmente procura a psicanálise, mesmo porque a prática perversa lhe assegura o acesso ao gozo. Se na neurose o sujeito se pergunta a respeito do seu desejo "Que queres?", "Que quero?”, na perversão não ocorre uma questão, mas uma resposta sobre o desejo.
Verificou-se que, se o que está em jogo é o gozo, não há motivação para a análise. O sujeito perverso sabe o que fazer, não se interroga, realiza o ato e o repete reiteradamente.
Ademais, foi visto que na perversão o desejo surge como vontade de gozo e o ato é vivido como vitorioso triunfo, sem qualquer sentimento de culpa. O perverso tem consciência do que quer e isso é o fundamento da sua arrogância, já que está certo de saber a verdade sobre o gozo. Dessa forma, ele não está tributário das recriminações, auto-acusações, apreensões, inibições, e frustrações que trazem angústia ao sujeito neurótico. Pelo contrário, o perverso não se condói e ainda vê a dor do neurótico com todo desprezo. Para ele, o neurótico é uma pessoa fraca, que não entende o que quer, que não sabe gozar.
Jacques-Alain Miller (1989), citado por Coutinho et. al. (2004),  ressalta que "o perverso é aquele que tem a resposta que demonstra o real do seu gozo como constante, assegurado e sempre pronto para ser utilizado". Ele está permanentemente a postos para o ato, passando ao ato sempre no momento certo.
Assim, no lugar do material simbólico (associações, sintomas, sonhos), o perverso oftraz para o analista o real de suas "encenações", que dispensam o duplo sentido que ´permitiria a intervenção interpretativa pela palavra.
Esse paciente não procura uma mitigação para seu sintoma, nem um saber sobre seu desejo, a ele só diz respeito fazer o outro gozar. Portanto, a "moeda de troca" no encontro transferencial com perversos não pode se ater exclusiva  ou preferencialmente  no espaço simbólico tal como ocorre na análise com neuróticos.
No trabalho clínico com pacientes perversos, depara-se com manifestações hostis e desqualificativas que dificultam a função de escuta psicanalítica, pois repetidamente o analista se encontra enlaçado como objeto real de gozo.
Portanto, supondo-se mestre do gozo e procurando manter a angústia no espaço do Outro, o perverso recusa ao analista a posição de "sujeito-suposto-saber" e o "desejo de analista" é colocando à prova, fazendo com que o esse último se sinta questionado em seu saber.
 
3. A posição subjetiva do perverso na relação analítica
 
Nesse contexto vem a questão: ”o que o perverso quer do analista?” A revisão bibliográfica apontou para as seguintes hipóteses:
a)      Aliviar-se de algum mal-estar momentâneo, sem que esteja disposto a abrir mão de seu gozo funesto.
b)      Utilizar-se da análise como um álibi contra possíveis implicações médico-legais de seus atos eventualmente criminosos, deles fazendo o analista um cúmplice.
c)      Como mestre da retórica, apropriar-se do discurso analítico para refinar sua tarefa inesgotável de desafiar a lei, através da busca do gozo a qualquer custo.
d)      Reverenciar essa mesma lei (representada pelo analista), confessando-lhe suas condenáveis "encenações reais", só para poder desafiá-la novamente a cada relato interminável e, assim, fantasmaticamente triunfar sempre sobre a castração.
e)      Formar um par perverso com o analista, deslocando-o do lugar da escuta e reduzindo-o a um mero ouvinte e voyeur de seu monólogo exibicionista.
Em qualquer dessas demandas, a transferência é minada em sua função de suporte para a interpretação, dando lugar a uma relação estéril com o analista, da qual o perverso busca sempre auferir algum lucro que atenda seu propósito de manter o controle.
As regras da associação livre e da neutralidade revelam-se inúteis para o trabalho analítico; a primeira por ser sistematicamente desrespeitada pelo analisando e substituída pelo relato compulsivo e inflexível de suas "encenações reais", e a segunda por instalar o analista exatamente no lugar de ouvinte passivo e de cúmplice que o perverso lhe aponta e manobra para mantê-lo. Assim, o perverso peita o psicanalista em sua ética e em sua práxis, reeditando no real de suas "encenações" a recusa à castração que a análise ameaça impor-lhe pela via do simbólico pois o trabalho de subjetivação o obrigaria a abandonar, pelo menos parcialmente, o gozo decorrente do seu ato impostor.
Como ilusionista, o perverso é mestre em posicionar o outro de forma a se impor ao seu olhar. Seu intento, ao designar ao analista o lugar de espectador, é o de paralisá-lo. O êxito da análise, num primeiro momento, depende de o analista tolerar o discurso de um paciente que se mantém no mundo da ilusão.
Por privilegiar uma Lei recusada que o persegue, uma matriz narcisista que o condiciona, o perverso busca definir as regras do jogo e controlar o setting analítico.
A conjunção dos elementos que caracterizam a relação transferencial na análise do perverso acaba por encurralar o analista entre duas possíveis posições polarizadas, ambas dissonantes com a ética da Psicanálise:
 
1.      A de moralista e regulador (S2), ou a de
2.      cúmplice e voyeur (a).
 
No primeiro caso, na tentativa de fugir dessa posição paralisante frente à pobreza  fantasmática e simbólica do discurso perverso, o analista pode flagrar-se na posição sádica de moralista e regulador (S2), o que alimenta o desafio da transgressão perversa e dá lugar à perpetuação do gozo.
A transgressão e o desafio contumazes à lei por parte do perverso, o sistemático desrespeito à "regra fundamental" da associação livre e sua substituição pela confissão repetitiva e monótona de suas "encenações", e o seu absoluto desprezo pelo "sujeito-suposto-saber" dificultam ou impossibilitam ao analista ocupar sua posição.
No segundo caso, no lugar de semblant de objeto, o analista é requisitado pelo perverso como mais um objeto real de gozo (a), ao ser por ele colocado na instância masoquista de ouvinte passivo, cúmplice e voyeur do seu discurso exibicionista.
 
4. Uma estratégia para análise de estruturas perversas.
 
Pelo exposto, a Revisão Bibliográfica mostrou que as situações especialmente difíceis impostas ao trabalho analítico com o perverso exigem recursos estratégicos e táticos, diferentes da interpretação.
Assim, o grande desafio que se impõe ao analista no trabalho com o perverso é o de achar uma posição que lhe permita aproveitar aquilo que o sujeito traz além do relato de suas "encenações".
Esse desafio passa, necessariamente, por uma postura teórica e técnica diversa daquela consagrada no trabalho analítico com neuróticos: pois se o analista for aprisionado pelo discurso perverso nas posições de moralista/regulador ou de cúmplice/voyeur, se verá incapaz de interpretar e será manejado na transferência, incorrendo no risco de perder, até mesmo, o princípio ético central de seu trabalho: o amor à verdade.
Basculando entre estas duas posições, o analista é destituído de seu lugar e portanto de sua função, havendo o risco de estabelecer uma relação dual com o perverso na qual desaparece o "desejo de analista". É precisamente nesse ponto que o perverso desmonta o dispositivo analítico e questiona seu arcabouço teórico pois a atribuição de um "saber fazer" propiciaria ao analista intervir do lugar de detentor de um saber sobre o que o perverso deseja: gozar. Tal atribuição possibilitaria a emergência de uma relação transferencial que, se configurada, permitiria ao perverso supor que há um sujeito para além do seu "saber fazer". Conseqüentemente, haveria uma transformação da posição do sujeito com seu saber, até então absoluto. Um efeito da instalação da transferência seria a de levantar a suspeição sobre seu ato, deslocando para o que há de verdade no sujeito - a falta, dessa maneira possibilitando-lhe o ingresso no campo do Outro.
A perspicaz observação de Maleval (1998:22), citado por Coutinho et. al. (2004), ao confrontar as estruturas clínicas em suas relações com o gozo, indica um caminho para o manejo da transferência com perversos. Esse autor pontuou que, enquanto o psicótico tem uma relação de certeza quanto ao gozo do Outro e o neurótico mantém uma posição de suposição sobre esse gozo, o perverso testemunha um saber fazer sobre o gozo em sua interação com o outro.
Em resumo, uma possibilidade teórica na análise do perverso é de se buscar a instalação do "Sujeito-suposto-saber-fazer" na posição do analista. Nesse caso, a estratégia adequada à análise na perversão deverá levar em conta o seguinte:
Quando o perverso se posiciona enquanto encarnação do saber fazer gozar, é necessário que o analista suporte o jogo perverso no qual ele é chamado como parceiro, acolhendo o relato de suas encenações, mas a partir do que podemos chamar da "trivialização na transferência". Esse recurso é utilizado para atestar o caráter "prosaico" de suas encenações, levando o perverso a se questionar sobre esse saber rígido e implacável que o escuda da desilusão, da angústia e, ainda lhe garante fazer o Outro gozar.
A mensagem que se pretende transmitir ao perverso, ao remeter seu discurso reluzente de horror à trivialidade, é a de que seus atos não comportam a originalidade que ele lhes atribui, seja por sua repetição monótona denunciada pelo analista, seja porque esse os escuta com o aparente desinteresse de quem "já sabe" sobre o que é relatado. Só se pode tratar como trivial aquilo que se domina. Agindo desta maneira em relação ao gozo, o analista esvazia o caráter precioso que o perverso dá às suas encenações, convidando-o a se questionar sobre elas e a perceber sua função de defesa contra a angústia.
Outro recurso técnico é a ironia, que pode constituir para o analista um valioso instrumento para lidar com o discurso paralisante do perverso, levando-o ao reconhecimento de sua própria ignorância.
O humor é, também, um recurso tático que, por sua própria natureza, é extremamente adequado ao trabalho com o perverso. Como bem apontou Freud, o humor utiliza o mecanismo de recusa para propiciar um deslocamento da dor. Intervir com humor, além de desarmar o confronto analítico, interpela a relação imaginária de cumplicidade do perverso, introduzindo uma relação outra de parceria. Ao compartilharem da jocosidade inerente ao humor, ocorre um reposicionamento do par e, conseqüentemente, um certo redimensionamento da angústia que se transfere em parte ao campo do paciente por não ser mais exclusiva do campo do outro. O dispositivo humorístico bem demonstra que a interdição do gozo não é decorrência de qualquer tipo de proibição por parte do analista; ela está articulada à função de regulação da lei na própria dimensão discursiva. A lei da qual falamos é a lei que regula o desejo; naturalmente ela barra o acesso do sujeito ao gozo, pois é o prazer como ligação à vida que barra o gozo.
Deve-se considerar, também, a primazia da clínica do real na perversão. Para tanto, faz-se necessário o trabalho com o tempo lógico e o corte de sessões a fim de deslocar o controle, privando o perverso do domínio da relação, tão essencial a ele. Sugere-se, ainda, o estabelecimento de um contrato flexível, com o uso opcional e/ou alternado do divã, procedimento que visa retificar a presença ou ausência do olhar do analista enquanto objeto fetichizado.
Nessa mesma direção, o ato analítico é outro expediente indispensável à análise do perverso, pois por se situar praticamente fora do simbólico, no registro do real, o perverso manifesta em atos (encenações) aquilo que teria que ser dito em palavras. Quando o perverso se posiciona enquanto objeto que instrumentaliza o nosso gozo e nos convoca como sujeito barrado para garantir com a presença de nosso olhar o seu gozo, devemos produzir um corte com nosso ato, criando um espaço vazio de qualquer significação, sustentando uma posição ética para fazer emergir algo da verdade encoberta por seu saber fazer.
Propõe-se, adicionalmente, que o analista opere com um paradoxo para que se vença o impasse analítico entre uma escuta acolhedora e conivente e a atitude moralista de denúncia de uma prática, da seguinte forma: quando localizado pelo perverso na posição de cumplicidade, o analista deve fazer semblant do grande Outro, assim representando um saber fazer, porém com um poder que não subjugue o perverso e nem dele goze. Por outro lado, quando o perverso localizar o analista como moralista, detentor da lei, estrategicamente, esse faria semblant do objeto, causa de desejo. Da posição de objeto, o analista apontaria para Outra cena, buscando a instalação do duplo sentido da dimensão simbólica: "o que quer com isso?".
Portanto, diante do perverso que vem à análise contabilizar seu gozo, o analista deve administrar, em doses pequenas e suportáveis, o sentido de suas "encenações", costurando em sua história algo da sua verdade.
Em resumo, pode-se dizer que entre os possíveis recursos táticos para o manejo da transferência com perversos devem ser considerados: a trivializarão, o humor, o ato analítico, e o paradoxo, mas, também, o desvelamento da angústia, a atribuição de sentido, a restauração histórica e a "douta ironia".
 
5. Conclusões:
 
Busca-se, com os recursos mencionados, uma subjetivação da posição perversa, ao preço da eclosão da angústia e de sua própria fragmentação, sem esquecer que o risco da desmontagem da sua recusa fundamental sinaliza o perigo iminente do perverso ter que se haver com o desamparo absoluto vivenciado diante do "não saber".
Dessa forma, o trabalho analítico com o perverso deve ser levado com muito cuidado, propiciando uma saída pela vertente do amor: uma mudança na sua posição subjetiva que acarrete um movimento do pólo de gozo em direção ao pólo de amor. A circunscrição do gozo abre uma janela em seu cárcere gozoso, permitindo o advento de um sujeito não mais cativo de sua cena fantasmática.
Nesse sentido, Ferraz (2000, pg.98), citado por Coutinho et. al. (2004), adverte que a fragilidade da borda representacional do perverso exige que essa estratégia seja muito bem calculada a fim de evitar um colapso de seus limites de identidade e/ou uma fuga da análise, pois quando a crença ilusória é colocada à prova pela realidade, surge uma imensa angústia, na medida em que, para o perverso, "não é só sua vida sexual que foi construída sobre o alicerce da clivagem, mas sim toda sua superfície identificatória".
No caso da analisante aqui considerada, o desvelamento da sua angústia não foi bem manejado, levando a que ela abandonasse o trabalho analítico a partir da sessão de 28 de outubro último, após 11 sessões de atendimento.
 
 
Referências:
 
COUTINHO et. al.,Perversão: uma clínica possível.Reverso, dic. 2004, vol.26, no.51, p.19-27.
FREUD Sigmund. A dinâmica da transferência. Edição Standard Brasileira das obras completas de. Rio de Janeiro: Imago, v. XII, 1989.
_________. A divisão do ego no processo de defesa.ESB . v. XXIII.
_________. Além do princípio do prazer. ESB. v. XVIII.
_________. Fetichismo.ESB. v. XXI.
_________. Observações sobre o amor transferencial.ESB. v. XII.
_________. Recodar, repetir e perlaborar. ESB. v. XII.
_________. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. ESB. v. VII.
_________. Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais. ESB. v. XVII.
 
 
 
 

 

publicado por Fernando Gusmão às 21:29
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UMA ANÁLISE PSICODINÂMICA DA EMPRESA PRIVADA.

 

 

Introdução

 

Embora Freud não se tenha debruçado precipuamente sobre a questão das organizações, sua preocupação quanto à inserção do sujeito nas instituições está registrada em diferentes momentos da sua obra. Por exemplo, em “O Mal Estar na Civilização”, publicado em 1930, ele chama especificamente a atenção para a necessidade de se investigar esse fenômeno das organizações entendendo que o inconsciente, enquanto dimensão do psiquismo, necessariamente se evidencia em todas as organizações e fenômenos sociais humanos. Betty Fuks (2003)[1] mostra como, para Freud, a cultura humana nasce do encontro entre “a interioridade de uma situação individual - manifesta nos impulsos que vêm desde dentro do sujeito - e a exterioridade de um código universal, subjacente aos processos de subjetivação e aos regulamentos das ações do sujeito com o outro” (p.10).

A empresa privada é uma forma de organização - devidamente instituída - composta por um grupo de pessoas que se juntam com o objetivo de arregimentar meios e modos para o desenvolvimento de operações econômicas destinadas à obtenção de lucro financeiro, através da produção e/ou da venda de bens e/ou de serviços ao mercado. A empresa privada tem relevante importância sócio/econômica. Nesse sentido, Barros e Goldenstein (1996) afirmam que a estrutura básica da economia capitalista brasileira está apoiada no tripé formado pela empresa estatal, pela empresa estrangeira e pela empresa privada nacional[2].

Por outro lado, pode-se entender a Psicodinâmica como um jogo de forças que ocorre durante as atividades psíquicas. Do ponto de vista epistemológico, a psicodinâmica é uma forma de conhecimento sistematizado e uma teoria do comportamento humano e de sua motivação. Ela reconhece o papel da motivação inconsciente sobre o comportamento humano e, dessa forma, pressupõe que a configuração total da pessoa (seja física ou jurídica) e as suas reações prováveis, em qualquer momento, resultam de interações entre seus dotes herdados e o ambiente no qual viveu desde sua concepção[3].

A análise psicodinâmica da empresa privada pressupõe –como fulcro- que, além dos aspectos puramente racionais e calculáveis, o cotidiano dessas organizações é decisivamente influenciado por dimensões e desejos inconscientes e, por isso, subjetivos. Nesse sentido, Matheus e Bresler (2002)[4] referem: a subjetivação das organizações se justifica pela própria idealização que é feita em cada uma delas, a partir da qual as organizações adquirem vida própria, independente das pessoas que a. compõem.(p. 167).

Isso leva a que a organização passe a ser considerada como uma entidade psicológica completa, apta, por isso, a praticar ações descoladas das ações individuais das pessoas físicas que a integram. Essa dimensão da empresa já é, inclusive, reconhecida pela própria Ciência do Direito com vistas à responsabilização civil e administrativa da pessoa jurídica[5].

 

1 – Os Processos Psicodinâmicos na Empresa Privada.

 

A psicodinâmica da empresa mostra que o inconsciente e os processos intrapsíquicos fundamentam um jogo de forças subjetivas que, envolvendo intercâmbios simbólicos indivíduos/ indivíduos e indivíduo/empresa, determinam importantes fenômenos organizacionais, inclusive aqueles afiançadores de poder e os que definem diferentes status pessoais. Tudo isso ocorrendo a partir de uma rede de significados próprios e específicos de cada entidade. Vale aqui ressaltar que na dinâmica das relações entre os colaboradores da empresa emergem sempre dois tipos básicos de angústias: umas que são mobilizadas pelas tensões recíprocas e estão ligadas com a possibilidade de sofrimento de algum dano (angústia persecutória) e outras resultantes de expectativas de perda de sinergia e/ou de um bem (angústia depressiva)[6].

Esses processos psíquico-sociais resultam da conjunção de conteúdos provenientes da realidade que se conformam para expressar desejos inconscientemente reprimidos da organização. A análise psicodinâmica da empresa apóia-se, por isso, na hipótese de que a relação com o real não é direta nem natural; ela é mediada por uma ação sobre a realidade, onde se vê, concomitantemente, que:

                  - a experiência com o real não é dominada somente pela técnica e pelo conhecimento;

                  - a ação sobre o real é perpassada pelo poder criativo e pelo pensamento imaginativo

                    do sujeito; no caso, da organização.

Como via de conseqüência, as organizações passam a ser consideradas como entes que são donos de uma história específica, uma cultura própria, enfim, de uma personalidade singular. Dessa forma, elas têm vícios, sofrem crises ou entram, inclusive, em processos depressivos. Passadas essas crises, ficam as empresas mudadas, muitas vezes feridas, algumas frágeis e alquebradas, outras muito mais fortes, confiantes e criativas, tudo dependendo do grau de higidez psíquica da instituição.

A consideração da dimensão psíquica da empresa possibilita, alem do mais, enxergar aspectos não racionais em ações, atitudes, comportamentos, rotinas e regulamentos das empresas, cujas racionalidades não são criticadas em um primeiro momento.

Nessa situação, a empresa aparece, então, como um espaço possível de investimento dos impulsos dos seus colaboradores, portanto, um espaço articulado ao desejo. Por exemplo, se o colaborador da organização -agora visto como sujeito - encontra na empresa um espaço que o permite realizar tais investimentos, estabelecer metas alcançáveis, construir uma auto-imagem compatível com suas aspirações e história de vida, a empresa torna-se um espaço que possibilita a regulação natural do seu equilíbrio psíquico, comportamental e somático. Caso contrário, o espaço organizacional torna-se sofrimento e demanda do sujeito o desenvolvimento de defesas psíquicas contra as formas de ser da empresa, ou seja, o leva a atuar contra a própria instituição[7].

Sob o ponto de vista de Bion (1969)[8], as empresas estimulam e, concomitantemente, frustram seus colaboradores, pois, se por um lado, os indivíduos vão nelas buscar o atendimento das suas necessidades, por outro lado, eles são impedidos de alcançar esse objetivo por conta dos medos primitivos que a empresa, enquanto grupo, ocasiona. Por isso, participar das complexidades da vida da empresa provoca no colaborador uma forte regressão que o faz apelar para mecanismos característicos das fases mais primitivas da sua vida mental. Uma dessas angústias, por exemplo, provém da ilusão da perda de diferenciação individual. O mesmo autor chama, ainda, a atenção para o fato de que, em princípio, a cooperação entre os colaboradores é voluntária, função da capacidade de cada um, dirigida para a efetivação de um determinado trabalho, obedecendo ao princípio da realidade. No entanto, poderosos impulsos emocionais, espécies de "fantasias coletivas" grupais podem impedir que os grupos de colaboradores arrostem suas empreitadas e entrem na realidade. Igualmente, essas fantasias os tornam notadamente resistentes às mudanças. Por isso, uma gestão autocrática sempre se faz necessária, principalmente no que diz respeito aos aspectos executivos da vida empresarial.

Isso se confirma pela afirmação freudiana de que o homem não é um animal gregário, mas sim um animal de horda, um ente individual numa horda administrada por um chefe. Como via de conseqüência, a empresa seria, nessa visão psicanalítica, uma horda primitiva atualizada, espaço de atendimento da demanda de uma ilusão do amor do pai/gerente (o pai/gerente assimilado ao ideal de ego da empresa), igualitariamente dividido entre os colaboradores como pacto de aliança do grupo.

A psicodinâmica organizacional mostra, ademais, que a empresa, como personalidade coletiva, reage, conscientemente e/ou inconsciente, de maneira efetiva às mudanças, mesmo que tais mudanças sejam do maior interesse para a própria entidade. Essa atitude configura o que se ajustou chamar de inércia organizacional. A reação em questão origina-se de variáveis mais profundas e poderosas - a cultura organizacional - radicada no organismo das organizações - em tudo e em todos que a formam.

Nesse sentido, o mesmo Enriquez (1997) vislumbra na psicodinâmica das organizações sete níveis ou instâncias subjetivas que as conformam: as instâncias mítica, social-histórica, institucional, organizacional, grupal, individual e pulsional. Essas sete instâncias, que podem ou não ocorrer todas (simultaneamente ou não) em uma organização, fornecem um apoio conceitual analítico da maior importância para a melhor compreensão da saúde psíquica da entidade. Colaboram, também, para o entendimento da forma como se exerce a interferência da conjuntura sobre a subjetividade e sobre a psicodinâmica da instituição, por conta da intensificação de conflitos já existentes ou decorrentes da criação de novas e delicadas situações. Sob esse olhar, o recalcamento das pulsões seria o modus operandi básico do processo organizacional, mas, também, seu condicionante fundamental, intervindo na mesma uma batalha interna a Eros, com o estabelecimento de uma oposição entre a felicidade individual e os interesses da empresa, uma peleja entre as pulsões, entre Eros, pulsão de vida e Tanatos, pulsão de morte.

Assim, durante o desenrolar das suas vidas as empresas florescem, vivem, revelam algumas vezes doenças agudas ou crônicas que as martirizam e que podem, inclusive, levá-las à morte.

 

2 – A Origem e a Gênese do Inconsciente na Empresa Privada.

 

Na grande maioria dos casos, as empresas privadas são concebidas e instaladas por empreendedores – pessoas físicas - que vêem em suas criaturas extensões dos seus próprios projetos de vida individuais. Por isso, os fundadores dessas empresas transferem para elas, por contigüidade, aspectos relevantes dos seus próprios arsenais de afetos e de material inconsciente. Nesse sentido, Fineman (1996)5 propõe a organização como um ambiente onde as vivências primitivas dos donos e dos colaboradores, notadamente a ansiedade, são revividas, fazendo com que a estrutura organizacional venha, inclusive, a refletir frustrações e apreensões dos seus componentes, fundando, dessa forma, um campo de emoções, que tanto determina a estrutura institucional, como é por ela determinado. Enriquez (1997)[9] também acredita nessa herança de subjetivismo na conformação psicodinâmica das organizações, quando registra: Não pode existir de fato sociedade sem mitos de criação, seita sem lendas, legendas e símbolos, organizações sem uma saga do seu criador.(p.18).

Há de se considerar, também, que qualquer empresa privada, em sua condição manifesta - e à semelhança de uma pessoa física – atravessa, do seu nascimento, até sua morte, diferentes e específicas fases que podem ser assim identificadas:

 

Concepção èImplementaçãoè Maturaçãoè Regimeè Exaustãoè Extinção

 

Essas etapas ocorrendo, naturalmente, ao longo do tempo, dão lugar a diferentes situações no que diz respeito à performance da empresa, inclusive nos seus aspectos econômicos. Por isso, são, também, diferentes, no transcorrer da vida útil da organização, as taxas de retorno sobre os investimentos geradas pela organização enquanto empreendimento econômico/financeiro. 

De forma um tanto ou quanto semelhante, as conformações psicodinâmicas das empresas são afetadas de forma singular em cada uma dessas etapas das trajetórias de vida da organização. Por exemplo, nas fases de Concepção e Implementação  sobressai, naturalmente, o fenômeno da criatividade - pulsão de vida – inerente à criação. No entanto, durante a fase de Regime, no interesse da ordem e da reprodução de um modelo operacional de sucesso, a organização passa a buscar, de forma imperativa, a aplicação repetitiva das normas e dos regulamentos. Essa é a fase em que as empresas implementam seus Programas de Qualidade Total, também chamados Programas de Qualidade Continuada. É também a situação em que as empresas buscam as Certificações ISSO 9000, 9001 e 9002. Observa-se, portanto, que nessa fase é privilegiada a compulsão à repetição (uma das formas da pulsão de morte), desenvolvendo-se, por isso, na empresa, nessa situação, tendências à homogeneização, à massificação dos indivíduos, à inércia e à resistência à mudança, que terminam por levá-la à fase de Exaustão. Ao sentirem que estão ingressando na fase de Exaustão, as empresas bem administradas procuram reverter tal situação através da aplicação de Programas de Reengenharia, caracterizados por forte dose de criatividade, (novamente pulsão de vida), repensando toda a empresa, procurando, através de um salto quântico, ingressar em uma nova trajetória de ganhos crescentes.

Assim, dimensões e desejos - subjetivos e inconscientes - formam, no âmago das empresas, um repertório de valores conscientes e inconscientes que passam a ser institucionais. Conforme já destacado, esses valores agregam-se à dimensão institucional da organização através de um processo, basicamente histórico, que vai além das pessoas isoladamente. Esse processo compõe para a empresa uma "personalidade" singular que, conforme assinalado, geralmente reage às mudanças oriundas de ações individuais e que tende a "colonizar" e a enquadrar os indivíduos, fazendo com que as pessoas se submetam a tal sistema de valores. Esse sistema de valores é comumente conhecido como cultura organizacional.

Assim, embora formada essencialmente por pessoas, as empresas não devem ser concebidas como o somatório delas, pois são muito mais que a soma relativa dos indivíduos que a compõem. Com efeito, alicerçada no grupo de pessoas que lhe deu origem, surge uma superestrutura organizacional, síntese conseqüente das contradições naturalmente existentes desde sua formação, diferenciando-se, por isso, de tudo que lhe deu origem. Dito de outra forma, essa superestrutura -composta de formações diversas, inclusive, ideológicas, religiosas, filosóficas, jurídicas e políticas- não é, ao final, uma simples amálgama de filosofias e de ideologias individuais. É algo que aparece a partir delas, mas é alguma coisa totalmente nova.

 

3 - A Psicodinâmica e o Comportamento das Empresas Privadas.

 

Sabe-se que a marca em Freud é a dúvida do que está lá, latente, além do manifesto, por trás da consciência. Essa permanente atitude de dúvida tem de estar, portanto, no embasamento das intervenções e dos estudos que utilizem os referenciais psicanalíticos como teoria do conhecimento das organizações.

O que está latente nos comportamentos? Para responder a esta questão é imprescindível pesquisar primeiramente o comportamento aparente em si, pois ele é o caminho para o desvelamento do procedimento latente. Dessa forma, o elemento empírico, em si mesmo, é a base para a dúvida. A interpretação dessa dúvida origina uma epistemologia construtivista-subjetiva e uma metodologia compreensiva e lógica, com suas competentes especificidades para o conhecimento da interioridade da empresa.

Circunstâncias críticas – que demandam intervenções - trazem sempre para o comportamento das empresa reflexos de caráter psicodinâmico institucional, de alcance estratégico, na medida em que interferem na rede dos vínculos das organizações, representando sempre restrições importantes para o planejamento e para a gestão dos seus resultados. Taylor e Horochovski (1983)[10], confirmam que Kaës examina esse quadro de conflitos, insatisfações e disfunções a partir do desconforto sentido pelo sujeito à aceitação dos limites impostos pela sociedade, limites estes que se traduzem no estabelecimento de regulações dos mais diversos tipos e das interdições, o que se dá num sentido patológico.(p.16).

Por outro lado, na qualidade de sistemas imaginários, as empresas privadas ocupam um lugar destacado na dinâmica dos investimentos libidinais dos indivíduos. Nessa direção, elas procuram aliciar pessoas para um enredo de identificação narcísica, no qual o sujeito procura abrigo, estabelecendo uma identificação com a empresa para, assim, encontrar resguardo para suas ansiedades, para sua insegurança, seu temor do retorno ao caos, medo das pulsões destruidoras e do desconhecido.

Nessas condições, conforme já assinalado por Freud, ocorre um arranjo perverso: a fantasia, que na neurose é recalcada, a perversão põe em ato. Ou seja: o colaborador (neurótico), sedento por encontrar o condão para a realização dos seus desejos, seduz-se facilmente frente à empresa que perversamente, acredita tê-lo encontrado. Registram Matheus e Bresler (2002): dessa forma, perversidades proibidas na vida singular do sujeito, tornam-se possível no vínculo com a empresa.(p.171).

No entanto, as organizações sofrem as conseqüências do labirinto de interditos e fantasias que elas mesmas terminam por construir. O sujeito, preso em tal labirinto, começa um processo de gradual esfacelamento de sua identidade à medida que se obriga a responder a uma série de normas de caráter ideológico. Entre essas normas destacam-se, no sistema capitalista, as de caráter moral e as que prescrevem a necessidade do sucesso a qualquer preço, necessidade que é incorporada no íntimo do sujeito e que, segundo discurso corrente, tem na organização a sua sede principal. Mendes (2002)[11] ressalta:

Fenômenos como ansiedade e sintomas neuróticos estão geralmente associados com a forma de os colaboradores experienciarem sua organização. A estrutura organizacional, caso neurótica, pode fazer com que seus empregados se comportem também de forma neurótica ou utilizem defesas diante dos conteúdos, muitas vezes dolorosos, que estas organizações resgatam da mais tenra infância, sendo reproduzidos no espaço de trabalho as suas primeiras relações objetais. (p.6)

 

Por sua vez, Kernberg (2000), [12] no prefácio do seu livro “Ideologia, Conflito e Liderança em Grupos e Organizações” comenta este assunto:

A mais dramática ilustração da interação entre a dinâmica individual e a de grupo talvez seja a observação de que pacientes muito doentes podem ter um desempenho perfeitamente normal em grupos cuja estrutura seja sadia e as tarefas sejam claramente definidas e mantidas. Em contrapartida, profissionais perfeitamente sadios e ajustados, ao trabalharem dentro de grupos regressivos, com uma estrutura inadequada de distribuição de tarefas, podem rapidamente regredir para um comportamento inadequado. (P.vii)

 

Assim, considerando o pensar de Freud, de que racionalidade é freqüentemente irracionalidade disfarçada, o cartesianismo de um Frederick Taylor na administração de uma empresa pode disfarçar uma forma extrema de compulsividade. Também, a excessiva preocupação de um gestor com alvos e objetivos muito bem explicitados pode esconder uma insegurança básica na sua vida.. No geral, pode-se desculpar, racionalizar, punir e controlar a empresa o quanto se quiser, mas as forças reprimidas, que se escondem nas sombras da racionalidade, estarão sempre presentes e atuantes.

Dessa forma, constitui-se a cada instante na empresa o que se convencionou chamar de Clima Organizacional, fruto da psicodinâmica institucional, que se expressa, do ponto de vista comportamental, como o resultado de uma percepção coletiva que os empregados têm de práticas, políticas e valores organizacionais e que também demonstra os níveis de motivação e credibilidade existentes. Dito de outra forma, o Clima Organizacional é a maneira, positiva ou negativa, como os colaboradores, influenciados por fatores internos e/ou externos à organização, percebem e reagem, num determinado momento, ao conjunto de variáveis e fatores, como as políticas, os procedimentos, usos e costumes existentes e praticados pela organização. Assim, ele reflete o que pensa o colaborador sobre sua organização, com a sua cultura, suas normas, seus usos e costumes e como ele interpreta e reage, positiva ou negativamente, a tudo isso.

6 – Considerações Finais

 

A atividade empresarial, como toda atividade social, acontece através e com o concurso do homem. Por sua vez, a atividade desse homem decorre da leitura que ele faz do fenômeno que esteja sob foco. Tal leitura é moldada, em última análise, pelas categorias aperceptivas do sujeito, ou seja, pela sua subjetividade, tudo isso em um processo contínuo de constante retroalimentação.

As organizações, por extensão, as empresas privadas, ocupam, na contemporaneidade, os lugares abandonados pelas antigas instituições – Estado, Religião, etc. – e, com isso, passaram, também, a se constituir em espaços de concretizações de desejos e campo para o florescer das ilusões dos seus integrantes.

Do ponto de vista da análise da psicodinâmica de uma empresa, o mais relevante não é, apenas, a possibilidade de que através dela possam ser elucidadas e ajustadas dificuldades circunstanciais, mas sim que, gradativamente, ocorre uma meta-aprendizagem. Nessas condições, os envolvidos no trabalho instruem-se no olhar e pensar nos eventos e a achar seus efeitos, seu sentido e suas integrações. Nesse contexto, a psicanálise contribui com conceitos fundamentais para o melhor entendimento da dinâmica empresarial. Para tanto, há de se ter sempre em mente o não-dito como um indicativo para interpretar os elementos explícitos e, dessa maneira, apreender os fenômenos organizacionais.

Por sua vez, o clima organizacional, fruto da psicodinâmica da empresa, não pode ser “criado” pela organização, no entendimento exato de se produzir determinada coisa num dado momento, mas é alguma coisa que já existe, viva e influente, dentro dela, resultado, sobretudo, de condicionantes internos, das decisões assumidas e da forma como os colaboradores são liderados pelos seus superiores. Esse clima alcança o colaborador, frontalmente, quanto à percepção que ele tem da empresa, conformando suas diferentes formas de agir.

Outra consideração importante é que adotar a dimensão inconsciente do sujeito que forma a empresa implica em que seja reconhecido o exagero de racionalização no tratamento dado às organizações. Tal postura permite, ademais, considerar no processo de intervenção fenômenos importantes e tidos como irracionais, tais como: medo, ódio inveja, agressão e desejo sexual. Esses fenômenos, intensamente implicados no dia-a-dia das empresas, a rigor determinam a dinâmica organizacional com tanto ou mais peso do que os aspectos mensuráveis da entidade.

 Finalmente, aceita a idéia que uma empresa é um ente, com personalidade própria, desenvolvida durante o seu processo histórico, só se poderá melhor compreendê-la a partir da análise de sua história. E só se poderá modificá-la a através de intervenções que levem em conta a sua psicodinâmica e a sua cultura, os seus valores institucionais - sua superestrutura. Isto faz com que, no exercício de sua função, o consultor de empresas possa e deva, inclusive, ocupar também o lugar de crítico da cultura. Isso explica porque tentativas de mudanças nas empresas, a partir somente de seus indivíduos, fracassam sistematicamente, possuindo efeitos, na melhor das hipóteses, somente temporários. Na verdade, são necessárias intervenções mais profundas, que abranjam, não somente os aspectos cognitivos das pessoas, mas que possam trazer à tona o inconsciente institucional, com as neuroses e patologias organizacionais, e, então, integrá-las, possibilitando que a intervenção aja sobre a superestrutura institucional e consiga realmente modificá-la – para melhor - de forma perene.

 

Referências Bibliográficas



[1] FUKS, Betty. Freud e a Cultura.  Rio de Janeiro, R. J.: Jorge Zahar Editor, 2003. 74 p.

 

[2]

publicado por Fernando Gusmão às 21:27
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Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

...

Práticas Morais em uma Organização Familiar

                 Fernando A. R. de Gusmão[1]

Ato ético: "é aquele que não prejudica a experiência ou a expectativa de felicidade de outras pessoas". Sua Santidade o Dalai Lama.

 

Introdução

 

A empresa privada é uma forma de organização composta por um grupo de pessoas que se juntam com o objetivo de arregimentar meios e modos para o desenvolvimento de operações econômicas destinadas à obtenção de lucro financeiro, através da produção e/ou da venda de bens e/ou de serviços ao mercado.

Para tratar das práticas morais em um grupo familiar recorre-se, de início, a Vasquez (2005), e à sua concepção de que a ética depara com uma experiência histórico-social no terreno da moral, ou seja, com uma série de práticas morais já em vigor.

Partindo-se dessas práticas, ou seja, conhecendo-se e observando-se o que é praticando em termos de moral, esse autor diz que, então, a ética irá procurar identificar, analisar e entender os seguintes aspectos do comportamento moral do ser humano:

1.           A essência da moral

2.           A origem da moral

3.           As condições objetivas do ato moral

4.           As condições subjetivas do ato moral

5.           As fontes da avaliação moral

6.           A natureza dos juízos morais

7.           A função dos juízos morais

8.           Os critérios de justificação dos juízos morais

9             Os princípios que regem a mudança e a sucessão de diferentes

           sistemas morais.

 

Seguindo esse roteiro de Vasquez, serão feitos rebatimentos dos diversos conceitos envolvidos nessa abordagem sobre a realidade contemporânea da organização familiar:

 

1 – A essência da moral de uma empresa familiar

 

Jean Piaget ensina que “toda moral consiste num sistema de regras, e a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito que o indivíduo adquire por essas regras”. Nesse sentido, a empresa familiar responde perfeitamente ao entendimento de Piaget na medida em que nesse tipo de empresa o respeito às regras - sejam elas escritas ou consentidas – é um aspecto basilar quanto ao comportamento dos seus colaboradores.

 

2 – A origem da moral em uma empresa familiar

 

As empresas familiares são empresas privadas concebidas e instaladas por empreendedores – pessoas físicas - que vêem em suas criaturas extensões dos seus próprios projetos de vida individuais. Por isso, os fundadores dessas empresas transferem para elas, por contigüidade, seus princípios morais os quais dão origem e contribuem para formar a moral da empresa familiar. Por outro lado, é importante notar que a modernidade, pela secularização, trocou Deus pela Sociedade, como principio de julgamento moral, ou seja, determinou o fim da subserviência à lei do pai (pátria), substituindo-a pelo interesse dos irmãos (frátria), jugulando o indivíduo ao interesse da coletividade que deveria ser defendido pelo aparato estatal (Governo). No entanto, o Estado terminou por filiar-se ao Mercado, pervertendo-se, e ambos pulverizam o princípio de comunidade. Assim, o principio do Mercado se sobrepôs ao Estado e à Comunidade. Como conseqüência, comenta Alain Touraine, “a ideologia modernista, (...) dominou também no mundo econômico, onde tomou a forma do capitalismo...”. Pode-se, por isso afirmar que a origem da moral em uma empresa familiar encontra-se parte em seus fundadores e parte na ideologia capitalista.

 

3 – As condições objetivas do ato moral em uma empresa familiar

 

Podemos entender os atos morais como os atos humanos praticados livre e conscientemente. No geral, sua condição objetiva é a presença no ato de uma totalidade de elementos: motivos, intenção ou fim, decisão pessoal, emprego de meios adequados, resultados e conseqüências. A administração familiar permite uma estrutura mais simples e enxuta. Ou seja, menos burocratizada. Por outro lado, as bases da empresa familiar (patrimônio, valores, história) são compartilhadas, e isso mobiliza um sentimento comum de unidade. Em uma empresa familiar, dada à simplicidade e à proximidade de todos com o poder, as condições objetivas do ato moral se fazem normalmente presentes.

 

4 – As condições subjetivas do ato moral na empresa familiar

 

Segundo Sá (2002), a explicação psicológica do comportamento humano possibilita a compreensão das condições subjetivas dos atos dos indivíduos e, desse modo, contribui para a compreensão da sua dimensão moral. Os fundadores das empresas familiares também transferem para elas aspectos relevantes dos seus próprios arsenais de afetos e de material inconsciente. Por isso, a dimensão moral da empresa familiar também pode ser devidamente compreendida a partir da compreensão psicológica dos seus fundadores. Nesse caso é muito elucidativo o confronto que ocorre entre o sistema de valores dos fundadores, em sua condição de empresários, de empreendedores, vis-à-vis os condicionantes psicológicos dos seus colaboradores enquanto empregados dessas empresas.

 

5 - As fontes da avaliação moral

 

Em uma empresa privada familiar –dentro de um contexto capitalista – ocorre naturalmente uma situação contraditória no que diz respeito às fontes de avaliação das regras morais ali existentes. Isso, porque a cultura capitalista tem como fulcro a tese de que o interesse individual gera o bem-estar da coletividade. No entanto, essa mesma tese leva a que os empregados comecem a defender seus interesses particulares com prioridade em relação aos interesses da organização. Para sobreviver nessa situação, faz-se necessário que no capitalismo nunca seja atingido o patamar do pleno emprego. Dito de outra forma, o capitalismo exige, para sua sobrevivência, a existência do exercito de desempregados.

 

6 - A natureza dos juízos morais

 

A natureza dos juízos morais é estudada pela Metaética que, nesse sentido, procura definir, por exemplo, o que seja <<o bem>>, <<o dever>> e «quais os princípios morais básicos do certo e do errado». Nesse sentido, vigora na empresa familiar o entendimento de que <<o bem>> é tudo aquilo que contribui para o aumento do patrimônio da organização e, por via de conseqüência, da família. <<O dever>>, <<o certo>> e o <<errado>> estariam, assim, compromissados, fundamentalmente com o atingimento desse <<bem>>. 

 

7 - A função dos juízos morais

 

A ética, como ramo especial da lógica, deve sua existência à função dos juízos morais. Entendida a natureza do julgamento moral, os juízos morais são, então, guias para se responder a perguntas da forma <<o que devo fazer?>>. Dessa maneira, os juízos morais tendem, sobretudo, a evocar certas emoções nos outros sujeitos ou a produzir certo efeito emocional. Assim, os juízos morais estão diretamente ligados às emoções. No caso das empresas privadas familiares, a emoção que permanentemente sobressai é o medo. O emotivismo sublinha, assim, os aspectos expressivos dos juízos morais.

 

8 - Os critérios de justificação dos juízos morais

 

A finalidade da moral e, por via de conseqüência, sua justificação é a determinação normativa. Nessa justificação estão imbricados elementos racionais com fatores emocionais. Visto dessa maneira, o elemento central do conceito de moral deve contemplar a validade universal e a imparcialidade, englobando, também, um conceito de bem ou de boa pessoa. Em sendo assim, a moral, como obrigação, tem como base o ato da vontade de querer. A sanção para o não cumprimento da norma moral também está no plano do sentimento: indignação e vergonha. Em suma, a moral faz parte da autocompreensão do homem como membro de uma comunidade. O indivíduo, como membro de uma comunidade moral, livremente escolhe uma concepção de moral. Por isso, o empregado de uma empresa familiar termina por acolher “livremente” a concepção da moral da família defendendo os interesse da organização como se fizesse parte da família mas abdica, de plano, de receber seu quinhão do patrimônio familiar.

 

 

9 - Os princípios que regem a mudança e a sucessão de diferentes

                                         sistemas morais.

 

A vida moral efetiva, com princípios, valores e normas muda quando muda, de forma radical e rapidamente, a vida social. Na mudança da vida social, os princípios, valores ou normas nela encarnados entram em crise e exigem a sua substituição por outros ou a sua justificação. Surge então, a necessidade de novas reflexões ou de uma nova teoria moral, pois os conceitos, valores e normas vigentes se tornaram problemáticos. Assim se explica a aparição e sucessão de doutrinas éticas fundamentais em conexão com a mudança e a sucessão de estruturas sociais, e, dentro delas, da vida moral.

Ética e história, portanto, relacionam-se duplamente:

a) Com a vida social e, dentro desta, com as morais concretas que são um dos seus aspectos;

b) com a sua história própria, já que cada doutrina está em conexão com as anteriores (tomando posição contra elas ou integrando alguns problemas e soluções precedentes), ou com as doutrinas posteriores (prolongando-se ou enriquecendo-se nelas).

As doutrinas éticas não podem ser consideradas isoladamente, mas dentro de um processo de mudança e de sucessão que constitui propriamente a sua história.

As empresas familiares representam a grande maioria, cerca de 80% do universo empresarial brasileiro e enfrentam desafios que podem conduzir ao fracasso do negócio e rupturas familiares, principalmente quando o ambiente é de sucessão da administração.

Questões como manter a estratégia definida pelo fundador ou promover mudanças, incluir ou afastar integrantes da família, profissionalizar a gestão ou manter a administração tradicional, planejar a sucessão da gestão ou deixar o tempo conduzir para a solução das questões, clamam por definição para que a sucessão seja bem sucedida.

O desafio da sucessão da gestão nas empresas familiares se amplia na medida em que aumenta o porte da empresa e a competitividade do mercado. Os conflitos são naturais e surgem em diversos momentos com o ingresso da nova geração.

A análise do que seja prioridade, muitas vezes, varia. São diversos os pontos de vista e os interesses envolvidos. E o processo enfrenta questões delicadas como na hora de eleger os novos líderes, restringir participações, delegar, dividir poderes e profissionalizar a gestão.

Neste ponto, vale lembrar que as disputas internas podem desbordar em discussões judiciais e em cisão da empresa, o que geralmente provoca perda de rentabilidade do negócio, não sendo rara a hipótese de quebra.

Um dado que deve ser considerado é que a grande maioria das empresas familiares não sobrevivem ao processo de sucessão à segunda geração e o número se reduz consideravelmente quando a sucessão é para a terceira e quarta gerações.

Entre as sobreviventes, a grande maioria é composta por empresas de porte pequeno, com poucos funcionários e que funcionam fora dos grandes centros. Embora não haja uma única fórmula aplicável a qualquer sucessão na gestão da empresa familiar, é certo que existem etapas que devem ser cumpridas e questões que devem ser enfrentadas a partir de um planejamento, o que pode desafiar o apoio de um consultor profissional para que o foco no negócio e o desenvolvimento da empresa não sofram com o processo.

A sucessão na gestão, por outro lado, não implica em afastamento imediato e integral do fundador. Tudo dependerá das particularidades inerentes à empresa, do núcleo familiar e da composição dos interesses.

 

 

Referências Bibliográficas

 

SÁ, Antônio Lopes de. Ética Profissional. 4. ed. rev. e ampl. São Paulo: Atlas, 2002. p.30.



[1] Fernando A. R. de Gusmão - Especialista em "Psicologia Clínica nas Instituições" pela FAFIRE - Faculdade Frassinetti do Recife.

 

publicado por Fernando Gusmão às 22:49
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Terça-feira, 14 de Julho de 2009

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A SOCIOECONOMIA SOLIDÁRIA COMO UMA VIA DE SOLUÇÃO PARA O MAL-ESTAR DA CONTEMPORANEIDADE
 
Resumo.
No desenrolar da sua existência, a civilização ocidental atravessou sucessivos estágios, passando da pré-modernidade para a idade moderna cerca de 1500.  A modernidade propunha o desenvolvimento das técnicas e das ciências, a evolução das forças produtivas e a construção política do Estado Moderno, sob o império da razão e do humanismo. Ocorreu, posteriormente, uma perversão do modernismo, originando um ser social focado essencialmente em si próprio, nas suas demandas narcísicas, com sua identificação fornecida mais pelo que consome, do que pelo que é, caracterizando o mal-estar da contemporaneidade. Tal perversão aconteceu porque, no âmago da Sociedade, o Capitalismo, via empresa privada, fez com que o Mercado se sobrepusesse ao Estado e à Comunidade. A produção econômica em condições de solidariedade e cooperação – conceituada modernamente como Socioeconomia Solidária - aparece, naturalmente, como uma via de solução para esse mal-estar.
 
Introdução.
Este trabalho propõe-se olhar o cooperativismo (a Socioeconomia Solidária), como uma via de solução para o mal-estar da contemporaneidade. Mal-estar esse caracterizado pela ausência do Estado na sua função regulamentadora, causando relações sociais enfraquecidas e, por isso, intrinsecamente descartáveis. Além disso, a grande velocidade das mudanças dificulta a construção de identidades mais estáveis, levando a que a incerteza e a insegurança passem a fazer parte da natureza do atual cenário existencial. Para tanto, o trabalho examina as características sócio psíquicas sobre as quais opera a empresa privada na civilização ocidental e sua contribuição para a modelação do homem atual, vítima da ideologia modernista que afirma, antes de tudo, a prevalência do indivíduo e a morte do sujeito. Examina, ao final, os fundamentos estruturais e estruturantes da empresa cooperativa como restauradora do princípio unificador - sujeito/razão – com vistas à re-união da modernidade hoje dividida e fragmentada.   
 
Da Modernidade à Pós-modernidade.
O termo moderno originou a palavra modernidade, sempre com uma conotação positiva, baseada no pressuposto de que existiu um progresso da humanidade na transição da pré-modernidade para a modernidade.
Isso porque, conforme destaca Touraine[1], diferentes estruturas filosófico-políticas formaram essa modernidade: (a) a sacralização da sociedade, (b) uma insurreição do homem esclarecido contra a tradição e (c) a subordinação à lei natural da razão. Nesse sentido, Dominique Wolton, ao conceituar “Modernidade”, assinala: “as políticas sociais da modernização devem ter, como único objetivo libertar o caminho da razão suprimindo as regulamentações, as defesas corporativistas ou as barreiras alfandegárias, criando a segurança e a previsibilidade de que o empresário necessita e formando gestores e operadores competentes e conscienciosos”[2]. É importante notar que a modernidade, pela secularização, trocou Deus pela Sociedade, como principio de julgamento moral. Em outras palavras, determinou o fim da subserviência à lei do pai (pátria), substituindo-a pelo interesse dos irmãos (frátria), jugulando o indivíduo ao interesse da coletividade. Nessas condições, a formação das subjetividades vem se arranjando através de opções individuais e racionais, suportadas pelo coletivo, concebido aí pelas autoridades e pelas instituições, sempre no pressuposto de uma harmonia entre individuo e sociedade, valendo para o individuo o que valesse para a sociedade. No entanto, diversos pensadores, sendo Nietzsche o mais radical, já apontavam em suas épocas os prejuízos da ideologia modernista. Sigmund Freud, por exemplo, questionou o ideal do homem como ente racional e Michel Foucault mostrou como a modernidade é contrária à idéia de progresso do bem-estar devido aos processos de alienação suscitados pelas sociedades modernas. Isso, porque, enquanto o projeto da sociedade moderna estava apoiado em dois pilares: (a) a emancipação do indivíduo e (b) a regulação do tecido social pelas três instâncias - Estado, Mercado e Comunidade - o Estado terminou por filiar-se ao Mercado, pervertendo-se, e ambos pulverizam o princípio de comunidade. Assim, a perversão aconteceu porque o principio do Mercado se sobrepôs ao Estado e à Comunidade. Lembrando, ainda, Touraine[3], “a ideologia modernista, (...) dominou também no mundo econômico, onde tomou a forma do capitalismo...”. Não é, por isso, sem razão que Jürgen Habermas entende a modernidade como um “projeto inacabado”, sugerindo que “deveríamos aprender com os desacertos que acompanham o projeto” [4].
 
A Pós-Modernidade.
Frederic Jameson[5] considera os anos 60 como o início da pós-modernidade, entendida por ele como “lógica cultural do capitalismo tardio”. Uma ilustração do conceito de pós-modernidade é uma peça publicitária recente[6], de um banco canadense, na qual se vê um mapa-múndi onde os continentes, países e regiões aparecem proporcionalmente às suas relevâncias no Mercado de capitais. A repartição do Mundo torna-se, então, insólita: os continentes latino-americano e africano ficam reduzidos a acanhadas manchas enquanto os EUA, a Europa e o Japão aparecem superdimensionados. Importante a sentença que inicia a mensagem: "Este é o mundo real".
A pós-modernidade repousa sobre o Mercado, no contexto do neoliberalismo econômico. Atílio Boron[7] confirma que o neoliberalismo é uma ideologia amplamente difundida na sociedade contemporânea. Por isso, diz: “... o senso comum da época é neoliberal. Gostemos nós ou não, ele se implantou profundamente nas massas. O Mercado é idolatrado; o Estado é demonizado; a empresa privada é exaltada e o ‘darwinismo social de Mercado’ aparece como algo desejável e eficaz do ponto de vista econômico”. Segundo Sáder[8], o neoliberalismo reinterpreta a correlação de forças e o processo histórico de cada país, definindo como vilões do atraso todas as forças sociais que lutam por igualdade e justiça social. Ao mesmo tempo em que promove os conservadores e a direita, a pós-modernidade se expressa no desmanche do patrimônio público - via privatizações - e no modelo de Estado mínimo, em lugar de Estado necessário. Um dos produtos mais nefastos da pós-modernidade é o aumento da pobreza pelo mundo[9]. Nesse sentido, o PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento[10], atesta que a pobreza, em níveis mundiais, vem subindo, tendo aumentado 20% na última década. A violência é outro subproduto da pós-modernidade. Segundo Ib Teixeira publicou em “Conjuntura Econômica”, edição de abril de 1998, “a criminalidade no Brasil está consumindo algo equivalente a US$ 84 bilhões por ano com a explosão da violência (...) nosso país está perdendo cerca de 10,5% do seu PIB em conseqüência disso”.
 
A Empresa Privada e a Pós-Modernidade.
A empresa privada é suporte econômico da sociedade contemporânea e é, também, modelo arquetípico dessa mesma sociedade. Por isso, pode ser entendida como cerne e como objetivo do Mercado. Dessa forma, o homem contemporâneo submete-se ao Mercado sob a égide da empresa privada onde impera uma dominação psicológica dos empregados que se manifesta com o semblante de regimes totalitários, materializando-se no autoritarismo, no controle, na transmitância ideológica (que esconde os conflitos) e na sujeição dos empregados à opressão dos administradores, e que termina por aliená-los, transformando-os como que em cordeiros, sendo neles introjetados somente valores alinhados ao status quo. Nesse ambiente, a energia pulsional dos colaboradores não encontra descarga no trabalho, tendo que descarregar-se no corpo do empregado, fazendo-o adoecer psiquicamente, comportamentalmente ou de forma somatizada. Assim, a empresa torna-se um presídio psíquico, onde a cultura é constituída por mecanismos que convêm aos intentos conscientes e inconscientes de seus constituintes, transformando-se em celeiro de personalidades perversas, com extremas dificuldades de simbolização e, por via de conseqüência, de criatividade. Lembrando E. Lociser[11], “a administração científica de Taylor representou a "negação originaria" do sujeito e de sua capacidade autogestiva em situação de trabalho”. Nessas circunstâncias, o Mercado, via empresa privada, molda um indivíduo alienado e perverso, que, como opção de sobrevivência, torna-se um desviante atual, um estulto, em uma ou mais das suas apresentações: dependente, desregulado, inibido, estressado ou deformado[12].
 
A Cooperação como Alternativa.
Como opção a esse totalitarismo que aliena e perverte o cidadão, Milton Friedman, em seu livro “Capitalismo e Liberdade”, de 1962, diz que, “fundamentalmente, há dois meios de coordenar as atividades econômicas de milhões. Um é a direção central utilizando a coerção – a técnica do Exército e do Estado totalitário moderno. O outro é a cooperação voluntária dos indivíduos - a técnica do mercado” [13]. É importante atentar para o fato que Friedman em sua alternativa ao totalitarismo, emparelhou “cooperação voluntária” e “mercado”. Nesse mesmo vislumbre de alternativa, Alvin Toffler, em 1970, apontava: "Nesse contexto confuso (...), os sistemas de valores se estilhaçam e se destroem, enquanto os botes salva-vidas da família, a igreja e o estado são violentamente sacudidos...” [14]. Propunha, então, que a civilização somente evitaria sua falência se substituísse a economia exclusivamente competitiva por uma economia também solidária, onde a produção econômica deixasse de ter por base o modelo capitalista ou o modelo socialista, alternativas da época, e passasse a ter como pressuposto uma economia solidária. Nesse novo modelo, dizia Toffler, a produção cooperativa era a solução racional. Por isso, o trabalho em condições de solidariedade e cooperação – conceituado modernamente como Socioeconomia Solidária - aparece, naturalmente, como uma via de solução para esse mal-estar da pós - modernidade.
 
A Socioeconomia Solidária.
No Congresso do Centenário da Aliança Cooperativa Internacional - ACI, na Inglaterra, em 1995, foi registrado o seguinte conceito: “Cooperativa é uma associação autônoma de pessoas que se unem, voluntariamente, para satisfazer aspirações e necessidades econômicas, sociais e culturais comuns, por meio de uma empresa de propriedade coletiva e democraticamente gerida”. (grifo nosso). O mesmo Congresso marcou os princípios do cooperativismo como: ajuda mútua; responsabilidade; democracia; igualdade; equidade; solidariedade; honestidade; transparência; responsabilidade social; e preocupação pelo seu semelhante.  
 
Outra diferença fundamental da Socioeconomia Solidária em relação às teorias e práticas do socialismo e do capitalismo é que na Socioeconomia Solidária a centralidade da gestão não está no Estado, como no socialismo, nem nos donos da empresa ou nos seus feitores, como no capitalismo, mas, sim, em organizações democráticas[15], reunindo numa mesma organização produtiva dois seus aspectos fundamentais: a racionalidade econômica e a solidariedade. Em outras palavras, trata-se de um tipo especial de empresa, semelhante a outras no que se refere, ao cálculo econômico, ao profissionalismo da gestão, à permanente absorção de conhecimentos (learning organization), mas que se distingue das empresas privadas por utilizar esses elementos em benefício de todos os cooperados. É uma das formas de organizar a produção, transformação e a distribuição sobre princípios solidários, onde aspectos da gestão, como cooperação/interação, ajuda mútua e motivação para a mudança são componentes estratégicos. Nela, os valores da cooperação, do respeito à diversidade, da complementaridade e da solidariedade passam a prevalecer sobre os valores da competição estéril e do individualismo combativo vigentes no sistema tradicional. A cooperativa permite, portanto, que os sujeitos utilizem a imaginação criativa em seu trabalho, sem a repressão de regras imperativas, tendo sempre a cooperação como espaço do tratamento dos conflitos.
 
Conclusão.
A Socioeconomia Solidária já vem sendo foco de políticas públicas governamentais e não-governamentais em todo mundo. Se hoje nos EUA 28% do PIB é gerado por cooperativas, no Brasil esse indicador atinge somente cerca de 6%. No intuito de aumentar esse índice, o Governo Federal criou, recentemente, a Secretaria Nacional de Economia Solidária – SENAES, que é a única existente nesse nível no mundo.
Atuando no Mercado, na circunstância do neoliberalismo, a empresa cooperativa permite que o indivíduo, no seu âmbito, atue como sujeito, na plenitude de sua subjetividade, enquanto a empresa cooperativa, operando no Mercado, exerce seu individualismo racional, competindo por lucros cada vez maiores em benefício dos seus cooperados, sem prejuízo da integridade psicológica de cada um, restaurando, assim, o princípio unificador - sujeito/razão.
Nesse sentido, Fritjof Capra, em 1982, convocava os economistas: “A nova ciência (econômica) deve tornar-se mais humanista (...).Tal abordagem transcenderá de longe tudo que possa ter sido tentado nas ciências de hoje; em sua natureza essencial será, simultaneamente, cientifica e espiritual” [16].
 
Referências

 


[1] TOURAINE, A. 1985. An Introduction to the Study of Social Movements. Social Research, New York, v. 2, p. 749-788.
 
[2] Cf. Glossário, disponível na WEB, < http://www.wolton.cnrs.fr/glossaire/port_modernidade.htm>. Acessado em 15/4/2005.
 
[3] TOURAINE, A. Crítica da Modernidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994, p. 17 – 40 AS LUZES DA RAZÃO: a MODERNIDADE TRIUNFANTE.
 
[4] HABERMAS, J.: “Modernidade – um projeto inacabado”. In: ARANTES, O. & ARAN TES, P.: Um ponto cego no projeto moderno de Jürgen Habermas. SP. Brasiliense. 1992. Pág. 118.
 
[5] JAMESON, F. (1992) O Inconsciente político: a narrativa, como ato socialmente simbólico. SP. Ática
 
[6]BITTENCOURT, J. Filho GLOBALIZAÇÃO E SOBERANIA. Notas Éticas. Disponível em http://www.wkve.com.br/forumjuridico/artigo3.htm (7/4/2005).
 
[7] BORON, A. “Justiça sem capitalismo, capitalismo sem justiça” in Álvaro de Vita e Atílio Boron, A. Teoria Política e Filosofia Política, São Paulo, Edusp, 2004.
 
[8] Para uma discussão sobre o significado do neoliberalismo, consultar: ANDERSON, 1995; ANDERSON, 1996; BORON, 1994; DINIZ, 2000:24-30; IANNI, 1996:139-140; OLIVEIRA, 1998; e SADER, 1995:173-195.
 
[9] Essa pobreza é caracterizada pela impossibilidade de acesso de grande parte da população à terra e ao capital; a recursos produtivos e serviços; a oportunidades de emprego e a condições adequadas de educação, saúde água e serviços sanitários.
 
[11] Lociser E 1995. A pro-cura da subjetividade: a organização pede análise. In Davel & Vasconcelos J (orgs.)
 
[12] COSTA, J. F.,1944 – O Vestígio e a Aura: Corpo e consumismo na moral do espetáculo.RJ, Garamond, 2004.
 
[13] FRIEDMAN, Milton. Capitalismo e Liberdade. São Paulo: Abril Cultural, 1984. (Título original em inglês Capilalism and Freedom de 1962, 1982 – Universidade de Chicago, EUA).
 
[14]Citado por JOSÉ AUGUSTO DELGADO em “A EVOLUÇÃO DO DIREITO NA ERA CONTEMPORÂNEA”, disponível em <http://www.jfrn.gov.br/docs/especial10.doc>. Acessado em 15/4/2005.
 
[15] ARRUDA, Marcos. Socioeconomia Solidária. In: CATTANI, Antônio David. (Org.). A outra economia. Porto Alegre: Ed. Veraz, 2003.
 
[16] CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. Tradução Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 1982.
publicado por Fernando Gusmão às 14:30
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Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

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COMENTÁRIOS SOBRE A 4ª PARTE: “A CIÊNCIA E A LEI NA NOVA ECONOMIA POLÍTICA” DO LIVRO “FORMAS CLÍNICAS DAS NOVAS PATOLOGIAS MENTAIS”.
 
 Na Página 64, da 4ª Parte: “A Ciência e a Lei na nova Economia Política” do livro “Formas Clínicas das Novas Patologias Mentais” um interlocutor, Antonio Carlos, diz que Charles Melman em “O Homem sem Gravidade” fala de uma passagem de uma cultura baseada no recalque e no sintoma para uma outra cultura do gozo e ele (Antonio Carlos) pergunta:
Quais as conseqüências disso para o trabalho do analista?
 
E responde, dizendo: “Com certeza ocorre uma certa perplexidade do tipo:- então, o que a gente faz agora? Se não ha mais castração, se não ha mais recalque se não há mais desejo, se não há mais real”. E ajunta:  “no intervalo (jovens) me falaram da perplexidade em que se encontravam que se resumia no seguinte: diante de tudo isso onde é que fica a fala? E continua “eu gostei muito dessa questão. Pensei o seguinte para que a gente possa isolar com clareza a possibilidade da nossa intervenção. Se a gente pode e deve falar de mutação cultural, de um novo homem, de uma nova era de um homem novo, acho que não podemos falar de um sujeito novo, simplesmente porque o sujeito é apenas aquilo que o significante representa para outro significante. E é baseado nessa estrutura mínima que a gente pode se reassegurar da nossa ação e localizá-la adequadamente, pela simples razão que, quem chega ao nosso consultório, vem rodeado de uma cultura nova, pode se acreditar um homem novo, mas para nós é um sujeito. De nossa ótica é um sujeito, e, como tal, o mesmo sujeito mesmo atrapalhado por circunstâncias que são novas e até absolutamente novas, mas é o mesmo sujeito enquanto é apenas aquilo que o significante representa para outro significante. Se no não tivermos esse ponto claro parece que a gente não pode trabalhar. Enfim, são considerações sobre as quais eu gostaria de ouvi-lo”.
Melman responde: Antonio Carlos é sempre muito gentil comigo. O que ele disse é bem articulado e ele tem razão.
Do seu ponto de vista, o Doutor em Filosofia, Daniel Tourinho Peres, assevera: A psicanálise avança, o teorizar segue como um deslizar metonímico do desejo do psicanalista, mas o inconsciente permanece freudiano, ele não avança, e, por isso mesmo, Lacan lança mão do que há de mais avançado na matemática para tentar, ainda uma vez mais, defini-lo.
Com essa mesma preocupação, Jorge Forbes, no seu site na Internet, questiona: Será que não podemos nos haver com as novas formas dos sintomas com os instrumentos falíveis de que dispomos? Estaremos à altura de Freud ou, aos 150 anos, ele ainda corre na nossa frente? Será que estamos preparados para enfrentar os enigmas trazidos pelos novos sintomas?” Forbes responde então: “Se Lacan anuncia a necessidade de uma nova topologia para tratar do habitante do século XXI, isso não implica, necessariamente, um novo complexo, uma nova estrutura ou uma nova psicanálise”.
Rubens Alves, por sua vez, ensina: “considero que a psicanálise é, também, e antes de tudo, um aprendizado da difícil arte de ouvir. A escuta calma, tranqüila, sem pressa, sem respostas prontas, escuta que espera que as imagens tomem forma, que os cenários apareçam. Isso é quase tudo o que podemos desejar de um verdadeiro e empático amigo: que ele acolha a nossa palavra e ande conosco pelos cenários da nossa alma, só vendo, sem dar conselhos... Isso é a essência da amizade. Isso é a essência da Psicanálise”.
Nesse mesmo sentido, Sigmund Freud já registrava, nos "Estudos sobre a histeria", de 1895, que Bertha Pappenheim (Anna O.) disse a ele durante um atendimento histórico: "fique quieto, não diga nada, não me toque e deixe-me falar". Um não que Freud escutou e que a ele retornou para ele criar a psicanálise.
Mas, Joel Birman, em “Mal estar na atualidade”, fala de um novo lugar da Psicanálise e questiona: será que a Psicanálise, enquanto teoria, articulando-se com outros saberes, tem um tributo para com estes novos tempos? E ele mesmo responde: “A Psicanálise não pode sobreviver com sua especificidade nos registros teóricos e éticos se não puder reconhecer o desamparo do sujeito e o mal estar social decorrente da pós-modernidade”.
O filósofo contemporâneo Ken Wilber, no entanto,dá um passo à frente, vai mais além e diz que não faz sentido reduzir os sujeitos a apenas estruturas intersubjetivas. Nesse caso, critica: “A ‘linguagem’ substituiu os ‘seres humanos’ como agentes da história. Não é o ‘eu’, o sujeito, quem está falando agora; é apenas a linguagem impessoal e a estrutura lingüística que fala por seu intermédio”.
Como alternativa a esse enfoque, que ele considera reducionista, propõe um novo paradigma representado por um modelo da compreensão transpessoal do que existe de diferente entre as atuais distintas linhas psicanalíticas.
Nesse novo modelo, cada uma das diversas escolas é vista como um nível comprometido com cada aspecto peculiar do total a que se pode apresentar a consciência do homem. Cada uma dessas linhas diz respeito a um estado de consciência que se distingue por ser dono de um diferente senso de identidade, indo da menor identidade, restrita ao ego, até à suprema identidade com todo o universo, que é o nível derradeiro da consciência transpessoal. Para ele esse espectro pode ser percebido, grosso modo, a partir de quatro instâncias: a egóica, a biossocial, a existencial e a transpessoal.
Disso tudo concluo que o que o psicanalista tem por oferecer, em toda e qualquer situação analítica, sempre singular e diferente, (ou seja: em cada nova psicanálise) não é nada mais do que a essência do método psicanalítico, representada pelo dar palavra ao afeto utilizando, fundamentalmente, a livre associação, com o apoio da atenção flutuante.
E o que se espera, conseqüentemente, do analista, hoje, como sempre, – no efetivo exercício da sua função - é que ele suporte e reconheça o seu não-saber da peculiaridade do desejo do analisante.
Isso porque na psicanálise não há mestria porque não se trata de uma técnica. Ela é o efeito dos atos do analista e da reinvenção ética do reconhecimento do desejo singular e do inconsciente. Para isso é preciso renunciar a todo saber constituído e, na expressão de Moustapha Safouan, aprender a aprender, sabendo-se que cada cliente nos conduz a uma nova psicanálise e se conduz ao esclarecimento daquilo que ele não sabe que sabe sobre si. Assim, o analista deve ser uma função que possibilita ao analisante retornar e dirigir-se a um saber muito particular “que trabalha sem mestre”, mas permanece na escuta d’Isso (do inconsciente), pois o escopo da psicanálise não é o de conferir sentido ao sintoma, mas, sim, o de atuar desde a função do analista vis-à-vis a repetição, com o mal-entendido ou o equívoco, à espera de que, na palavra de Lacan, “o Real do sintoma farte-se e perca a sede”.
 
publicado por Fernando Gusmão às 23:49
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Análise do Filme “Ensaio de Orquestra” de Federico Fellini
Fernando A. R. de Gusmão
 
1 – Introdução
Para analisar o filme de arte “Ensaio de Orquestra”, de Federico Fellini, vale, de início, relembrar o que ensinou Freud sobre a Arte, quando disse: “A arte é uma realidade convencionalmente aceita, na qual, graças à ilusão artística, os símbolos e os substitutos são capazes de provocar emoções reais. Assim, a arte constitui um meio-caminho entre uma realidade que frustra os desejos e o mundo de desejos realizados da imaginação — uma região em que, por assim dizer, os esforços de onipotência do homem primitivo ainda se acham em pleno vigor”.
Em segundo lugar, há de se ver que o filme, ao tratar de uma orquestra como metáfora de um grupo social, remete, também, a Freud quando o mestre lembra o que foi dito por Le Bon, em Psychologie des Foules (1855): “A peculiaridade mais notável apresentada por um grupo psicológico é a seguinte: sejam quem forem os indivíduos que o compõem, por semelhantes ou dessemelhantes que sejam seu modo de vida, suas ocupações, seu caráter ou sua inteligência, o fato de haverem sido transformados num grupo os coloca na posse de uma espécie de mente coletiva que os faz sentir, pensar e agir de maneira muito diferente daquela pela qual cada membro dele, tomado individualmente, sentiria, pensaria e agiria, caso se encontrasse em estado de isolamento”.
Finalmente, é importante a lição de Otto Kernberg, no Prefácio de “Ideologia, Conflito e Liderança em Grupos e Organizações” (2000) quando comenta o assunto: “A mais dramática ilustração da interação entre a dinâmica individual e a de grupo talvez seja a observação de que pacientes muito doentes podem ter um desempenho perfeitamente normal em grupos cuja estrutura seja sadia e as tarefas sejam claramente definidas e mantidas. Em contrapartida, profissionais perfeitamente sadios e ajustados, ao trabalharem dentro de grupos regressivos, com uma estrutura inadequada de distribuição de tarefas, podem rapidamente regredir para um comportamento inadequado”.
 
 
 
 
 
2 - Análise do Filme
Músicos chegam para um ensaio num velho oratório romano, outrora invejado em toda a Europa pela sua acústica, mas hoje totalmente degradado. De início, já comenta o copista, sob a égide da pulsão de morte: “Isto tudo está caindo e cheio de mortos, estão enterrados aqui três papas e sete bispos”. Suspensa no teto, uma aranha, como que motivada pela pulsão de vida, tece pacientemente a sua teia. De fora chegam vários ruídos: sirenes, um avião, sirenes, buzinas, mais sirenes.
Entram os músicos com os respectivos instrumentos. A televisão está presente e faz perguntas:
-Há antipatias e simpatias (conflitos) até entre os instrumentos?
-Como há!!!
Na sua vez, comenta o Maestro:
-Tocamos juntos, mas unidos apenas por um ódio comum. Tocamos juntos apenas «para dar um balanço na aranha».
Enquanto isso, frente a uma situação caótica, com crescente desmoronamento das estruturas - pulsão de morte - parte da sociedade convoca seus mecanismos de defesa, fazendo do sexo, embaixo do piano, sua via de alienação.
Seria possível substituir o maestro por um metrônomo gigante? Fellini acha que não.
 
A relação entre o fazer música e a situação do homem na sociedade contemporânea, ao encenar uma orquestra impassível diante do desmoronamento do velho prédio, onde eles estão reunidos para ensaiar, mostra como, em 1979, Fellini questionava o ideário fascista, na estética e na política, criticando o do modo de olhar contemplativo, focado na subjetividade, e elaborando uma dialética antitética, nunca pacificada, entre o publico e o privado, solidária à afirmação de uma conflituosa e irredutível alteralidade dos atores que compõem a cena.
 
Tudo em “Ensaio de Orquestra” é metafórico, porem, cada metáfora leva instantaneamente ao real. O filme é uma metáfora da sociedade abordada através de um ensaio de uma orquestra composta por artistas individualistas, apresentando diversas situações de conflitos, cada qual achando seu instrumento melhor do que o do colega, com sindicatos alardeando reivindicações conflituosas impossíveis de serem atendidas, gerações em choque e a liberdade individual sempre muito próxima da anarquia. No entanto, para que surja a música faz-se necessário um maestro - mesmo com o risco dele transformar-se num déspota, na maioria das vezes, nada esclarecido. Ao final e ao cabo, o filme, entre outras questões, pergunta pelo limite entre a poder legítimo e aquele que oprime as individualidades.
 
Qualquer organização social moderna pode ser pensada a partir da metáfora de uma orquestra? Aparentemente sim, pois nela encontramos, de forma destacada, o fenômeno da criatividade - pulsão de vida – inerente à criação artística, um partilhamento social das tarefas, entre dirigentes e dirigidos, com uma certa forma de desenvolvimento de relações intersubjetivas e com modos específicos de regular a liberdade e decidir com vistas a uma ordem.
Pensando, então, as categorias da autoridade, o maestro poderia ser tanto um "chefe", um presidente que organiza e governa um grupo das pessoas, como um executivo de uma empresa ou um professor.
 
A partir do que é expresso em “Ensaio de Orquestra” o filme presta-se, também, a indagações diversas, como, por exemplo: “Como têm lugar as relações de poder?”, “O que é a autoridade?”. “Podemos identificar determinados fundamentos que condicionem a aceitação e o reconhecimento de alguém como figura de autoridade?” “Quando podemos afirmar que alguém tem autoridade?”...
 
Nesse sentido o sociólogo Max Weber, no começo do século de XX, desenvolveu uma teoria sobre a autoridade, chamada de "dominação legítima", sustentando, principalmente, a noção de legitimidade como fundamento de cada um dos tipos de autoridade que define, quais sejam: autoridade racional-legal, autoridade tradicional e a autoridade carismática. Weber diz: “A disposição de aceitar ordens <outorgadas>, seja por uma pessoa ou por várias, supõe sempre que prevalecem idéias de legitimidade e de crença na autoridade legítima - desde que não sejam decisivos para a aceitação das ordens o simples medo ou razões egoístas –”.
Seguindo esta linha, atribuir autoridade a alguém ou a algo, isto é, delegar para alguém o poder de decisão sobre aspectos importantes de nossas vidas, ou seja, obedecer a comandos de outra pessoa seria, basicamente, uma questão de darmos legitimidade a alguém dotado de determinados atributos percebidos. Este enfoque assimilaria autoridade e legitimidade à obediência voluntária.
 
No entanto, o tema não é tão simples, já que outras vertentes do pensamento sobre a sociedade vêem a questão de forma mais complexa. Preocupados com os fenômenos do fascismo e do nazismo, os teóricos da Escola de Frankfurt[1] procuraram explicar porque determinados grupos apoiaram e se sentiram identificados com líderes que, de um ponto de vista racional, no seriam nem tão favoráveis nem tão legítimos. Estabelecendo uma relação entre Marxismo e Psicanálise, introduziram a presença de necessidades psicológicas de pessoas para acreditar em certas figuras. Surgem então novas perguntas: por que certos homens, mestres, líderes, instituições, idéias, possuem esse poder de "chamar" a outros de maneira incondicional? O que é esse "algo" que faz que nos faz crer neles e os sigamos? Por que certas tradições, escolas de pensamento, representações, sentidos, são tão eficazes? O que é que faz com que essa eficácia, por vezes, vacile e, até, termine por ruir?
 
“Ensaio de orquestra” responde de maneira surpreendente a algumas dessas questões, principalmente através das palavras do maestro que – evocando seu papel de coordenador -diz a quem o entrevista: "Um maestro é como um padre, deve ter uma igreja com crentes, com fiéis. A igreja desaparece quando os crentes se tornam ateus... cada concerto é como uma missa". E, na seqüência, começa a recordar a época em que era um simples músico, lembrando, com nostalgia, quem fora seu maestro: "Estávamos ali, encantados, esperando o movimento da batuta... éramos uma só coisa... Então ele dava o sinal de início... nada era melhor que sua autoridade, só a idéia nos estremecia... Havia tanto amor entre nós e o maestro! Um amor que, como você vê agora, está perdido. Com meus alunos me une um ódio comum, é como una família destruída".
 
Podemos analisar diversas questões a partir disso que foi dito: A relação entre autoridade e convicção, o sentimento de compromisso com uma pessoa, com uma idéia, com uma causa. Assim, o conceder autoridade a algo e dedicar esforços para sua satisfação estaria indissoluvelmente ligado muito mais a uma crença, do que à aceitação racional de competências, idéias e de determinados atributos, como postula Weber.
 
A metáfora da missa e sua relação com o poder implica que, para o maestro, só existe uma palavra verdadeira: aquela dita pela autoridade, com “fiéis” que a escutam e respondem segundo regras previamente definidas.Também somos levados a concluir que para que uma pessoa possa ser aceita em uma posição de poder, com um papel de mando, com a devida autoridade, a mesma tem que ser "investida" de um "algo" irracional, aquilo que o maestro chama de “amor", ou estar "encantado”. Vale lembrar aqui as palavras do psicanalista Slavoj Zizek: "Quando a autoridade está respaldada por uma compulsão física imediata, não estamos tratando com a autoridade propriamente dita (isto é, a autoridade simbólica) mas, simplesmente com uma agência da força bruta: a autoridade propriamente dita sempre é, em seu nível mais radical, impotente. Trata-se de certa "chamada" que "não pode nos obrigar efetivamente a nada" e, não obstante, por uma espécie de compulsão interna, nos sentimos obrigados a segui-la incondicionalmente".
 
Portanto, se a autoridade está condicionada por uma compulsão interna, por uma espécie de “chamada”, a complexidade dessa categoria atuaria imediatamente, antes, portanto, de uma delegação racional. Quando isto não se dá, nos encontraríamos em situações como as metaforizadas no filme, com lamentos semelhantes ao do maestro em seu processo transferencial. Escutemo-lo novamente:
- ”Quando dirijo sinto-me como um sargento que deve dar pontapés no traseiro de todos”.
- “Agora, por leis absurdas, estou proibido de agir como um sargento...”.
- “Acabou-se aquela época grandiosa. Recordo a primeira vez em que subi ao pódio: havia um silêncio enorme diante de mim. Fiz o sinal de iniciar e vi, com grande emoção, que a minha batuta de maestro estava ligada ao som da orquestra. A voz da orquestra nascia da minha mão. Agora somos todos iguais. Devo parecer ao primeiro violino que tenho dedos de carniceiro”.
 
Conclui-se, como via de conseqüência, que o simples fato de ocupar um posto e possuir certos atributos não é garantia de autoridade se não existir uma crença prévia na mensagem que se transmite.
 
Outro assunto colocado em destaque no filme é o questionamento das figuras e dos lugares de autoridade. Para comentar esse ângulo da questão faz-se necessário entender que o filme foi feito, conforme já dito, em 1979, momento histórico caracterizado por um processo de mudança de características radicais, caracterizada por importantes acontecimentos políticos, por grandes movimentos de liberação que vinham se desenvolvendo no mundo desde os anos 60, passando por maio de 68 e pelos gritos de "a imaginação no poder!", pela busca da autonomia do sujeito, opondo-se a qualquer tipo de diretivismo e de seguir os desígnios do chamado "principio de autoridade".
Todas essas manifestações de liberação de classes, sexual, de níveis sociais, etc, tomam forma no filme através dos músicos rebelados, formando focos de resistência, que se opõem a serem dirigidos, não porque sustentem que o maestro não possui as competências necessárias ou que o mesmo carece de certos atributos, mas sim porque aquilo que se rejeita é a autoridade em si mesma a favor de uma livre interpretação de cada um dos seus respectivos instrumentos. Nesse sentido, escutam-se os brados:
 
- Não queremos maestro! Proíbam-no de reger!
- Não é necessário maestro, não é necessária a música, não é necessário nada...!
- A música deveria ser uma coisa muito pública, que todos pudessem usufruir, sem distinção de classes. Por outro lado, eles usam ia música para explorar nos e idiotizar a pessoas!.
- Maestro, nós não o amamos mais, se você quer nos reger, que o faça de cabeça para abaixo!
- Não para o poder da música! É uma cadeia de exploração!
- Nós decidiremos o ritmo e a cadência! (Significante a esta altura é o fato deles quebrarem o metrônomo).
Podemos, então, entender essas expressividades como manifestações de um discurso revolucionário, libertário e autogestor, que aponta para um salto qualitativo entre a "coerção" e a "liberdade", entendendo essa última como antagonismo total à autoridade. Observe-se, finalmente, que a articulação de liberdade com as idéias de alienação e opressão é uma relação muito comum nos desenvolvimentos teóricos das Ciências Sociais durante os anos 70.
 
2 – Instituição, Organização e Grupos.
As instituições podem ser entendidas como sistemas culturais, simbólicos e imaginários. Objetivamente, compõem um sistema de normas que estruturam o grupo social, tendo força de lei para regular o convívio social e o seu funcionamento, sendo, portanto, uma invenção produzida pelo homem, opondo-se ao que lhe seria natural. Uma instituição não existe fora das organizações concretas que ela produz e dá sentido. Assim, se a instituição é o lugar do poder, a organização será o lugardos sistemas de autoridade (da repartição de competências e de responsabilidades), das relações de poder.
 
Por sua vez, um grupo, segundo Cármen Cardoso, em “Compreendendo as Organizações”, “é uma sociabilidade sobre fundo de indiferenciação ou de sincretismo na qual os indivíduos, enquanto tais, não têm existência e entre os quais opera uma transitividade permanente”. Grupo é, portanto, um conjunto de instituições com possibilidades de se estabelecer como uma organização, com regras fixas e próprias, sendo a unidade base do sistema social.
 
As organizações são consideradas “o grupo dos grupos” e são regidas por normas próprias que explicitam modelos determinados, destinados à mediação entre a base natural (sociedade civil) e o Estado (as instituições), possibilitando, assim, a ação coletiva. A “organização se instaura, funciona e se estabiliza no interior de um campo pulsional e passional” (Enriquez, 2000:19).Por isso, as organizações, enquanto espaço da ordem e da reprodução, são o lugar da aplicação repetitiva das normas e dos regulamentos, privilegiando a compulsão a repetição (uma das formas da pulsão de morte), desenvolvendo, por isso, tendências à homogeneização, à massificação dos indivíduos, à inércia e à resistência à mudança. São, também, lugar destacado da revelação de comportamentos perversos de tipo sado-masoquista, por serem os únicos adequados a um universo criado para funcionar conforme um modelo predeterminado e não segundo um processo vivo.
Para sobreviverem, as organizações tentam se defender contra os impulsos de destruição (outra expressão da pulsão de morte), que poderiam atacar seu funcionamento interno, procurando limitar a competição entre os colaboradores, delimitando poderes e definindo funções e regras de funcionamento.
 
De forma um tanto radical, há quem, inclusive, reivindique ser a organização, em última instância, uma espécie de prisão psíquica, onde a cultura é formada por diversos mecanismos que servem, primordialmente, aos propósitos conscientes e inconscientes de seus integrantes e, mais do que tudo, dos seus proprietários e/ou dirigentes.
 
A psicanálise freudiana aponta o papel da sexualidade reprimida na construção psíquica da organização e as correntes neofreudianas consideram outros elementos intervenientes no psiquismo organizacional, como a idéia da família patriarcal, em que os papéis masculinos seriam transpostos para a organização. A própria hierarquia seria justificada com base nisso, na qual os integrantes incorporariam uma visão de dependência do superior hierárquico tal qual os filhos têm dos pais.
 
3 –O Conceito de Recalque e o Mal Estar Inerente à Vida Institucional.
A Vida Institucional é construída a partir de produções simbólicas, fruto das influências no homem de específicas condições adversas a que ele é submetido e tem como resultado três fenômenos clínicos e sociais: a angústia, a agressividade e a culpabilidade, essa última resultante dos desejos pulsionais recalcados sob o impacto da sociedade.
Assim, o mal-estar que aparece na vida institucional mostra-se como busca infeliz e infantil da felicidade e diz respeito à insatisfação que os homens sentem por conta da civilização e dos seus “progressos”.
Desse ponto de vista, o recalcamento das pulsões seria o modus operandi do processo civilizatório ou da Vida Institucional, mas, também, seu condicionante fundamental, intervindo na mesma uma batalha interna a Eros, com o estabelecimento de uma oposição entre a felicidade individual e a felicidade da sociedade, uma peleja entre as pulsões, entre Eros (pulsão de vida) e Tanatos, a pulsão de morte.
 
No recalcamento das pulsões, como exigência para a vida em sociedade, deparamo-nos com o característico “pessimismo freudiano” da psicanálise que não crê no ideal de uma sociedade não repressiva. Para a psicanálise, a repressão é mandatária, é necessária e é estruturante, tanto para a sociedade como para a criança. Os nãos são necessários para a criança poder crescer e humanizar-se, conferindo-lhe os limites que lhe são demandados para poder ocorrer sua integração social, ou para meramente sobreviver. Por outro lado, não pode existir vida social (nem criatividade) na ausência da lei.
 
Dessa forma, é pela aceitação da castração (renuncia pulsional) que a Vida Institucional surge, com as leis que são formuladas para instituir a coexistência dos homens. A castração é, assim, o fulcro do constructo Vida Institucional. Destruindo a onipotência do homem, ela é coextensiva de uma ordem simbólica singular e limitativa, que tem a ver com uma ordem lógica, a “lógica fálica”, fundamentada na diferença dos sexos como determinante do limite absoluto. A lei só é possível e operante em uma estrutura cultural (estrutura simbólica) que, por sua vez, implica em castração.
 
O composto que alicerça a Vida Institucional e explica o seu preço é formado pelo somatório: <renúncia + culpa + castração + limite + trabalho>, com participações variadas de cada um das quatro parcelas. O homem constrói a cultura e sofre ao ser condenado a submeter-se a essa mesma cultura se almejar ser criativo, se ambicionar tornar-se “Homem”.
 
4 –O Papel dos Ideais na Vida das Organizações
A possibilidade de constituição de qualquer pacto social – por extensão, de qualquer organização – implica em algum grau de idealização sobre o coletivo. A organização, sob esse ponto de vista, é entendida como uma microssociedade por excelência, e, por isso, dotada dos mesmos problemas que assinalam o vínculo social.
Por outro lado, interessa fortemente às organizações canalizar a pulsão de vida (ou todos os impulsos criativos dos indivíduos), no sentido do trabalho produtivo e dos objetos da organização. Por isso, o papel dos ideais e da idealização é fundamental para as organizações na medida em que, conforme Freud (1976), “na idealização ocorreria um empobrecimento do ego, que se entregou ao objeto” podendo essa mesma idealização ser descrita como uma “fascinação” ou “servidão” pelo objeto.
Acrescentando-se, ademais, a opinião de Laplanche & Pontalis (1986), confirmando que “a idealização é um processo de identificação, no qual as qualidades e o valor do objeto são elevados à categoria de perfeitos”, teremos bem à vista a importância do papel dos ideais na vida das organizações. O processo de idealização é o que dá “consistência, vigor e aura excepcional” tanto ao projeto quanto aos indivíduos, possibilitando sair de sua cotidianidade e partilhar da mesma ilusão (Enriquez, 1994c:57)
A idealização interessa, ademais, às organizações na medida em que é um processo em que ocorre uma tendência de falsificação do julgamento sobre a realidade na direção dos interesses da própria organização. Nela, o colaborador não exprime apenas seu desejo próprio, quer igualmente ser reconhecido como um dos membros da organização. Para que haja reconhecimento recíproco, devem se identificar uns com os outros, colocando um mesmo objeto de amor (a causa da organização) em lugar do seu ideal de eu. Por isso, parafraseando Enriquez (1994c), a idealização é o mecanismo que permite às organizações instaurar-se e manter-se, e a todos os colaboradores viverem como seus membros. Dito de outra maneira, toda organização possui um arcabouço de valores e de normas que leva seus membros a uma determinada forma de entendimento do mundo e de orientação de seus comportamentos.
Conforme visto, esses processos de idealização provocam, de um lado, uma violentação à singularidade dos indivíduos, que se curvam sem questionamentos ao objeto idealizado (a causa da organização), porém, de outro lado, não deixam de constituir - também, no interesse da organização - uma função defensiva, permitindo certa calma e equilíbrio psíquico, resguardando os indivíduos contra suas pulsões destrutivas e os seus fantasmas de desintegração.
 
5 – Conclusão
A organização enquanto lugar da produção e distribuição de bens e prestação de serviços, tendo em vista o indivíduo enquanto trabalhador, estrutura o social, provê o indivíduo e dá a ele um lugar de significação, com sentido e permanência. Em contrapartida, a renúncia demandada (a castração) é dorida, está em todo arcabouço da vida em sociedade. O indivíduo se jugula á organização por ser esta uma das maneiras de dar vazão a pulsão-energia que antes da ação civilizatória era estritamente sexual, atrelada ao ser animal – e, com isso, afiança um possível retorno de seu investimento (libido – força de trabalho), a satisfação adiada que chega (ou não) pela via do reconhecimento.
 
Bibliografia
FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer (1920). A Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XVIII. Imago editora, 1997.
 
_______. Psicologia das Massas e Análise do Ego (1921). A Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XVIII. Imago editora, 1997.
 
_______. O Futuro de uma Ilusão (1927). A Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XXI. Imago editora, 1997.
 
_______. O Mal-Estar na Civilização (1930). A Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XXI. Imago editora, 1997.
 
_______. Moisés e o Monoteísmo (1939). In: Renúncia à Pulsão. A Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Imago editora, 1997.
 
LAPLANCHE, Jean. Vocabulário de Psicanálise. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
 
ENRIQUEZ, Eugène. A organização em análise. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.
 
KERNBERG, Otto. Ideologia, Conflito e Liderança em Grupos e Organizações. Porto Alegre: Artmed Editora,2000.
 
ZIZEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do real! São Paulo: Boitempo Editorial, 2003
 
CARDOSO, Cármen e CUNHA, Francisco C. Compreendendo as Organizações. Recife: Instituto de Tecnologia da Gestão, 2001.
 
WEBER, Max. El político y el científico. Madrid, Alianza Editorial, 1984
 

 


[1] Max Horkheimer, Walter Benjamin, Theodor Wiesengrund Adorno e Herbert Marcuse integravam, na década de 30, a chamada Escola de Frankfurt, baseada no Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt, Alemanha.
publicado por Fernando Gusmão às 23:26
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ANÁLISE DO FILME “VOLTAR A VIVER”
 
 
Introdução
 
Marie, a principal personagem do filme, nasceu em Argel, onde viveu até a adolescência. Posteriormente, após a independência da Argélia, mudou-se para Paris. Ali vamos encontrá-la, aos 31 anos, já com dois filhos, morando com sua mãe, em uma situação em que sua vida parecia destruída pelo problema da sua hemorragia menstrual e pelo abandono do marido, que tinha passado a viver nos Estados Unidos, onde lecionava.
 
Vale sublinhar que Marie, desde a mais tenra infância, manteve uma relação das mais precárias com seu pai, ausente e doente, e conflituosa, com sua mãe, que é mostrada fria, indiferente e, nitidamente, obsessiva. Por conta disso tudo e na tentativa de escapar de uma intervenção cirúrgica que lhe havia sido prescrita, ela ingressa, então, em um tratamento psicanalítico.
 
Hipótese Diagnóstica.
 
A Psicanálise considera que sem a identificação da estrutura do sujeito não há clínica possível e que não são os sintomas nem os delírios que determinam uma estrutura clínica, mas que é na transferência, quando o analista é incluído, que a estrutura do paciente se revela. Nessas condições, o “diagnóstico estrutural” é, então, factível, definindo uma das três hipóteses possíveis: estrutura neurótica ou estrutura psicótica ou estrutura perversa.
 
Nesse viés, durante uma das primeiras sessões, Marie diz para seu analista: “você me custa caro e não me serve para nada!”. Nesse instante fica claro que o saber passa pela hipótese de um sujeito suposto (“ao menos um” que sabe lidar com a demanda do Outro, delegado à função paterna). A presunção, advinda da sintomatologia, de Marie possuir uma estrutura neurótica fica, então, confirmada.
 
Ademais, existem três modos diferentes de se viver a própria neurose: (a) - um modo de sofrer conscientemente no pensamento, isto é, deslocando o gozo inconsciente e intolerável para um sofrimento de pensar que é a Neurose Obsessiva. (b) - sofrer conscientemente com o mundo que o cerca, isto é, projetar para o mundo externo o gozo inconsciente e intolerável e cristalizá-lo num elemento do ambiente externo, então transformado num objeto fóbico. Essa é a Fobia ou Neurose de Angústia e (c) - sofrer conscientemente no corpo, ou seja, convertendo o gozo inconsciente e intolerável num sofrimento corporal. Essa é Neurose Histérica do tipo conversivo.  
 
No caso de Marie, tal conversão se expressava, basicamente, através das suas crises hemorrágicas menstruais, que ocorriam sem solução de continuidade e que a direcionavam para a tentativa de solução cirúrgica. Naquelas condições, algo reprimido retornava para instalar-se em um ponto qualificado do corpo de Marie, em uma zona erógena. Ali, a libido era, então, "convertida" em uma "inervação somática".
 
Dinâmica das Posições Familiares
 
A dinâmica das posições familiares no caso de Marie apresenta as seguintes características:
Seu pai, muito embora rico e educado, sofria de tuberculose, doença que, há época, configura-se como patologia das mais terríveis, não só pelas dificuldades de tratamento como, também, por ser extremamente contagiosa e com altas taxas de mortalidade. Por isso, ele havia sido afastado do convívio familiar, passando a ser execrado pela esposa (Você matou minha filha!) e pelos seus parentes. Marie era como que órfã de pai na medida em que sua mãe determinava: Fique longe do seu pai! Durante a análise ela expressa que teria sido “fruto do desejo e da raiva entre os dois”.
 
Sua mãe, mesmo rica e bonita – profundamente traumatizada pela morte prematura de uma das filhas - era uma pessoa solitária, patrimonialista, mentalmente desequilibrada, dominadora, possuída pela obsessão de cuidar de outras pessoas, fugindo à possibilidade de um relacionamento salutar com Marie. Sua saúde mental era tão comprometida que, ao final, a leva à tentativa de suicídio. Mesmo nessas condições, na família de Marie a “portadora” do falo era sua mãe.
 
Marie, por sua vez, era uma criança rejeitada pela mãe, desde sua concepção, que, em uma ocasião das mais importantes para ela, lhe disse textualmente: “quando descobri que estava grávida de você, tentei, de todas as maneiras, abortar...”. Para ter um pouco da atenção da mãe, Marie, quando criança e adolescente, “adoecia” para, com isso, obter ganhos secundários: “quando eu adoecia, minha mãe era só minha”. Por outro lado, essa mesma mãe lhe instilou os princípios do dever cristão de ser uma mulher: saber bordar, cozinhar, ser uma boa esposa, boa mãe, fiel à religião cristã, portanto, avessa ao divórcio e ao aborto, fugindo de qualquer consciência do seu próprio corpo: “tenho medo de tudo”.
 
Função da Psicanálise e Principais Resultados
 
“Voltar a viver” é um filme sobre uma mulher, Marie, que se submete a uma análise, a um espaço de fala, aonde ela vai se repensando, se rearticulando, revendo sua história e suas escolhas, não para reencontrar uma totalidade perdida ou a felicidade eterna, mas para se encontrar consigo, com seus sonhos, angústias, fantasias e sofrimentos. E é isso que Marie vai buscar na análise. Vai tentar entender o porque de seu sofrimento, de sua passividade diante da vida.
 
Nesse percurso, o analista solicita a Marie que fale, que se deixe falar livremente sobre si mesma, de onde bem entender, pois a ela cabe falar de si, de suas dores, de sua história, de seus sonhos e ao analista compete escutar o que vai sendo dito nas entrelinhas, nos silêncios, nas sombras das palavras, em qualquer palavra.
 
A partir da abstinência do analista, de sua neutralidade, ele mostra que o que lhe interessa é a fala de Marie (o seu sangue não me interessa!), que não diga frases prontas, que deixe as quebras, as falhas, o incompreensível, aparecerem, essa Coisa que a habita, que Marie carrega, não sabe porque, e a faz sofrer.
 
O analista, através do seu silêncio e da sua abstinência (você é implacável!), mantém em cena o enigma, mas, ao mesmo tempo, com paciência e com acolhimento, faz a sua escuta. Ele se mostra continente e tolerante, investindo em Marie, que se deita à sua frente, pedindo ajuda, imaginando que ele tem todas as respostas.
 
Assim, Marie investe em sua análise, em sua vida. E com isso, o que sai dela é produção, afeto, é uma nova história, é a sua história em seu livro, uma bela história recriada pela análise. Com isso, ela “volta a viver”: o sofrimento, ao invés da sedação; o enfrentamento, ao invés da acomodação; a luta, no lugar da desesperança; o trabalho frente à improdutividade; a luta, vis-à-vis o sintoma. Ela constata: “não tenho mais medo” e “já posso fazer amor”.  Sua mãe reconhece: “você está mudada!”.
 
Ela para de sangrar na medida em que passa a deixar sair palavras, que ligadas, dá lugar a simbolizações que mudam seu destino e lhe permite, ao final, expressar seu amor de filha (Mãe, eu te amo).
publicado por Fernando Gusmão às 23:13
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ANÁLISE DO FILME “ESCRITORES DA LIBERDADE”
 
 
1 - Introdução
 
O filme “Escritores da Liberdade” será analisado neste trabalho segundo a ótica do Processo Ensino/Aprendizagem. Nesse sentido, mostra-se como uma história que trata da efetivação de um procedimento didático que ocorre em um espaço de interação plena entre a docente e as experiências pessoais e sociais dos educandos. Além disso, trata dos óbices arrostados pela professora que, por conta de um approache didático diferenciado, enfrenta na sua escola um establishment burocrático e excludente.
Baseado em um caso real, aborda a necessidade de que sejam criados vínculos reais em sala de aula, pelo conhecimento dos alunos, de suas histórias de vida, inclusive entendendo-se o que os motiva a serem as pessoas que são.
O filme destaca, antes de tudo, que a adequada aprendizagem somente ocorre no âmbito de uma relação dialógica que seja legítima e honesta. Demonstra também que a situação psicológica e emocional, tanto no que diz respeito a fatos pretéritos, como àqueles atuais, opera de maneira decisiva no aprendizado do educando.
Ademais, enfatiza a importância do contexto social para o processo ensino/aprendizagem, inclusive quanto à discriminação racial, situações familiares, drogas e violência, que desempenham expressiva influência na vida dos educandos.
O próprio título da película - Escritores da Liberdade - remete a uma educação modelada pela liberdade de expressão, independentemente de cultura, raça ou religião. Nessas condições, vê-se que os alunos puderam, dispondo, então, de um espaço favorável, produzir, de forma autônoma, seus juízos próprios e originais. Tal autonomia demandou forte dose de generosidade por parte da professora e, também dos alunos, na aceitação e compreensão de todos quanto às crenças, valores e significantes que modelavam suas vidas.
 
2 - O Contexto Didático
O filme é baseado no livro "The Freedom Writer's Diaries: How a Teacher and 150 Teens Used Writing to Change Themselves and the World Around Them" ("O Diário dos Escritores da Liberdade: Como uma Professora e 150 Adolescentes Usaram a Escrita para Transformá-los e Transformar o Mundo ao Redor Deles"), escrito pela professora do ensino médio Erin Gruwell e pelos seus alunos, da Escola Woodrow Wilson, em Long Beach, Califórnia, nos EE. UU no final da década passada.
A história se passa em 1994, ocasião em que repercutia nas ruas de Long Beach, a guerra inter-racial americana onde para os jovens alunos da classe de Gruwell conseguir sobreviver ao dia-a-dia no meio da rua já era um feito da maior importância. Numa escola atravessada pela violência e pela tensão racial, ela enfrenta, inclusive, um sistema educacional ineficiente, na esperança que a sala de aula viesse a fazer diferença na vida dos estudantes.
Formada em Direito, Erin se tornou professora, desagradando pai e marido. No início de suas atividades docentes, ela demonstrava uma certa ingenuidade, timidez e curiosidade, mas, sobretudo, forte determinação. Sua vocação para o magistério vai se construindo conforme os desafios que vai encontrando entre os alunos e ao lidar com a burocracia e o conservadorismo da administração da escola.
Seus alunos, recebidos pela administração da Escola dentro de um “Programa de Integração Voluntária” como adolescentes "em risco" ou "problemáticos”, compunham uma classe caracterizada pela mistura, inclusive, de descendentes de afro-americanos, latinos e cambojanos, entre os quais participantes de gangues de rua, com passagens por campos de refugiados e em instituições reformatórias, que haviam crescido em ambientes agressivos e marginalizados.
No desempenho de sua atividade docente, Erin, primeiramente, tenta “dar aula” segundo o modelo tradicional, o que não funciona com seus alunos, indiferentes ao propósito da escola, até aquela altura, eminentemente ensinante. Nessas condições, uma aluna (Eva) chega a questioná-la quanto à utilidade de se aprender determinado conteúdo abstrato, considerando-o inútil para melhorar sua vida real. Outro aluno comenta que o fato dela ser professora “branca” não é suficiente para ele respeitá-la.
Sabendo que cabe à professora ter argumentos consistentes que respondam questões tais como essas, sempre presentes na escola contemporânea, Erin faz o reconhecimento dos grupos de iguais e devolve aos alunos esse reconhecimento com um pensamento crítico, qual seja, o de levá-los a distinguir, sentir e pensar sobre a realidade criada por eles próprios. Além disso, firma posição de não aceitação dos alunos na condição de vítimas reativas, cobrando-lhes responsabilidades por suas escolhas, sobremaneira pelos seus atos de exclusão para com os diferentes.
Dessa forma, sua ação didática mostrada no filme é inovadora e singular na medida em que desperta a motivação dos alunos para expressar seus sentimentos, ler, pensar, escrever, e mudar, a partir do reconhecimento de cada um como sujeito-de-sua-história.
Nessa direção, um episódio foi crítico para alterar o rumo da história daquela turma: quando uma caricatura - de cunho racista - de um estudante afro-americano circulou na sala de aula, Erin Gruwell a interceptou de maneira brusca e a comparou às caricaturas dos judeus feitas por nazistas alemãs durante a 2ª Grande Guerra. Os estudantes responderam de forma confusa à sua comparação, levando a professora a descobrir, estarrecida, que muitos de seus alunos nunca tinham ouvido falar sobre o Holocausto. Na seqüência, quando perguntou quantos em sua classe tinham sido alvos de disparos, quase todos levantaram as mãos. Isto deixou Erin Gruwell ainda mais chocada, porém mais motivada a não desistir dos seus alunos.
 
3 – Análise do Processo Ensino/Aprendizagem.
 
Pode-se assumir, de forma simplificada, que o Processo Ensino/Aprendizagem é o conjunto de ações didáticas e psicológicas em que se articulam as condições externas de transmissão e as condições internas de aquisição de conhecimentos, com vistas à formação de hábitos, de habilidades e, ao final, o desenvolvimento das capacidades dos educandos.
Analisados do ponto de vista etimológico, ensino e aprendizagem são duas categorias com características próprias: ensino pode ser considerado como um movimento liderado e coordenado por um sujeito profissional - ensinante - habilitado para intervir e mediar a situação, de forma a socializar competentemente os “saberes” produzidos historicamente pela sociedade. Aprendizagem é a conseqüência dessa mediação, resultando na apropriação, pelos sujeitos aprendentes, de “saberes”, conhecimentos, habilidades e atitudes que, depois de internalizados, serão, também, socializados. (MOURA, 1999).
Portanto, o ensinar, bem como o aprender, possuem suas particularidades e suas características singulares. No entanto, no processo ensino/aprendizagem ambos estruturam uma unidade indissolúvel, interatuando mutuamente e, assim, complementando-se, de forma que um não existe na ausência do outro. Por isso, o professor somente ensina se o educando aprende e a aprendizagem exige que o estudante participe de forma ativa desse processo.
 
Isso posto, se ocorrer aprendizagem dos dois lados, tem-se um “bom ensino”.
 
Esse se dá num espaço escolar constituído como um espaço privilegiado para desencadear o processo de aprendizagem do aluno em que o professor adquire importância, destaque e relevo, desempenhando o papel de elevar os sujeitos a alcançar informações sobre o mundo físico e social, pensando de maneira competente sobre o mesmo e tendo como objetivo maior possibilitar condições para que os alunos elaborem, critiquem o conhecimento, dele se apropriando, o que deve ser alcançado através de e com a colaboração de parceiros ricos e diversificados. Parceiros que estão em constante busca, em formação permanente, almejando um ponto de chegada comum: o bem estar pessoal e coletivo. (Idem, pg. 7).
 
Nessa perspectiva, os professores, enquanto ensinam, aprendem e os alunos, na medida em que aprendem, ensinam. Assim, a escola e, por extensão, a sala de aula, como espaço-tempo de formação para os alunos, torna-se, também, laboratório de pesquisa e locus de formação continuada para professores.
No filme, a professora lançou mão de diferentes estratégias na tentativa de obter uma relação de efetiva interação com seus alunos e, assim, conseguir que fosse fundado o processo ensino/aprendizagem. Para tanto, ela tentou, de início, a música, depois utilizou perguntas estimuladoras da auto-reflexão e também aulas expositivas, até ver prevalecer um modelo dual – considerando concomitantemente a leitura e a escrita – que foi, efetivamente, decisivo para inserir os alunos no processo didático.
Dito de outra forma, foi pela escrita e pela leitura que ela logrou estabelecer um diálogo mais seguro, mais produtivo e mais expressivo com seus educandos. Além do mais, com o estímulo para a elaboração dos diários escritos, pôde a professora superar uma deficiência muito comum nas escolas, representada pela falta de oportunidades de escrita e, dessa maneira, abrir as portas para uma prática que seria – como de fato foi – a ferramenta facilitadora mais importante para o crescimento e a libertação pessoal dos adolescentes.
Vale destacar que a importância da escrita se fez sentir na medida em que, a despeito da oralidade ter geralmente primazia quase que absoluta em sala de aula, foi ela – a escrita - que proporcionou a autonomia e a quebra de paradigmas dos alunos, quando possibilitou a extração de impressões relevantes de suas vivências, enquanto enquadradas em um campo de comunicação social mais abrangente. (GONTIJO, 2006)
No caso, Erin criou um projeto de leitura e escrita, iniciado com o livro “O Diário de Anne Frank”, objetivando que cada texto lido e criticamente analisado fosse para cada aluno um trampolim para uma compreensão mais profunda e objetiva do seu contexto. Isso, considerando que qualquer linguagem sempre possui um referencial de mundo/realidade e que, por isso, cada leitor é sempre capaz de apreender os referenciais inscritos em qualquer mensagem e, por extensão, aqueles de um texto, o que significa compreender a dinâmica do real e compreender-se como um ser que participa dessa dinâmica.
A atividade de leitura foi complementada pela proposta dos alunos poderem registrar nos “diários” fatos sobre suas vidas, inclusive relações familiares, interações sociais, idéias de mundo e leituras. Ao criar, assim, um elo de contato com o mundo, a professora forneceu aos alunos um elemento real de comunicação, que permitiu aos mesmos a libertação de seus medos, anseios, aflições e inseguranças.
Ademais, quando os alunos, pela leitura e/ou pela escrita, prosseguiam vivenciando o processo ensino/aprendizagem mesmo fora da sala de aula, em suas casas, no museu, no metrô ou no pátio da escola, vê-se que Erin conseguiu atingir em sua estratégia didática uma concepção de “sala de aula” mais abrangente, tal como aquela conceituada por Marcos Masetto (2005, p. 89), no artigo “Ensinar e aprender no ensino superior”, onde ele diz que a sala de aula transcende “seu espaço corriqueiro de acontecer” e vai até “onde possa haver uma aprendizagem significativa buscando atingir intencionalmente objetivos definidos”. (TEODORO, A. & VASCONCELOS, M. L. 2005).
Com tudo isso, ela logrou mostrar aos alunos que os impedimentos e situações de exclusão e preconceito podem afetar a todos, independentemente da cor da pele, dos costumes, da religião ou da condição econômica.
Contando suas próprias histórias e ouvindo as dos outros, aquela turma de adolescentes, supostamente indomáveis, descobriu o poder da tolerância, recuperou suas vidas desfeitas e mudou seus mundos.
 
4 - A Estratégia Utilizada para a Instalação do Processo Ensino/Aprendizagem.
 
Sabendo que qualquer sociedade se organiza através da cultura partilhada e procurando encontrar pontos de apoio nos quais, no sujeito e através dele, pudessem se articular novos saberes, Erin concebeu um método que consistiu em entregar para cada aluno um caderno para que escrevessem, diariamente, sobre aspectos de suas próprias vidas, desde conflitos internos, até problemas familiares e sociais.
Esses cadernos ficariam guardados com os alunos que, se quisessem, poderiam liberá-los para conhecimento da professora ou dos colegas, o que terminou por, efetivamente, acontecer. Dessa forma, cada aluno, interagindo com a cultura, aprendeu a se relacionar com o mundo.
Ademais, o conhecimento do “já-existente”, determinante em uma aprendizagem, foi, por esse método, adquirido pela professora, o que lhe possibilitou a construção de outras estratégias de aprendizagem complementares, compatíveis e significantes para seus alunos.
Por exemplo, as discussões e os trabalhos em grupo, liderados por Erin em sala de aula, desarticularam a repetitiva fala vitimista dos subgrupos, que levavam cada componente à acomodação em suas desgraças e, concomitantemente, projetavam no outro a culpa pela sua própria falta-de-responsabilidade ou pelos seus malogros como sujeito-cidadão na sociedade.
Instigando-os a ler livros como "O Diário de Anne Frank", Erin conseguiu despertar nos adolescentes identificações e empatias com personagens que viveram em épocas diferentes, promovendo encontros imaginários onde cada aluno assumiu atitudes especiais de tolerância para com o “outro”.
Momento importante do filme foi aquele em que a velha senhora - Miep Gies - que abrigou Anne Frank em Amsterdã, argumenta com um dos alunos que nada mais fez do que “fazer a coisa certa”, ou a coisa ética, tal como deveriam agir sempre pessoas comuns e anônimas, mas civilizadas. Dessa forma, o filme mostra como a professora Erin Gruwell conseguiu que cada aluno passasse a ter mais responsabilidade e comprometimento em “fazer a sua parte”.
 
 
 
5 – Conclusões
 
Raymundo de Lima (2008), registra que, no entendimento de Hannah Arendt, a crise da educação em nossa época pode muito bem decorrer de dois fatos: (a) a inaptidão da escola para motivar os alunos no sentido de refletirem - de maneira crítica - sobre os eventos a que estão expostos e (b) a falta da autoridade dos professores e dos pais para levar os jovens a assumir a responsabilidade e as conseqüências dos seus atos. Aa duas causas podem dispor crianças e adolescentes a se sujeitarem à opressão de uma determinada maioria, seja um grupo social – tais como tribos ou gangues - ou uma liderança populista/carismática.
Portanto, o ato educacional de Erin foi, ao mesmo tempo, político e ético, social e pessoal, na medida em que objetivou transformar alunos considerados “incivilizados”, “não-pensantes”, “não-humanizados”, em seres humanos com competência para operar criticamente sobre a realidade e sobre suas próprias ações. Sua estratégia os levou, assim, a rememorar situações e a repensar suas posições no desenrolar da sua própria história, fazendo surgir, em cada educando, uma ética renovada, melhor orientadora dos seus comportamentos e discursos, em benefício de cada um e dos seus próximos.
Finalmente, vale ressaltar a importância do filme “Escritores da Liberdade” para professores e professoras, por várias razões, entre as quais podem ser destacadas:
·a necessidade da inovação no ato de ensinar, adequando-o à realidade cultural dos alunos, de forma que, além de ensinar, também se possa tratar de forma criativa com as alianças que se formam em sala de aula e na escola, quase sempre estruturadas a partir de suas semelhanças, formando grupos narcísicos, cujo freqüente sintoma aparente é a intolerância para com os demais;
·a importância de se aceitar as vivências dos alunos e, paralelamente, contextualizá-las com as vidas de personagens relatadas pela história da humanidade – de forma a que eles aprendam a significar suas histórias com outras histórias;
·a recomendação para que os professores se empenhem mais-e-mais em ler literatura, porque somente se poderá cobrar dos alunos tal hábito se o professor é dado à sua prática e, finalmente,
·os cuidados que os professores – ou quaisquer profissionais - devem ter no sentido de dosar inteligentemente o quantum de aplicação a ser despendido com seu labor, de forma a preservar sua atenção para com a própria família.
5 – Referências
 
ESCRITORES da Liberdade. Título Original: Freedom Writers. Direção: Richard LaGravenese. Atores: Hilary Swank, Pat Carroll, Patrick Dempsey, Jason Finn, Scott Glenn, David Goldsmith, Kristin Herrera, Blake Hightower, John Benjamin Hickey, Will Morales. País: EUA. Idioma: Inglês. Legendas: Português. 2006. 1 DVD (123 min).
 
MOURA, Tânia Maria de Melo. A Prática Pedagógica dos Alfabetizadores de Jovens e Adultos: Contribuições de Freire, Ferreiro e Vygotsky. Maceió: EDUFAL/INEP, 1999.
 
OLIVEIRA, Marta Kohl de. Jovens e Adultos como sujeitos de conhecimento e aprendizagem. Revista Brasileira de Educação. Associação Nacional de Pós-Graduação – ANPED. Set/Out/Nov/Dez 1999, p. 59-73, nº 12. São Paulo.
 

GONTIJO, Antônio Tadeu de Sousa. A importância da leitura na escola de ensino médio: Um diferencial de crescimento e enriquecimento cultural, social, intelectual na formação do cidadão no mundo globalizado. Jus Navigandi, Teresina, ano 10, n. 941, 30 jan. 2006. Disponível em: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=7898>. Acesso em: 19 jun. 2009.

 
TEODORO, A. & VASCONCELOS, M. L. (Orgs.) (2005). Ensinar e aprender no ensino superior: por uma epistemologia da curiosidade na formação universitária. São Paulo: Cortez.
 
LIMA, Raymundo de. O filme “Escritores da Liberdade” e a função do pensamento em Hannah Arendt. Revista Espaço Acadêmico, nº 82, março de 2008. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/082/82lima.htm>. Acesso em: 19 jun. 2009.
 
CUNHA, Kátia Silva. Novas Concepções de Ensino e Aprendizagem: Sala de aula: construindo a aprendizagem a partir da avaliação. 18/6/2009. 49 fls. Notas de Aula. Digitado.
 
 
publicado por Fernando Gusmão às 23:08
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Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

...

 

PSICANÁLISE NO TEMPO DE FREUD E NO TEMPO DE LACAN[1]

Fernando A. R. de Gusmão (fargusmao@ig.com.br) [2]

 

Tempo de buscar e tempo de perder...tempo de estar calado e tempo de falar...tempo de amar e tempo de aborrecer" (Ec - 3:6,7,8).

 

 

Resumo: Este artigo pretende abordar o contraponto entre as visões de Sigmund Freud e de Jacques Lacan no que diz respeito aos conceitos de “tempo”, segundo os respectivos entendimentos dos dois teóricos da psicanálise. Destaca, ademais, a utilização do tempo na prática psicanalítica, enquanto conceito e na sua qualidade de dado objetivo, mostrando que o tempo na psicanálise atende a demandas fundamentais da disciplina e não a uma mera estratégia técnica ou simples conformidade empírica.

 

Palavras chave: Psicanálise, tempo, duração, corte, escansão.

 

O Tempo

Nascimento, vida e morte. Entre o instante do nascimento e o instante da morte decorre a vida, decorre um tempo. Por isso, outra fórmula: nascimento, tempo e morte. Daí: vida é tempo ou tempo é vida?

Desde os antigos, a vida, no transcorrer do tempo, tinha como referência de medida a linearidade dos acontecimentos e sua eventual renovação cíclica. As observações dos fenômenos periódicos - fossem da natureza, fossem astronômicos - serviam para as civilizações ancestrais como único referencial de medição dos fenômenos e suas conseqüências. Por exemplo, a sucessão das estações do ano e as conseqüentes cheias e as vazantes dos rios determinavam a época dos plantios e das colheitas e as diversas fases da lua condicionavam as atividades, rituais e festas dos povos. Naquele tempo, o tempo não era relativo.

Hoje o tempo é, popular e cientificamente, relativo. Algumas vezes vale dinheiro, noutras é mensurável e visível tal como o conteúdo de um recipiente. Por isso se “perde tempo” ou “não se tem mais tempo”.

Sob a visão empírica, Stephen W. Hawking, em “Uma Breve História do Tempo – do Big Bang[3] aos buracos negros”, escreve: “as leis científicas não distinguem entre as direções para a frente e para trás do tempo. Entretanto, há pelo menos três setas de tempo que distinguem o passado do futuro, que são a seta termodinâmica, direção do tempo em que a desordem aumenta; a seta psicológica, direção do tempo na qual se recorda no passado e não o futuro; e a seta cosmológica, direção do tempo em que o universo se expande mais do que se contrai” (pg. 211).  E, mais à frente, na mesma página: “a seta psicológica é essencialmente a mesma que a termodinâmica, de modo que ambas sempre apontam para uma mesma direção”. [1]

De qualquer forma, o tempo sempre esteve profundamente entrelaçado à condição humana, estando concebido de diferentes maneiras nos diversos grupos e culturas sociais, sendo uma variável repartida socialmente, de modo que pessoas de um grupo usam o sincronismo para compartir com outros contingentes os mesmos eventos e/ou juízos.

Do ponto de vista da teoria freudiana, o que se julga importante é o entendimento que o tempo na psicanálise atende a conceitos fundamentais da disciplina e não a uma mera estratégia técnica ou simples conformidade empírica.

 

O tempo para Freud

 

Já em 1907, como anotado no trabalho “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, Sigmund Freud faz uma consideração básica sobre o tempo dizendo que “no caso das marcas mnemônicas reprimidas, pode-se comprovar que não experimentaram alterações durante os mais longos lapsos. O inconsciente é totalmente atemporal”. Posteriormente em “O Inconsciente”, (1915) e na Conferência XXXI das “Novas Conferências de Introdução à Psicanálise” (1932), o fundador da Psicanálise persevera na característica atemporal do inconsciente e entende o tempo como uma propriedade do consciente e do Ego, não tendo nenhum compromisso com o inconsciente e com o Id. Nesse aspecto, cabe, inclusive, o juízo que a análise possibilitaria a migração dos desejos do fora-do-tempo do inconsciente para a temporalidade consciente[2].

Assim, para a psicanálise, os acontecimentos psíquicos levam a crer que no campo da subjetividade o tempo humano não é linear nem cíclico, mas satisfaz a uma estrutura em que os componentes de ontem e de hoje, se fundem, por deslocamento e/ou por condensação de traços de similaridade, em um único desenho. Elementos psíquicos basilares na vida de cada sujeito são representados no modo de funcionamento do psiquismo. Por isso, nos sonhos, elementos tão bizarros e aparentemente contraditórios se fazem simultaneamente presentes, pois aludem a situações ocorridas em diversas épocas como se tivessem se dado naquele mesmo instante.

Por outro lado, a psicanálise, em seus primórdios, quando aborda o tempo no campo do consciente, propõe que, no tratamento, o paciente siga, de comum acordo com o psicanalista, dias, horas e tempo previamente determinados. O registro de Freud em “Sobre o Início do Tratamento”, escrito em 1913, é enfático: “pontos de importância no início do tratamento são os acordos quanto a tempo e dinheiro”. (p. 168).

Em “Análise Terminável e Interminável” (1937), Freud relata, a respeito do tempo do tratamento, o caso de um jovem russo que o havia procurado “em um estado de completo desamparo” e que no curso de poucos anos de análise tinha sido “possível devolver-lhe grande parte de sua independência”. No entanto, conta Freud, que em um certo momento, “o progresso se interrompeu ..... e era óbvio que o paciente achava sua situação atual altamente confortável e não desejava dar qualquer passo à frente que o trouxesse para mais perto do fim do tratamento”. Diante do impasse, confessa o analista: “recorri à medida heróica de fixar um limite de tempo para a análise”. Como resposta a essa intervenção, diz Freud que o analisante “a princípio, não acreditou em mim, mas, assim que se convenceu de que eu falava absolutamente a sério, a mudança desejada se estabeleceu. Suas resistências definharam e, nesses últimos meses de seu tratamento, foi capaz de reproduzir todas as lembranças e descobrir todas as conexões que pareciam necessárias para compreender sua neurose primitiva e dominar a atual”.

Por outro lado, no que diz respeito à duração das sessões, Freud debate sobre esse tema em “Sobre o Início do Tratamento”, escrito em 1913. Ali ele diz: “com referência ao tempo, atenho-me estritamente ao princípio de ceder uma hora determinada. A cada paciente é atribuída uma hora específica de meu dia de trabalho disponível; pertence a ele que é responsável por ela, mesmo que não faça uso da mesma”. Insistindo nessa determinação ele ajunta: “este acordo, que é aceito como natural para professores de música ou idiomas na sociedade, pode talvez parecer rigoroso demais num médico, ou até mesmo indigno de sua profissão”.

Em decorrência, Freud praticava com seus clientes sessões de uma hora, seis vezes por semana. Posteriormente, alguns pós-freudianos, amparados pelos standards da IPA - International Psychoanalytical Association, passaram às sessões de 50 minutos, quatro vezes por semana. Hoje, a IPA indica sessões de 50 minutos, com um mínimo de três vezes por semana[3].

 

O tempo em Lacan

 

Entre os conceitos originais instituídos por Lacan no âmbito da psicanálise, o de “tempo lógico” é, sem dúvida, o mais discutido. Acendeu muitas contestações na área psicanalítica na medida em que colocava em discussão o conceito de tempo cronológico para a medida da sessão psicanalítica. Para Lacan a sessão não deveria ser de 45, 50 ou 60 minutos, mas deveria ser avaliada pelo desejo enquanto catalisador da prova analítica. Seus contestadores censuravam tal entendimento na medida em que o mesmo pressupunha uma atitude discricionária do analista ao “cortar” arbitrariamente a sessão. Respondendo, Lacan argüia que o tempo da sessão se determinaria pela lógica da certeza antecipada do analista, baseada no desejo do analisante. 

Assim, Lacan, em “O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada”, de 1945, trouxe para esse assunto uma importante modificação teórica, com conseqüentes repercussões diretas na clínica. A partir da acima comentada teorização freudiana, ele ajunta outra extraordinária compreensão de Freud: a da retroação, também conhecida como “só depois” ou, em alemão, Nachträglich kei.

Além disso, acrescenta à questão do tempo em psicanálise sua própria contribuição -totalmente inovadora- quando concebe a trilogia composta pelo momento de ver (ou do olhar), o instante de compreender e a momento de concluir, a partir da famosa alegoria dos três prisioneiros.

Nesse sofisma, Lacan nos diz de um diretor de prisão que chama três prisioneiros para oferecer-lhes a liberdade. Essa, contudo, somente seria alcançada pelo prisioneiro que primeiro identificasse a cor de um disco que estaria afixado às suas costas, deduzindo-a sem vê-la, espelhando-se apenas na visão dos discos fixados nas costas dos dois outros prisioneiros.

Aos prisioneiros era dada ainda a informação de que os discos que estariam nas costas de cada um seriam escolhidos de um universo de três discos brancos e dois discos pretos.

Cada prisioneiro desenvolveria, então, o seguinte encadeamento de reflexões:

1. Seu disco poderá ser preto ou branco pois não há mais que duas cores e cada sujeito poderá se identificar com apenas uma delas.

2. Como há três brancos e só dois pretos, as chances de identificação melhoram, pois se um vir dois prisioneiros com discos pretos saberá, por exclusão, que seu disco é branco.

3. Se vir apenas um preto, as chances de seu disco ser branco ainda continuam grandes. (Isso imaginariamente, porque, lembrando o par ou ímpar, na realidade as chances continuam sendo de 50%).

4. Se ele vê dois brancos, continua na perspectiva do seu disco ser preto ou branco.

Assim, só saberá sua cor pelas atitudes dos outros (como os outros me vêem?).

 

Primeira suspensão:

5. Todos hesitam. Todos sabem que não há dois pretos.

6. Porém, se o outro me visse preto poderia ter saído, ou sair agora, depois dessa primeira hesitação. Uma vez que não há dois pretos, e se eu sou preto, eles poderiam se suporem brancos.

7. Mas se ainda assim eles não saem, eu também sou branco. Daí suponho: se um deles (a, por exemplo) me visse preto poderia ter pensado, "c" não saiu porque não vê dois pretos, daí sou branco.

8. Todos pensam a mesma coisa e se dirigem para sair.

 

Segunda suspensão:

9. Será que tenho razão? Pensa cada um deles.

10. Mas todos param e o fato dos outros pararem dá a cada um deles a certeza de que estão logicamente certos. Cada um sai, então, correndo em busca da sua liberdade antes dos outros.

11. Saem todos juntos.

Lacan pretende mostrar com essa alegoria a existência de três tempos lógicos, modulados das seguintes formas: "l'instant du regard", que seria “o instante do olhar”, “le temps pour comprendre”, ou seja, o tempo para compreender e “le moment de conclure", o momento de concluir. São, assim, três momentos de destaque, com valores lógicos diferentes e de ordem crescente[4].

Com isso, vê-se que é a precipitação que tenciona o tempo, levando ao ato. Lacan fala em "tempo para compreender o instante do olhar. E, passado o tempo para compreender, o momento de concluir é o momento de concluir o tempo para compreender" [5].

Situa-se, então, como fundamental, o conceito de “corte da sessão” como uma forma de interpretação que leva à reestruturação e a ressubjetivação dos acontecimentos da narrativa autobiográfica do sujeito e, concomitantemente, como um modo de fazer sentir, compreender e escutar o que o paciente diz ou acaba de dizer. Em outras palavras, ao idealizar a sessão de duração mutável, Lacan considera como função do analista interferir no tratamento através de tais cortes ou interpretações, objetivando que o paciente descubra mais cedo seus fantasmas inconscientes e gaste menos tempo pronunciando palavras ocas.

Dessa forma, pode-se deduzir que uma adequada sessão analítica tem conseqüências de corte para o analisante, tanto o advertindo quanto a qualquer significação que até aquele momento se lhe esquiva, como para auxiliá-lo a se desatar de um exagero de gozo e a afrontá-lo com os limites do dizer.

Quando Jaques Lacan avança no sentido de uma formalização topológica, articulando o próprio conceito de significante à noção de corte, torna-se ainda mais evidente a integração dos três tempos que se delimitam nachträglich a partir da duplicação do corte (escansões[4]) na estrutura. Isso demonstra uma sincronia que já se percebia na idéia de antecipação. Lembrando o que Lacan diz a esse respeito no Seminário sobre “A Identificação”: “A interrupção no sucessivo faz parte da estrutura. Essa dimensão temporal faz parte do funcionamento da cadeia significante que articulei primeiramente pra vocês como sucessão, tem como conseqüência que a escansão introduz um elemento a mais além da divisão a interrupção modulatória, ela introduz a pressa que eu inseri enquanto pressa lógica. É um velho trabalho, O tempo lógico. O passo que tento fazê-los dar já começou a ser traçado, é aquele onde se enlaça a descontinuidade com o que é a no tempo devido”(p.1371). Essência do significante, a saber, a diferença. A diferença está no corte.” (aula de 16/05/62)[6].

Em resumo, com tal insight Lacan passa, então, a empregar o tempo na própria sessão como uma ferramenta privilegiada para conseguir escansões, ou interpretações ou, ainda, retroações significantes.

Em seus trabalhos Lacan amiúde enfatiza a “pressa lógica” da estrutura, que determina a priori os tempos ulteriores. Essa compreensão é basilar para a colocação de um ponto sensível que volta e meia se oferece a mal-entendidos: a antecipação exigida pelo encontro marcado que impõe uma escolha forçada entre o ser e o sentido – escolha essa fundante do sujeito em sua excentricidade lógica com a causa de seu desejo – determina a entrada na estrutura e a modalidade de relação do sujeito com o significante.[7]

Assim, a estrutura como que “escraviza” o sujeito à linguagem. Mas, ao mesmo tempo, confere a ele um quantum de liberdade suficientemente extenso para que o ele tenha condições de tomar suas decisões e fazer suas opções a partir das limitações e alternativas que caracterizam a história.

 

O Tempo Tríbuo

 

A psicanálise leva, então, ao reconhecimento de um imaginário tempo, dito tríbuo, como uma realidade dinâmica, que faz com que com que não exista somente o presente cronológico da sessão analítica, mas se exercite nela um presente que se altera e provoca um encontro e uma rearticulação entre passado, presente e futuro. Nesse juízo, não existe um passado fixo, idêntico, a ser esgotado pela história. Na prática psicanalítica, as esperas futuras e vivências presentes alteram a compreensão do passado e cada sujeito, ao reconstruir narrativamente sua história, em um presente, está abarcando passado e futuro, que, por sua vez, reenviam-se um ao outro.

Enfim, é assim, que toma corpo a compreensão da temporalização do tempo na constituição e estruturação da subjetividade, como contida no termo "posterioridade" (nachträglich).  Tal entendimento envolve o duplo sentido – progressivo e regressivo - que explica que o sujeito não é nem isto nem aquilo, mas isto e aquilo ao mesmo tempo. Portanto, para além da condição de ambivalência, ser híbrido é ser também um terceiro, um Outro.

 

 

Tudo isso conduz ao pressuposto maior da psicanálise em relação ao tempo, conforme ensina Ivan Corrêa em “A Escrita do Sintoma”·[8]: “o pressuposto da psicanálise em relação ao tempo é que se o tempo não for reversível, se não se puder mexer no tempo passado, não existe psicanálise.” E , mais adiante: o tempo psicanalítico é algo que entra em uma dimensão de reversibilidade. Posso ir ao passado, mexer no passado e esse passado pode ser alterado em função do presente no qual estou falando, como um projeto para o futuro”.



[1] Artigo destinado a servir como avaliação da disciplina "Fundamentos da Clínica Psicanalítica", do Curso de Especialização em Clínica Psicanalítica, da FAFIRE - Faculdade Frassinetti do Recife, 2008.

 

[2] Fernando A. R. de Gusmão – Engenheiro e Administrador de Empresas. Pós-Graduado em "Psicologia Clínica nas Instituições" pela FAFIRE - Faculdade Frassinetti do Recife.

 

[3] Quanto a essa teoria, Hawking registra que “a Igreja Católica adaptou-se ao Big Bang e, em 1951, pronunciou-se oficialmente a respeito de ele estar em harmonia com a Bíblia” (pg. 77).

[4] Escandir = Destacar, realçar, enfatizar. (Dicionário Caldas Aulete digital)



Referências:

 

[1] HAWKING, S. “Uma Breve História do Tempo – do Big Bang aos buracos negros”. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

 

[2] BALDIZ, M. “O Tempo da Análise - O Tempo na Cura: As Sessões a-Temporais.  EPFCL -Espanha. Disponível em\ http://www.vencontro-ifepfcl.com.br/textos/volprepapt/o_tempo_na_cura_as_sessoes_a_temporais_manuel_baldiz.pdf>. Acessado em 4/02/2009.

 

[3] ANDRADE, L. “A dança dos minutos. Considerações sobre o tempo da sessão”. Trabalho apresentado na III Jornada do Fórum Psicanalítico de João Pessoa, em 6.12.2003. Disponível em  <http://www.escolafreudianajp.org/arquivos/trabalhos/A_danca_dos_minutos.pdf>. Acessado em 6/02/2009.

 

[4]LACAN, J. “Le temps logique et l'assertion de certitude anticipée. Un nouveau sophisme”. Disponível em < http://jeanzin.fr/ecorevo/psy/tempslog.htm. Acessado em 6/02/2009.

 

[5] IDEM.

 

[6] PRATES, A. “A insondável decisão do ser e o tempo” (EPFCL - Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – São Paulo). Disponível em < http://www.vencontro-ifepfcl.com.br/textos/BIBLIOTECATEMPOANALAURAPRATES-A%20insondaveldecisaodosereotempo.pdf>. Acessado em 6/2/2009.

 

[7] IDEM.

 

[8] CORRÊA, I. “A Escrita do Sintoma”. Recife: CEF, 2006 – 4ª edição.

publicado por Fernando Gusmão às 14:00
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Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

O QUE É COACHING?

 

 
Coaching é a palavra em inglês para o trabalho de consultoria pessoal, nas áreas de negócios e de administração, objetivando a melhoria da qualidade de vida do empreendedor e/ou do executivo frente às situações de ansiedade e stress que permeiam o dia-a-dia do ambiente empresarial. Em termos técnicos, é uma confluência da Administração de Empresas com a Psicanálise, não sendo, no entanto, uma psicoterapia.
 
Os trabalhos de coaching surgiram nos esportes. Em 1974, Timothy Gallwey, então técnico de tenistas, escreveu seu famoso livro, O jogo interior do tênis, que assinalou o início do conceito atual de coaching e que, não obstante tratar sobre tênis, tem fundamentos que podem ser aproveitados em qualquer feição da vida, inclusive na atividade empresarial.
 
Vale explicar que, conquanto a tradução de coach esportivo para o português pudesse ser treinador ou técnico, essa mesma tradução nada tem a ver com o coach aqui tratado: no nosso caso, o coach não tem respostas prontas, mas tem as perguntas que levam o cliente a encontrar as respostas que lhe são certas.
 
O Coaching é, assim, antes de tudo, uma parceria poderosa em que o coach (consultor pessoal) ajuda o cliente a conseguir o seu "melhor" e a determinar os resultados que ele almeja em sua vida, tanto pessoal como profissional.
 
O trabalho de Coaching é desenvolvido geralmente em sessões presenciais, normalmente de 1 hora por semana, acompanhados por contactos pela Internet ou por telefone, pelo prazo de interesse do cliente.
 
É um relacionamento onde o coach está preparado para escutar o cliente sem julgamentos de suas palavras, mas "ouvindo" o que está por trás delas. Nesse relacionamento são tratadas as dúvidas e as ansiedades do executivo, oriundas do seu trabalho, de modo a que as mesmas sejam consideradas no devido nível de importância, tanto para a empresa como para o executivo e sua família. Nesse caminhar, o cliente é o responsável pelas conseqüências do que ele alcança no coaching. O consultor pessoal ajuda, porém, os sucessos são do cliente.
 
publicado por Fernando Gusmão às 13:52
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Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

Psicanálise: Ciêcia, Ética ou Estética?

 

PSICANÁLISE: CIÊNCIA, ÉTICA OU ESTÉTICA?[1]
Fernando A. R. de Gusmão (fargusmao@ig.com.br)[2]
              
                                                                                            Quem ama o feio, bonito lhe parece.   (Da sabedoria popular)
 
Resumo: Este artigo pretende fazer uma breve abordagem sobre o trabalho de Joel Birman "Indeterminismo e Incerteza do Sujeito na Ética da Psicanálise", onde o autor faz uma leitura sobre o fundamento ético do discurso de Sigmund Freud, considerando as pretensões iniciais do fundador da psicanálise de inscrever, pela metapsicologia, sua teoria no espaço científico.  Nesse percurso, considera a evolução da teoria psicanalítica, adentrando as dimensões da ética e da estética, e terminando por propor a existência de uma ética psicanalítica que se emaranha com o saber freudiano, em uma relação de circularidade. A clínica surge, então, como o espaço onde o sujeito poderá enfrentar a dívida simbólica originária, pela qual se funda a dimensão ética da sua existência enquanto ser humano.
Palavras-chave: Psicanálise, Ciência, Ética, Estética, Clínica.
 
A filosofia platônica marcou como diferentes dimensões do mundo manifesto os conceitos de Verdade, do Bom e do Belo. Nesse sentido, qualquer fenômeno pode ser sempre analisado levando em conta uma dessas três vertentes independentes e complementares: (1º) ao olhar para "ele" enquanto um fato objetivo por si mesmo, numa visão científica, objetiva, onde poderá ser descoberta a Verdade; (2º) pela perspectiva do "nós", entendida como, não apenas eu, mas, também, como os outros se sentem, numa consideração ética, subjetiva, que poderá comportar o Bom e (3º) pelo ponto-de-vista do "eu", ou seja, como pessoalmente percebo e/ou me sinto em relação a isso, num viés estético, transcendental, onde poderá ser vislumbrado o Belo.[3]
No que diz respeito à verdade, registra Joel Birman, no seu ensaio "Indeterminismo e Incerteza do Sujeito na Ética da Psicanálise", que "enquanto representante da racionalidade psicanalítica no discurso freudiano, a metapsicologia pretendia ser o estudo sistemático dos processos psíquicos nos registros tópico, dinâmico e econômico". Pretendia a metapsicologia atribuir à psicanálise racionalidade suficiente para se fundar como ciência, descrevendo e explicando qualquer fenômeno inconsciente, com vistas a agenciar, pela consciência, o comando cognitivo do sujeito. Nessa teorização, amparada no princípio do prazer, as pulsões estariam no campo da representação, adequadas aos objetos de satisfação, não havendo, por isso, hipótese de autonomia das forças pulsionais ante as marcas da representação e do objeto. Com isso, o psiquismo seria fixado no espaço representacional, possibilitando um entendimento fundamentalmente determinista do sujeito, cujas bases reguladoras trabalhariam de forma automática e auto-regida, atendendo às solicitações pulsionais de prazer e de desprazer.
Ocorre que esse constructo mostrou-se precário para suportar a prova psicanalítica, tendo sido tal paradigma tópico substituído, paulatinamente, pelo modelo econômico, onde era solicitada a modificação das relações das forças em embate na interioridade para que surgissem as representações, até então encobertas. Da mesma forma, perseguia-se, também, a possibilidade de que, pela intervenção nessas representações, o sujeito pudesse refrear as dimensões irracionais do seu psiquismo, através do uso da cognição e dos juízos de valor.
Contudo, ao observar, na clínica, a prevalência da repetição ante a rememoração no psiquismo do sujeito, Freud pôde comprovar a autonomia das pulsões face às representações. Ou seja, vendo no campo transferencial a representação sendo afastada por atos do sujeito, concluiu que a representação da memória era insuficiente para amparar a experiência psicanalítica e, com isso, expôs o fulcro basilar do psiquismo humano: o indeterminismo, em um contexto de total incerteza.
Como via de conseqüência, a supremacia do assentamento econômico em prejuízo dos registros tópicos e dinâmicos levou a teoria freudiana para além do princípio do prazer, proclamando a pulsão de morte como embasamento essencial do sujeito. Com isso, a fundamentação da metapsicologia saiu do conceito de inconsciente para o conceito de pulsão. Esse desvio eliminou, terminantemente, qualquer aspiração freudiana de enquadrar o conhecimento psicanalítico como modelo científico. Em outras palavras, afastou a psicanálise do campo daquilo que seria a investigação e o conseqüente conhecimento de alguma "verdade" racional, de caráter universal, na circunscrição da individualidade, verdade essa que fosse objetiva, de acordo com padrões imparciais e não a verdade conforme ditada por um ego individual, uma tribo ou uma religião.   Nesse sentido, Birman pontua que “Este deslocamento foi o signo fundamental de que o discurso freudiano se afastava de   uma leitura do sujeito centrada na ciência para uma outra leitura, que se fundaria agora numa direção ética e estética” (BIRMAN, 1996, pg. 56).
Assim, a impossibilidade de enquadramento da psicanálise no modelo científico se, por um lado, trouxe a Freud o gosto amargo da frustração, por outro foi, exatamente, o fator que dirigiu a teoria freudiana para os campos da ética e da estética. Ou seja, enquanto afastou a psicanálise da busca pela "verdade", a enviou, por felicidade, para os espaços do "bom" e do "belo".
Esse novo status não foi, de início, absorvido com facilidade pelo fundador da psicanálise. Por exemplo, no que diz respeito à estética, o contexto cientificista da sua época, que tinha como principal desideratum encontrar a verdade, via a função do "belo" como perturbadora, na medida em que remetia o sujeito, conforme já comentado, à possibilidade de uma indeterminação. Por isso mesmo, quando tratou da estética em "Mal Estar da Civilização" Freud chegou a dizer que o belo era inútil, mas que reconhecia sua indispensabilidade à cultura.
No entanto, com o prosseguir dos estudos, verificou-se que, na instância do belo, a psicanálise corre paralela com a criação poética ao fazer uso das metáforas e das metonímias como ferramentas de trabalho para o exercício do seu mister: quando as utiliza na criação e na recriação. Por isso, pode-se afirmar que é a criação poética que permite a ênfase na forma expressiva de dizer referida à lógica do inconsciente. Nessa dimensão as articulações do sujeito estético se dão nas relações dele consigo mesmo, no âmago da sua interioridade e, conseqüentemente, no espaço que se abre à sua transcendência, pois o belo, como se sabe, está nos olhos do observador; ele representa as correntes estéticas e expressivas de cada eu subjetivo. Isso não quer dizer, necessariamente, que o belo seja meramente subjetivo, mas, sim, que ele é um julgamento feito por cada sujeito, por cada eu.
Tratando, agora, do espaço do bem, da ética, a psicanálise postula que sem o Outro não pode haver sujeito. Ou seja, que a constituição do sujeito somente é possível a partir desse Outro. Conseqüentemente, o ser humano "deve" simbolicamente ao Outro sua existência como sujeito. Por isso, no que diz respeito ao sujeito ético, tal dívida simbólica vincula irremediavelmente o sujeito ao Outro e faz com que o sujeito da psicanálise esteja fadado e na obrigação do procurar e reconhecer, permanentemente, o bem do e no Outro. Esse entendimento é confirmado por Jaqueline de Oliveira Moreira[4] quando assevera:
A categoria de alteridade se impõe como um complexo sêmico[5] de múltiplas derivações semânticas, exigindo uma descrição fenomenológica para capturar os diferentes graus de comparecimento do outro; sendo que essas diversas figuras de alteridade podem ser pensadas como causas do sujeito, ou seja, o sujeito emerge a partir da incidência do outro. E essas figuras podem ser utilizadas em leituras clínicas ou teóricas da psicanálise.
Do ponto de vista clínico, Freud, já em 1896, registrava que sua cliente Bertha Von Pappenheim  –nome verdadeiro de Anna O – havia conferido ao procedimento psicanalítico o nome de "tratamento pela palavra"[6].  Aceitando essa conceituação, ele, por via de conseqüência, colocou o saber incluso nos ditos dos pacientes e, ademais, instituiu a regra fundamental da livre associação como a única condição cominada ao analisante no sentido do tratamento. Definiu, portanto, a vocação determinante da psicanálise: tudo ocorre dentro e pela linguagem. Para ele, não existe outra forma de tratar do funcionamento da estrutura e das instâncias psíquicas do sujeito além da fala. Por conseguinte, para Freud a psicanálise vê o seu objeto contido na fala do sujeito. Por isso, a ética da psicanálise se diferencia essencialmente das demais éticas do espaço da filosofia por constituir-se "como sem objeto". O que se move e agita é o desejo e esse só se sustém justamente por não alcançar algo especial, que o contente de modo pleno.
Por tudo isso, é lícita a inferência que a ética da psicanálise é a ética do bem-dizer, ou seja, é exclusivamente a palavra que determina um resultado operatório na terapêutica. Toda interpretação redirige o sujeito à eleição de seu desejo e de suas maneiras de gozo. Isso sem perder de vista que a ética da psicanálise está permanentemente compromissada em manter incólume a estrutura de falta no inconsciente[7].
Portanto, a psicanálise ao referir-se à ética do bem-dizer, comporta a singularidade de um sujeito ético – e não ôntico[8], pois não se reduz ao eu (moi), instância imaginária, mas ao [Eu] o sujeito do inconsciente. Nesse sentido, Lacan já registrava no Seminário sobre “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise" (1964/1990), que o estatuto do inconsciente é ético e não ôntico “.  
Desse modo, Lacan conceituou a ética da psicanálise como "agir de acordo com o próprio desejo", o que mostra uma ética em outra camada, que não diz respeito a uma antimoral ou a determinada doutrina do permitir-se, porque tal desejo é um processo que reside no inconsciente.
Por conseguinte, é dessa forma que a ética se emaranha com o saber psicanalítico, sendo a clínica psicanalítica o espaço onde o sujeito poderá enfrentar a complexa dívida simbólica originária, pela qual se funda a dimensão ética da sua existência como ser humano.
Referências
BIRMAN, J. (1996) "Indeterminismo e incerteza do sujeito na ética da psicanálise (uma leitura sobre o fundamento ético do discurso freudiano)", in FRANÇA, M. I. (org.), Ética, psicanálise e sua transmissão. Petrópolis: Vozes.
FREUD, S.(1930) Obras psicológicas completas da ed Standard Brasileira. O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago Editora.
LACAN, J. (1964). O Seminário LIVRO 11 - Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. São Paulo: Editora Jorge Zahar.
 

[1] Artigo destinado a servir como avaliação da disciplina "Ética na Contemporaneidade", do Curso de Especialização em Clínica Psicanalítica, da FAFIRE - Faculdade Frassinetti do Recife, 2008.
[2] Fernando A. R. de Gusmão – Engenheiro e Administrador de Empresas. Pós-Graduado em "Psicologia Clínica nas Instituições" pela FAFIRE - Faculdade Frassinetti do Recife.
[3]Ken Wilber, cf. citado por Fernando Sepe in "Uma Abordagem Integral" disponível em <http://fernandosepe.blogspot.com/>. Acessado em 20/dez./2008.
[4] MOREIRA, Jacqueline de Oliveira. Do problema da alteridade no pensamento freudiano: uma construção. Ágora (Rio J.),  Rio de Janeiro,  v. 6,  n. 2, dez.  2003 .   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-14982003000200005&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 21  dez.  2008. doi: 10.1590/S1516-14982003000200005.
[5] Sêmico: Referente a Semiótica que é o estudo da comunicação através do uso de signos, ícones, índices e símbolos.
[6] Cf. Freud in "Novas observações sobre as psiconeuroses de defesa". Edição Brasileira da Obras Completas de S. Freud. Imago Editora. Rio de Janeiro, 1974.
[7]SANTORO, Vanessa Campos.  Clínica psicanalítica e ética. Reverso. [online]. set. 2006, vol.28, no.53 [citado 20 Dezembro 2008], p.61-66. Disponível na World Wide Web: <http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-73952006000100009&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0102-7395.
[8] Ôntico: Referente ao ente.
 
publicado por Fernando Gusmão às 13:07
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Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

Psicanálise: Antes - e agora? *

 

Fernando A. R. de Gusmão (fargusmao@ig.com.br)**
"Para nós é de suma importância reconhecer abertamente que a ausência de doença psiconeurótica pode ser saúde, mas não é vida".                                                                         Winnicott (1971), "O Brincar & a Realidade", 1975, pp. 138-139.
 
 
Resumo: É de Jacques Lacan o entendimento de que o sujeito está definido em relação ao saber. Por isso, como, ao longo do tempo, o saber muda, o sujeito também muda, causando o surgimento de um sujeito novo em função da nova relação deste com o saber. Também é de Lacan, a conclusão: "o sujeito sobre quem operamos em Psicanálise só pode ser o sujeito da ciência". Isso leva ao juízo que “a Psicanálise opera sobre um sujeito” (e não sobre um eu). (ASSUNÇÃO, 2003). Em decorrência, este texto pretende refletir sobre as mudanças porque passou o sujeito ao longo do tempo, desde a modernidade (sujeito da ciência), quando surgiu a Psicanálise, até a pós-modernidade, ou seja, até o sujeito da contemporaneidade. Nesse contexto, examina como se deu, em contrapartida, o percurso da Psicanálise na mesma linha do tempo, onde a modernidade constituiu-se entre os séculos XVI e finais do XVIII, dilatando–se até o meio do século XX. Ademais, considera-se a passagem do século XIX para o XX como uma transição para a pós-modernidade.
 
A Modernidade – Toma-se aqui a modernidade como o período histórico em que o saber é caracterizado pelo aniquilamento de diretrizes ancestrais, substituídas pelo império da racionalidade - seja objetiva, seja instrumental - e a invalidação do mundo natural, divino e sagrado. Essa modernidade – sucedendo à Era da Teologia - trocou Deus pela Ciência no espaço social, limitando a religiosidade ao âmbito da vida privada.
Marca-se, nesse momento, uma transição da subjetividade para a objetividade, alinhada com a idéia geral de secularização e desencantamento do mundo, reforçando, assim, o declínio do sagrado, banindo-se da sociedade o mítico, o inefável, o fantasmático. Nessa moldura prevalecem as idéias otimistas do Iluminismo, de uma sociedade baseada na busca da verdade, na razão, no humanismo, na ciência, na fraternidade, na liberdade e na democracia liberal.
A racionalização foi, portanto, a parte fundamental e inteiramente imprescindível da modernidade, tornando-se uma estrutura espontânea e absolutamente necessária ao processo. Passam, por isso, a ter valor capital as organizações da produção e do trabalho, bem como a liberdade de trocas e a reverência às leis. Resultam, por decorrência, o desenvolvimento da tecnologia e a exploração da mais valia pelo aparelho capitalista.
Nessas condições, o sujeito da modernidade ambicionava atingir a liberdade, a abundância a e a felicidade, tornando-se cidadão de uma sociedade organizada.
 
A Psicanálise no seu início. – No trato do homem moderno consigo mesmo enfatizava-se o ascetismo. Cada um tinha a obrigação de assumir uma autovigilância ininterrupta, procurando viver como objeto de construção. Daí veio o dandismo[1] como assunção da própria existência como uma obra de arte, formada no dia-a-dia, através de uma disciplina muito rígida. A ascese, a renúncia aos prazeres, a disciplina, a moderação e a acumulação eram estimuladas. O homem vitoriano ideal era, em sua trajetória de vida, educado, correto, honesto, formal, disciplinado, retilíneo, cumpridor de suas obrigações, íntegro, confiável e honrado. Um cavalheiro que consagrava sua vida à empreitada de crescer lenta e de forma segura, na atividade e/ou empresa escolhida. Os preceitos eram estritos e aquele que os seguia era apreciado e, conseqüentemente, recompensado. (BARRETO, 2007).
A Psicanálise foi fruto dessa modernidade e, como tal, estruturou-se, naturalmente, de acordo com a cultura do sujeito da época. Assim, no seu início estava envolvida com esse indivíduo da modernidade que era dono de uma interioridade que se caracterizava por reprimir a sexualidade e desvalorizar o feminino, bem como os sentimentos de fraqueza, de dor e de tristeza. Coibindo seu componente feminino, não via com bons olhos a espontaneidade, a empatia e a capacidade de identificação, que eram por ele recalcadas e/ou reprimidas.
Esse homem era, além de tudo, resultado de uma educação essencialmente repressiva. A criança era cumpridora de deveres e obrigações. Na escola, valorizava-se a disciplina e o bom comportamento. No trabalho eram colaboradores disciplinados, cumpridores de normas, assíduos, burocráticos, dedicados à firma que, em troca, lhes assegurava segurança e aposentadoria. Era um homem religioso e, por isso, carregava consigo as noções oriundas da Igreja, notadamente aquelas de pecado e de culpa, o que marcava de forma indelével sua subjetividade.
Como via de conseqüência, pode-se assumir que, durante os primeiros 50 anos de Psicanálise, o homem moderno – neurótico/reprimido – situou-se no centro da cena psicanalítica.
 
Tratando desse homem, Freud, em “Análise Terminável e Interminável”, escreveu:
 
“A análise, contudo, capacita o ego, que atingiu maior maturidade e força, a empreender uma revisão dessas antigas repressões; algumas são demolidas, ao passo que outras são identificadas, mas construídas de novo, a partir de um material mais sólido. O grau de firmeza dessas novas represas é bastante diferente do das anteriores; pode-se confiar em que não cederão facilmente ante uma maré ascendente da força instintual. Dessa maneira, a façanha real da terapia analítica seria a subseqüente correção do processo original de repressão, correção que põe fim à dominância do fator quantitativo” (p.259/260 do vol. XXIII – Edição Standard da Imago, 1975).
 
Em suma, pode-se simplificar dizendo que a doença moderna era a histeria, enquanto teatralização do sujeito, ou a paranóia como projeção da sua interioridade sob a forma de um sistema delirante (GALVÃO, 2007).
 
A Pós–Modernidade. – Como anteriormente referido, até o Renascimento a humanidade tinha Deus como locus da transcendência e a era moderna havia colocado a Razão no lugar de Deus. Na sua vez, a pós-modernidade substituiu a Razão pelo Mercado como dimensão transcendental do homem, eliminando, para tanto, as grandes narrativas ou metas-narrativas, como as de Karl Marx e de Sigmund Freud, provocando uma crise das ideologias.
O pós-modernismo surge, assim, como uma dinâmica das artes e da cultura em contrapartida a uma nova conformação da política e da economia, chamada por Ernest Mandel de "capitalismo tardio"[2], que é suportada pelas economias de consumo – nacionais e transnacionais - baseadas num contexto global de capitalismo.
Muito embora a pós-modernidade tenha trazido uma extraordinária liberdade, essa liberdade mostrou-se estéril para o pensamento, haja vista que o trabalho do pensamento, sendo comandado por aquilo que produz obstáculo (MELMAN, 2004), perde efetividade na medida em que, não mais havendo obstáculos, não se sabe mais no que pensar. Ao mesmo tempo, a posição ética tradicional (metafísica e política), que possibilitava às pessoas orientar seus pensamentos, peca hoje pela falta.
O continuado desenvolvimento tecnológico provocou a revolução da informação com a publicação de imagens e de conhecimento muito além dos limites nacionais, produzindo o fenômeno da globalização, que descaracteriza as culturas e homogeneíza as imagens e os produtos. Paralelamente, ocorre uma redefinição de identidades de nação-estado, (que era o alicerce da era moderna), com repercussões lingüísticas e étnicas, no significado de mistura global de culturas numa grandeza não-conhecida nas sociedades anteriores.
Contrastando com o homem vitoriano da modernidade, o sujeito da pós-modernidade resulta de uma série de condicionantes que o origina e o direciona. Sua saúde mental já não decorre mais da harmonia com seu ideal, mas do objeto que lhe possa trazer satisfação. Nesse sentido, ele não está mais submetido a limites. Passou a ter uma nova forma de pensar, de julgar, de comer, de se casar ou não, de viver a família. Sua economia psíquica é agora caracterizada pela exibição de prazer e implica em novos deveres, dificuldades e sofrimentos. O excesso se tornou norma.
Para ele, o sexo se banalizou. É encarado hoje como uma necessidade, caindo por terra o limite que o tornava sagrado, passando, por isso, a ser uma mercadoria entre outras. Com isso, o homem contemporâneo pode satisfazer publicamente suas paixões, contando com o reconhecimento social. Isso inclui, até, as mudanças de sexo. Quando se fala em liberação sexual, não se fala mais no desejo. O homem contemporâneo trata o desejo sexual, de certa forma, como simples atividade corporal (BAUMAN, 1999).
A família, de repressora tornou-se condescendente, admitindo uma larga liberdade para a consumação de desejos dos filhos. Conseqüentemente, vê-se uma tendência de transição de uma interioridade para uma exterioridade, de uma dinâmica apoiada no recalque para uma dinâmica centrada na onipotência, de um superego forte, capaz de se bastar a si mesmo, para um superego subordinado à opinião e à aprovação do ambiente.
Dito de outra forma, a família patriarcal perdeu importância e as identificações adequadas com o pai se fragilizaram com o prejuízo de poder desse pai, com sua desorientação em presença de um mundo instável onde coisa nenhuma é segura, nem a moralidade, nem as amizades, nem as convenções sociais, nem o emprego. Ou seja, o pai, enquanto representação, perdeu o atributo emblemático de autoridade, desvanecendo-se sua função de referência. Complicando, ainda mais o quadro, o pai e a mãe passaram a ter as mesmas pertinências domésticas e laborais, obstando a identificação dos filhos com a figura masculina ou com a feminina.
Nesse novo tempo, os jovens, por sua vez, só vislumbram um objetivo: compartilhar da vida social. Não bradam contra as injustiças. Querem exclusivamente encontrar um meio de usufruir já dos prazeres da vida social.
Na pós-modernidade até a morte perdeu sua sacralidade. Exibições de cadáveres plastificados passaram, inclusive, a fazer parte no show business da atualidade, como o do anatomista alemão Gunther von Hagens, conhecido como o Doutor Morte, que inaugurou, em outubro de 2008, uma exposição em Londres, em que usa cadáveres dissecados para contar o ciclo da vida humana.
Em resumo, o sujeito da pós-modernidade apresenta características subjetivas muito díspares daquelas que enquadravam o sujeito da modernidade que, conforme Kernberg (1991) podem ser resumidas da seguinte forma:
 
·                   Desconstrução e perda dos limites da interioridade, com identidade sendo
            função do momento.
·                   Fragmentação, superficialidade e idolatria do simulacro; descontextualização
            do passado, vivido como show no universo midiático;
·                   Busca frenética do momento e da informação adequada e
·                   Relações fugidias e laços menos fixos.
 
A Psicanálise na Pós–Modernidade – Pelo exposto pode-se afirmar que o sujeito da pós-modernidade não é mais dividido, não se interroga sobre sua própria existência, mas é um sujeito fragmentado, composto, não de uma única, mas de várias identidades, algumas delas contraditórias ou não-resolvidas. Assim, não têm uma identidade fixa, essencial ou permanente. Sua identificação torna-se uma “celebração móvel” formada e transformada continuamente em relação às configurações pelas quais é representado ou interpelado nos sistemas culturais que hoje o rodeia. Por isso, assume identidades que não são agregadas no entorno de um “eu” coesivo, identidades distintas em distintas ocasiões. São identidades colidentes, impelindo em diversas direções, de tal modo que suas identificações estão sendo continuamente deslocadas. (Hall, 1990, 2000).  
O homem da modernidade é um indivíduo inseguro, que deixou de ser firme e resistente. Não mais possui valores sólidos e um superego potente. Ele não sabe se expressa ou não suas emoções, não sabe se amplia ou não sua disposição para a empatia e a identificação e não sabe se deve ou não ser autoritário.
O desaparecimento da noção de limite levou consigo o sujeito do inconsciente de Freud. Para aquele sujeito, sua relação com o mundo não se dava por intermédio de um objeto, mas pela falta dele. Hoje, como para se ter acesso à satisfação não é mais preciso passar pela perda, dissipar-se-ia a principal das origens das neuroses. Por um lado, na medida em que põe o prazer à frente do saber e prioriza a estética em detrimento da ética, o sujeito da pós-modernidade fica sem referências e, por isso, se vê exposto e frágil, necessitando sempre da confirmação externa para suas atitudes. Ou seja, apresenta-se com um ego murcho, extenuado. (Melman, 2008). Pelo outro, mostra-se manipulável e manipulado na medida em que, para ele, a imprensa e a mídia substituíram as fontes de saber anteriores. Como conseqüência, suas escolhas, opções e comportamentos de consumidor é que passam a organizar seu mundo.
Por isso, Armony (2008), diz que, se durante os primeiros 50 anos da Psicanálise o neurótico dominou a cena psicanalítica, de lá para cá as chamadas síndromes limítrofes - próprias do borderline - têm ocupado um lugar cada vez maior na clínica e no pensamento psicanalíticos.
O borderline, caracterizado como possuindo um superego frouxo, lábil, influenciável, correlativo à descrição freudiana do superego feminino, se permite penetrar e influenciar, tornando-se mais suscetível para seguir as rápidas mudanças porque passa hoje a cultura.
Nesse sentido Deschamps (2008), fala de quatro níveis de borderlines:
  • Grupo 1- O borderline psicótico – comportamento inapropriado e não adaptado. Deficiente senso de identidade e de realidade. Comportamento negativo e raivoso em relação às pessoas. Depressão.
  • Grupo 2- O borderline nuclear – Envolvimento flutuante com outros. Expressões abertas e atuadas de raiva. Depressão. Ausência de indicações de um self consistente.
  • Grupo 3 – Personalidades ‘como se’ – comportamento adaptado e apropriado. Relações complementares. Pouca espontaneidade e afeto em resposta a situações. Defesas: afastamento e intelectualização.
  • Grupo 4- O borderline neurótico – Depressão anaclítica (semelhante à da infância). Ansiedade. Semelhança com caráter narcisista neurótico.
Um novo lugar da Psicanálise - Desde sua fundação o saber psicanalítico vem sendo considerado por diferentes enfoques ou “Escolas”.
A primeira delas, correspondente à 1ª geração psicanalítica, foi a “Escola de Viena” liderada pelo próprio Sigmund Freud (1856 – 1939), onde estavam seus primeiros discípulos, como Karl Abraham, Sandor Férenczi, Alfred Adler, Carl Jung, Otto Rank e Wilhelm Reich.
Seguiu-se a 2ª geração, que incluiu, tanto a “Escola Inglesa”, caracterizada pelo seu foco na análise das resistências, onde se destacaram: Ernest Jones, Donald Winnicott, Anna Freud, Melanie Klein e Wilfred R. Bion, como a  “Escola Americana” ou da Psicanálise do Ego Forte, onde estavam, entre outros, Rudolph M. Loewenstein,  Ernst Kris e Heinz Hartmann. Essa 2ª geração fez da Psicanálise um exercício em que o analista buscava modelar o analisando. Subordinada à perspectiva utilitarista do ego forte, essa Escola desconsiderou a tópica freudiana, com suas três instâncias ego, id e superego, reduzindo o sujeito ao ego e fazendo da prática analítica um exercício destinado especificamente à identificação progressiva do ego do analisando com o do analista, que, por sua vez, só se ocupava das defesas a vencer e só escutava o desejo com o intuito de o suprimir.
A 3ª geração foi a “Escola Francesa”, liderada por Jacques Lacan (1901 – 1981), com o seu “retorno a Freud” e seu entendimento seminal do Inconsciente estruturado como linguagem. Assim, com Lacan, o estatuto do Inconsciente passa a ser assimilado à fala, à linguagem. Com isso, sem que jamais possa ser objeto de observação direta, o Inconsciente tem condições de ser inferido a partir dos efeitos do discurso. Para essa Escola, o Inconsciente, entendido segundo uma lógica ternária, não é Ser nem é Não-Ser. É a língua particular de cada sujeito produzida na sua relação analítica.
Em todo esse percurso, a Psicanálise detectou uma pluralidade de questões ligadas à interioridade do indivíduo: o recalque mítico, a bolha narcísica, o desamparo estruturante, o bom peito perdido, a marca da linguagem, o nome do pai, entre outros tantos pressupostos da subjetividade humana. Mesmo assim, pode-se dizer que todas essas abordagens focaram sempre e em última análise um sujeito dotado daquelas características oriundas da modernidade.
No entanto, nos dias atuais, vive-se uma circunstância que reatualiza o desamparo decorrente da qualidade humana. Hoje há o sujeito das violências urbanas e sociais, da síndrome do pânico, da fome, do desemprego, das guerras, da corrida pela água e pelo petróleo, da miséria, dos transgênicos, das dúvidas, do desabrigo, dos desabamentos, dos filhos subnutridos, dos filhos obesos, das doenças endêmicas e epidêmicas, do SUS, do PT, do MERCOSUL, do consumismo, dos shoppings, dos psicotrópicos, das diferentes dependências, do aparelho econômico perverso, da Internet, do celular, da bomba atômica, do terrorismo e da atual supercrise dos subprimes.
Esse é, portanto, o sujeito da pós-modernidade, deste tempo, vivendo essas novas condições de mal-estar.
Será que a Psicanálise, enquanto teoria, articulando-se com outros saberes, tem um tributo para com estes novos tempos? Repensar e se implicar nessa hipermodernidade é o que Joel Birman denomina de um novo lugar da Psicanálise. Ele vaticina que a “Psicanálise não pode sobreviver com sua especificidade nos registros teóricos e éticos se não puder reconhecer o desamparo do sujeito e o mal estar social decorrente da pós-modernidade”.
Nesse sentido, para o filósofo contemporâneo Ken Wilber não faz sentido reduzir os sujeitos a apenas estruturas intersubjetivas. Nesse caso, critica: “A ‘linguagem’ substituiu os ‘seres humanos’ como agentes da história. Não é o ‘eu’, o sujeito, quem está falando agora; é apenas a linguagem impessoal e a estrutura lingüística que fala por seu intermédio”.
Como alternativa a esse enfoque, que ele considera reducionista, propõe um novo paradigma representado por um modelo da compreensão transpessoal do que existe de diferente entre as atuais distintas linhas psicanalíticas.
Nesse novo modelo cada uma das diversas escolas é vista como um nível comprometido com cada aspecto peculiar do total a que se pode apresentar a consciência do homem. Cada uma dessas linhas diz respeito a um estado de consciência que se distingue por ser dono de um diferente senso de identidade, indo da menor identidade, restrita ao ego, até à suprema identidade com todo o universo, que é o nível derradeiro da consciência transpessoal. Para ele esse espectro pode ser percebido, grosso modo, a partir de quatro instâncias: o ego, o biossocial, o existencial e o transpessoal.
 
*Artigo destinado a servir como avaliação da disciplina “Histórico da Psicanálise”, do Curso de Especialização em Clínica Psicanalítica, da FAFIRE - Faculdade Frassinetti do Recife, 2008.
**Fernando A. R. de Gusmão – Engenheiro e Administrador de Empresas. Pós-Graduado em “Psicologia Clínica nas Instituições” pela FAFIRE - Faculdade Frassinetti do Recife – 2006.
 

 


[1] O dandismo se constitui numa conduta humana e social que se fundamenta na justificação estética, e o dândi é aquele que leva sua vida baseado nesse preceito. Sempre ligado às artes, em especial à literatura, o dandismo destacou-se por ser defendido entre grandes escritores como Oscar Wilde, especialmente em sua obra O Retrato de Dorian Gray.
 
[2] Capitalismo tardio é um conceito desenvolvido por Ernest Mandel em sua tese com a qual obteve seu PhD, em 1972, na Universidade Livre de Berlim.
 
publicado por Fernando Gusmão às 20:30
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As Estruturas Clínicas na Contemporaneidade[1].

 

 
Fernando A.R. de Gusmão – fargusmao@ig.com.br[2]
 
 
 
Resumo: A Psicanálise propõe que, a partir da castração, um dos três modos de negação do Édipo pode surgir e, conseqüentemente, três estruturas clínicas se tornam possíveis: a neurose, a psicose e a perversão. Lacan confirma dois entendimentos clínicos: um estruturalista - descontinuista e categorial; outro borromeano, elástico e baseado sobre uma visão genérica da forclusão. Na clínica borromeana considera-se a coexistência de fenômenos das diferentes estruturas atuando no sujeito de forma concomitante, com a momentânea evidência de uma delas. Nos últimos anos, novas patologias mentais, entre elas as depressões, o pânico, as adições, as doenças psicossomáticas e os distúrbios da alimentação, estão se fazendo presentes levando ao questionamento quanto a efetivas possibilidades de serem reduzidas às estruturas clínicas clássicas. No entanto, a clínica, ao tratar do homem da contemporaneidade, com seus novos problemas, não pode cogitar de approachs que possam ser produzidos a priori e colocados nas prateleiras para serem vendidos como simulacros dos psicofármacos atuais para uma certa classe de analisantes, rotulados na conformidade da sua estrutura psíquica.
 
 
 
Palavras Chaves: Lacan; estruturas; neurose; psicose; perversão; pós-modernidade.
 
 
Introdução
 
Entendida como uma organização, a Estrutura Psíquica guarda, em geral, um campo dinâmico e sistemático de elementos, no qual existem regras, ordem, princípio de racionalidade e cujas funções e propriedades se harmonizam.
Enquanto “em psicopatologia, a noção de estrutura corresponde àquilo que, em um estado psíquico mórbido ou não, é constituído por elementos metapsicológicos profundos e fundamentais da personalidade, fixados em um conjunto estável e definitivo”. (Bergeret, 1998, p. 51)[3], para a Psicanálise as Estruturas Clínicas demonstram o modo de relação do sujeito com o seu desejo.
A Psicanálise preconiza que os seres humanos podem apresentar três estruturas clínicas fundamentais: a Neurose, a Psicose e a Perversão.  Esses termos têm um sentido específico e próprio no âmbito da teoria freudiana, não se expressando da mesma forma que na Psicopatologia, onde são descritos, inclusive, como entidades mórbidas.
Bisaccio propõe, em “Variantes da Escuta”[4], que as Estruturas Clínicas, “são um modo de responder à castração, um fato de linguagem, um particular discurso”. Isso quer dizer que, para a Psicanálise, os termos neurose, psicose e perversão, indicam, antes de tudo, caminhos e/ou escolha subjetivas.
De um ponto de vista dinâmico, Freud indica que o ser humano se humaniza a partir da constituição de sua estrutura psíquica, que, conforme foi dito, é formada por funções, sistemas, relações e articulações. O momento constitutivo dessa estrutura dá-se quando da inscrição do infante no universo simbólico. Se não ocorrer sua inscrição no universo simbólico não haverá constituição de uma estrutura e a cria humana não se humanizará. Em se dando a inscrição no universo simbólico, ela se fará pela estrutura, utilizando uma daquelas vias: a neurose, a psicose, ou a perversão.
Observando mais de perto as três Estruturas Clínicas estudadas por Freud, tem-se que, na neurose, o sujeito separaria o afeto da idéia e negaria a castração através do mecanismo do recalque. A idéia “indesejável” seria, assim, mantida afastada da consciência e o sintoma neurótico se constituiria quando do retorno do que houvesse sido recalcado, através de uma configuração simbolizada. Já no caso da psicose, ocorreria, ainda conforme Lacan, a foraclusão[5] do Nome-do-pai, mecanismo específico que remeteria à rejeição desse significante. O eu rechaçaria ao mesmo tempo a representação insuportável e o seu afeto e, desse modo, nenhum traço seria guardado e a lacuna permaneceria foracluída. Por sua vez, a perversão é, também, colocada por Lacan em termos estruturais e não como um desvio da pulsão. A perversão surge, então, como uma defesa contra a angústia de ser devorado pelo desejo insaciável da mãe. Portanto, na perversão, o sujeito, em lugar de negar, desmentiria a castração.
Nessa linha de entendimento podem ser considerados determinados aspectos basilares no que diz respeito às Estruturas Clínicas, a saber:
1) em psicanálise o diagnóstico é sempre estrutural, fundamentando-se nos discursos dos analisantes, articulados à sua narrativa, incluindo-se aí o analista, através da transferência;
2) a estrutura da linguagem leva a distintos “efeitos” no sujeito;
3) o sintoma é o elemento de amarração, ou melhor, uma forma de amarração através da qual o sujeito se assenta na estrutura;
4) para que se possa obter um diagnóstico diferencial dentre as Estruturas Clínicas – neurose, psicose e perversão – deve-se conhecer as prováveis representações das amarrações do sujeito na estrutura, sejam elas: o recalque, a foraclusão ou o desmentido.
 
As Estruturas Clínicas Vistas por Lacan
 
Freud situou no contexto do complexo de Édipo as gêneses das diferentes Estruturas Clínicas. Em outras palavras, dependendo de como o sujeito lida com a castração, diferentes estruturas serão constituídas. Por isso, para um melhor entendimento quanto às Estruturas Clínicas no modelo freudiano, faz sentido analisar os três tempos do Édipo, conforme a leitura proposta por Lacan no Seminário V, na parte "A Lógica da Castração”:
No primeiro tempo do Édipo há uma imputação fálica do infante pela mãe, que o adota qual um “objeto de desejo”. Posta no contexto fálico, a criança se identifica de modo imaginário como objeto de desejo da mãe, procurando atender a esse desejo. Concomitantemente, a criança vai exercendo uma responsabilidade fálica no universo que lhe abraça. A castração permite ao infante descobrir, progressivamente, que é um equívoco tentar abrigar integralmente o desejo da mãe. Desse modo, se a criança se identifica ao "ser o falo” para a mãe, é somente em um momento posterior, através do Nome-do-Pai[6], que ela terá acesso à referência fálica.
O segundo tempo é apontado por Lacan como o “momento privativo do complexo de Édipo”. Aí, o pai interfere de modo efetivo como privador da mãe. O pai surge, nesse instante, como todo-poderoso, na medida em que é responsável pela privação da mãe ao objeto de seu desejo. Dito de outra maneira, ele torna adequada a relação da criança com sua mãe. Dessa maneira, a interdição da mãe em fazer da criança objeto de seu desejo denota que, nesse caso, o que é castrado não é o sujeito, mas, sim, a mãe. Trata-se, por isso, do estádio nodal do Édipo, pois a Lei do Pai aparece de forma semi-escondida, via discurso materno.
O terceiro tempo do Édipo é tão importante quanto o segundo. Dessa etapa depende a saída competente da criança do complexo de Édipo. O pai tem capacidade de dar o que a mãe deseja. E pode dar porque o possui. Sendo potente, no sentido genital da palavra, ele intervém como aquele que tem o falo e possibilita, nesse terceiro tempo, a identificação da criança ao pai. Por isso, Lacan afirma: “É por intervir como aquele que tem o falo que o pai é internalizado no sujeito como Ideal do Eu – I(A) e que, a partir daí, não nos esqueçamos, o complexo de Édipo declina”.
Portanto, o desfecho é distinto na menina e no menino, sendo que, para Lacan, o caso da menina é mais simples:
 
“Ela não tem que fazer uma identificação, nem guardar esse título de direito à virilidade (menino). Ela, a mulher, sabe onde ele está, sabe onde deve ir buscá-lo, o que é do lado do pai, e vai na direção àquele que o tem”. [7]
 
O menino, por sua vez, se identifica com o pai como o “possuidor de pênis” e sua saída do complexo de Édipo se faz possível pela ameaça de ser castrado pelo pai. Para Lacan, o “não-ter” da mulher lhe confere certas vantagens no amor, situando-a na ordem da sublimação ou da criação. Essa teria uma facilidade maior para criar algo em torno do nada, sendo a sublimação ligada à capacidade de “elevar o objeto à dignidade da Coisa”.
A posição feminina é situada por Lacan no lugar do indecidível entre o que é “para todo homem” – a castração possível – e o que lhe advém de sua “particularidade negativa” – impossível a castrar –, no sentido de que já é castrada. A castração é, portanto, uma função simbólica e real na constituição do sujeito, encaminhando-o em direção ao seu desejo. Ou seja: é porque algo falta ao sujeito, que esse pode vir a desejar.
Assim, a partir da castração três modos de negação do Édipo podem ter lugar e, consequentemente, três estruturas clínicas se tornam possíveis: neurose, psicose e perversão. Grant[8], citando Calligaris, afirma que qualquer um desses tipos de estruturação do sujeito é uma estruturação de defesa. “A operação de defesa implica a possibilidade da inscrição de uma operação metafórica, ou seja, uma significação é construída no lugar da oferenda do real da carne”.
Cada uma dessas estruturas pode ser considerada normal ou produtora de mal-estar. Será normal se seu funcionamento aparente, em um determinado sujeito, está equilibrado, de maneira que os mecanismos de defesa estejam mobilizados de maneira eficaz e não perturbadora. Por outro lado, a estrutura poderá ser entendida como produtora de mal-estar quando revela um desequilíbrio em sua maneira de funcionamento. Nesse caso, os mecanismos de defesa do sujeito são mobilizados de maneira perturbadora e descompensada, manifestando o sintoma.
Além dessa visão estruturalista, na qual se admite impossível a transformação de um tipo de estrutura para outro, vale evidenciar que no ensino de Lacan aparecem duas formalizações da clínica: uma estruturalista - descontinuista e categorial -, outra borromeana, elástica e baseada sobre uma generalização da forclusão[9]. Nessa clínica borromeana existe a possibilidade de considerar-se a coexistência de fenômenos das diferentes estruturas, atuando no sujeito de forma concomitante, com a momentânea evidência de uma delas.
 
As Estruturas Clínicas na Atualidade.
 
A psicanálise atualmente enfrenta mais um desafio, pois como salienta Meyer (2007):
“a contemporaneidade é antianalítica, uma vez que o homem contemporâneo não é um homem interessado em sua mente. A sociedade contemporânea construiu um homem que não se interessa pela sua depressão, mas se interessa pelo Prozac. O novo paciente da psicanálise é o que não procura a psicanálise” [10].
 
Por sua vez, Mayer, em "Passagem ao ato, clínica psicanalítica e contemporaneidade"[11], trata dessa questão e propõe que na clínica contemporânea há indícios de mutações nos enquadres e que essas mudanças apontam para a possibilidade de inovações nos procedimentos e nos approachs terapêuticos, defendendo que, não somente alteraram-se os teores desses quadros, mas, também, a visão que se tem hoje sobre eles.
Isso porque, nos últimos anos tornaram-se conhecidas novas formas de manifestação da disfunções mentais, entre elas as depressões, o pânico, as adições, as doenças psicossomáticas e os distúrbios da alimentação, que, eventualmente, não têm como ser reduzidas às estruturas clínicas clássicas.
Essas novas formas de mal-estar decorrem, naturalmente e em grande parte, das mudanças porque recentemente vem passando a Civilização, especialmente após a queda do Muro de Berlim, marco a partir do qual ficou firmada a hegemonia do Capitalismo dos dias atuais. Passou, então, a ter predominância - sobre tudo e sobre todos - o Discurso do Capitalista, como referido por Lacan, onde está inscrita a “verdade” de que: “produzindo e consumindo mais e mais todos serão felizes, muito felizes, e realizarão todos os seus desejos, até mesmo de consumo desenfreado”[12], atingindo o ápice da sua irresponsabilidade pelas conseqüências na atual crise dos subprimes.
Assim, o impacto das modificações sociais e culturais decorrentes, inclusive, do neoliberalismo e da globalização, da velocidade das comunicações, das exigências de satisfação imediata, vis-à-vis as relações familiares e sociais, vem percutindo e repercutindo na formação da estrutura psíquica infantil, determinando déficits identificatórios, pobrezas de representações e estreitamentos do campo de elaboração, que explicam o aumento da atuação dos impulsos nos adolescentes e em alguns adultos, no lugar de seu processamento simbólico.
Constata-se, portanto, que um novo imperativo superegóico – o mercado - emergiu na contemporaneidade, substituindo, inclusive, o imperativo categórico moral de Kant.   
 Dito de outra forma, o consumo substituiu o imperativo moral como uma lei universal – uma transcendência - que sustentaria um Ideal que serviria para todos. Para a manutenção desse novo imperativo tenta-se, até mesmo, prescindir do Outro, do cúmplice encarnado, construindo-o segundo um modelo virtual, de forma a melhor convir para saciar esse gozo de caráter autista.
O parceiro vem sendo, assim, trocado, cada vez mais, pelos artefatos de consumo da sociedade capitalista, caracterizados por serem objetos descartáveis, substituíveis, contabilizáveis, consumidos e expelidos em grande quantidade, originando possíveis novas Estruturas Clínicas - inclusive as bulimias, as anorexias e a obesidade – nas quais o sujeito, estabelecendo uma relação de gozo não assinalada pela presença da falta conferida pelo amor, constrói uma relação de gozo com os objetos de consumo.
 
Por conta disso, Ahumada (1997)[13] lembra que:
“se a função da psicanálise, no contexto intelectual vitoriano, foi o resgate da psicossexualidade, hoje, sua função torna-se muito mais ampla e necessária quando precisa promover o resgate do pensar reflexivo a respeito de si e do contato com a emocionalidade profunda, o que impede a elaboração das perdas”.
 
Roudinesco (2000)[14] também fala sobre esse novo homem, salientando:
“que ele está com dificuldade para manifestar seu sofrimento, e o ódio e a indignação são recalcados, retornando sob a forma de uma paralisia sem conflitos. Ele evita paixões, revoluções e tende a evitar a experiência subjetiva do contato com o inconsciente, a morte e a sexualidade, incluindo-se aí seus desejos, sentimentos de culpa e conflitos”.
 
Conseqüentemente, esse homem da contemporaneidade utiliza defesas que vão além da repressão, que são de caráter rígido e que, por isso, bloqueiam sua vontade de pensar e de refletir e, por isso, de mudar.
Para tanto, recebe espetáculo e espetacular apoio da mídia que, com sua onisciência e onipresença no tempo e no espaço, o afasta de uma atitude mais pessoal e criativa, ao possibilitar que ele habite, autisticamente, neo-realidades suplentes, como a televisão, o computador, os jogos eletrônicos e o ciberespaço.
Assim, o sujeito da contemporaneidade cauteriza seu senso crítico e obscurece suas emoções, com vistas a, rapidamente, ajustar-se, sem questionamentos, ao establishment, adotando um estilo passivo que lhe propicia receber, como prêmio, os benefícios de uma ciência cada vez mais avançada, que lhe promete, pronta, a felicidade e, mais que isso, a própria imortalidade. Desse modo, ele, cada vez mais, consome de maneira autofágica.
A clínica, ao tratar do homem da contemporaneidade, não pode perder de vista que transformações, construções e desconstruções sempre foram - e sempre serão - próprias e essenciais ao processo psicanalítico. Alem do mais, também não pode esquecer que transformações, construções e desconstruções não podem ser assumidas como commodities que possam ser produzidas a priori e colocadas nas prateleiras para serem consumidas por uma certa classe de analisantes, rotulados na conformidade da sua estrutura psíquica. Um processo com tais características – oferecer produtos prêt-à-porter, acondicionados e standartizados – é o que reside na matriz dos males do consumismo atual, como saída para mitigar angústias e conviver com situações depressivas.
Dito de outra forma, o analista não tem nem poderá ter como escopo precípuo abrandar angústias e nem, tampouco, aliviar tais estados depressivos. Como via de conseqüência, se oferecer ao analisante tais facilitações, estará compactuando com o mal-estar do sujeito da contemporaneidade, vendendo a ele um simulacro dos psicofármacos atuais e colaborando, ainda mais, para alimentar o “consumo (me) logo existo”, inibindo, de vez, seu processo de individuação.
O que ele tem por oferecer, em toda e qualquer situação analítica, sempre singular e diferente, é a essência do método psicanalítico representada pelo dar palavra ao afeto utilizando, basicamente, a livre associação, com o apoio da atenção flutuante.
E o que se espera, portanto, do analista, hoje, como sempre, – no efetivo exercício da sua função - é que ele suporte e reconheça o seu não-saber da peculiaridade do desejo do analisante. Isso porque o escopo da psicanálise não seria o de conferir sentido ao sintoma, mas, antes, o de atuar desde a função do analista vis-à-vis a repetição, com o mal-entendido ou o equívoco, à espera de que, na palavra de Lacan, “o Real do sintoma farte-se e perca a sede”.
 
 
Referências
 
CHAVES, W. O Estatuto do Real em Lacan: Dos Primeiros Escritos ao Seminário VII, A Ética da Psicanálise. Disponível em: http://www.bdtd.ufscar.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=951. Acessado em 1/12/2008.
 
CORRÊA, Ivan. A Escrita do Sintoma. - Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife.  2006.
 
........................... Nós do Inconsciente. 2ª Edição – Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife. 2007.
 
DOR, J. Introdução à Leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
 
 
 
 
 
 
 
 

 


[1] Artigo destinado a servir como avaliação da disciplina “Principais aspectos da teoria lacaniana”, do Curso de Especialização em Clínica Psicanalítica, da FAFIRE - Faculdade Frassinetti do Recife, 2008.
[2] Fernando A. R. de Gusmão – Engenheiro e Administrador de Empresas. Pós-Graduado em “Psicologia Clínica nas Instituições” pela FAFIRE - Faculdade Frassinetti do Recife.
[3] Citado por Greice Caroline das Neves, in “A Espera por um Diagnóstico e os Mecanismos de Defesa” , disponível em http://inf.unisul.br/~psicologia/wp-content/uploads/2008/07/GreiceNevesTCCII20071.pdf, acessado em 9/12/2008.
[5] Foraclusão: exclusão, privação, banimento, corte, impedimento. Barrar um caminho. Para Lacan, a foraclusão diz respeito àquilo que não foi incluído.
[6] Nome-do-pai: locução criada por Lacan em 1953 e definida em 1956, referente ao significante da função paterna. É o significante primordial que expressa a função paterna, que, ademais, barra o acesso ao gozo entre mãe e filho, delimitando uma lei, uma inscrição, que implica em uma subtração do gozo. O sujeito passa então a ser marcado pela falta, pela impossibilidade de ter tudo, de gozar de tudo, o que viabiliza, paradoxalmente, o acesso ao próprio desejo.
[7] In “A abertura ao trabalho psicanalítico em uma instituição pública: Márcia e a dúvida identificatória”. Disponível em http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-42812007000300007&lng=pt&nrm=. Acessado em 5/12/2008.
[8] In “Pesquisa em Psicanálise”, trabalho apresentado no 10º Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico da Anpepp, em 2004, em Aracruz, ES.
[9] Idem.
[10] Citado por Idésio Milani in “O significado da cura na psicanálise: transformações e construções no processo analítico”. Disponível em http://www.febrapsi.org.br/artigos/2007_luso/2007_luso_idesio.doc. Acessado em 9/12/2008
 
[12] In CORRÊA, Ivan. A Escrita do Sintoma. Recife: CEF 2006 – 4ª Edição, pg 192.
[13] Citado por Idésio Milani in “O significado da cura na psicanálise: transformações e construções no processo analítico”. Disponível em http://www.febrapsi.org.br/artigos/2007_luso/2007_luso_idesio.doc. Acessado em 9/12/2008
 
[14] Idem.
publicado por Fernando Gusmão às 19:17
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A INTERNET ENQUANTO INSTRUMENTO DA ILUSÃO ALIENANTE[1]

 

Fernando A.R. de Gusmão[2] (fargusmao@ig.com.br)
 
Resumo: A divisão originária dá lugar ao essencial "vazio" interior em que se funda o humano. A metafísica, a teologia e a psicanálise se alimentam dessa cisão (mesmo quando uma ou outra a deseja abolir...). Esse vazio é o locus da imagem, da ilusão: é a porta para as possibilidades, para o desejo. Por isso, o humano está em causa ato contínuo essa divisão originária seja anulada. Isso pode estar acontecendo com o advento da Internet, do celular e da convergência entre essas duas mídias. As pessoas estão agora como que submersas nas representações. A Rede enlaça o sujeito, arrebatado pelos ideais que lhe oferece, proporcionando a instantaneidade, a agilidade, o imediatismo, mas, também, a fragmentação. Pressionado pela dor da fragmentação, ele termina por procurar encontrar no espaço cibernético a unidade, contra-ponto da divisão originária, fazendo da Internet uma extensão de si mesmo e conseguindo, com isso, uma identidade alienante e alienada.
 
 
Na Conclusão do seu livro “Freud: A Trama dos Conceitos”, o filósofo e psicanalista Renato Mezan diz que, antes de fazer desse capítulo da sua obra um “ferrolho de uma pretensa síntese”, pretende usá-lo para abrir “um campo no qual prosseguir a tarefa: o problema da divisão originária”.
 
Nesse sentido, ressalta a seguinte questão: “a categoria da ilusão talvez seja a contribuição freudiana menos explorada até hoje”. E, após afirmar que a ilusão não é, em si, um erro, mas é, antes de tudo, a materialização imaginária do desejo, ele reforça esse entendimento dizendo que a ilusão é ânsia de coincidir, sede de identidade, na busca da superação daquela divisão originária do sujeito.
 
Tomando essa assertiva de Mezan e remontando a Franz Brentano, fenomenologista do século XIX, pode-se assumir que a relação do sujeito com o real nunca poderá ser direta, nem natural; ela será sempre mediada por uma ação sobre a realidade, onde se vê, concomitantemente, que a experiência com o real não é dominada somente pela técnica e pelo conhecimento, mas que a ação sobre o real é perpassada pela subjetividade: poder criativo e pensamento imaginativo do sujeito.
 
A esse respeito, Freud (1927), assinalou:
 
O que é característico das ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos. Com respeito a isso, aproximam-se dos delírios psiquiátricos, mas deles diferem também, à parte a estrutura mais complicada dos delírios. No caso destes, enfatizamos como essencial o fato de eles se acharem em contradição com a realidade. As ilusões não precisam ser necessariamente falsas, ou seja, irrealizáveis ou em contradição com a realidade.
 
Nessa mesma direção, Miranda (2008), assevera:   
 
“Afirmar que a imagem é o começo do "humano" pode parecer bizarro. A estranheza provirá talvez de mal podermos reconhecer o que é uma "imagem", apesar de todo palavreado que as envolve. A imagem antes de ser uma "cópia" é uma divisão, e um efeito de divisão. A imagem é, assim, uma lesão primordial da opacidade das "coisas". A opacidade é dissipada pela divisão que extrai imagens leves da "densidade" da matéria. Acrescenta-se a ela, desmultiplicando-a. Somente nesta perspectiva se pode entender Fichte quando afirmava que
 
[...] só existem as imagens: elas são a única coisa que existe, e têm conhecimento de si mesmas à maneira das imagens - imagens que passam, flutuantes, sem que haja nada diante de quem passar; que se relacionam umas às outras através de imagens de imagens.”
 
Seguindo o mesmo caminho, a divisão originária do sujeito, que dá origem às ilusões e, por via de conseqüência, às imagens, teria sua matriz na entrelinha que separa o fato do fenômeno, ocupada pela mediação da subjetividade do sujeito. Por via de conseqüência, a Verdade seria, assim, continuamente, "modelo de modelo”, e estaria sempre para além dessa divisão originária. Portanto, é com os modelos – com as ilusões - que, sub-repticiamente, o homem escreve sua história.
 
Nessa ilusão se assenta o "vazio" essencial em que se funda a liberdade humana e, por isso, tal ilusão é um adendo necessário. A significação grega do ser humano como “animal político” explica esse “animal com um algo mais”. Um animal com uma “imagem”, com uma ilusão.
 
Não era, portanto, sem razão que o filósofo alemão Hans Blumenberg, citado por Miranda (2008), sustentava que
 
“o humano só é possível a partir de uma fragmentação cuja melhor imagem são as longas noites pré-históricas, sem sol nem lume, e o terror sem fim que originam. A luz do sol é um dos operadores, e bem importante, dessa divisão, mas porque é retomada por uma outra "luz", a do mito, que repete e cria outra maneira de dividir o "contínuo" ameaçador da natureza, dando-lhe "nomes", desagregando-a, inventando deuses, tornando conhecido o desconhecido, ou, pelo menos, tornando-o cognoscível (e controlável)”.
 
Assim, a clivagem onde se funda o experimento do humano instala todo um campo dinâmico de possibilidades, cujas conseqüências se dilatam até hoje.
 
A primeira forma de assentamento dessa divisão originária foi o mito. Na seqüência do mito situou-se toda a sutil divisão produzida pela imagem. A própria Razão, que se iniciou pela vontade de expurgar as "imagens" em que se estabelecia o mito, trouxe em si os sinais dessa ação. Avocando o seu intento de governo absoluto da "existência" e, acima de tudo, das suas "feições”, a metafísica grega erigiu-se através de um trabalho interminável no trato dessa divisão, objetivando eliminá-la. No entanto, suprema ironia, somente a partir de "imagens" - como as da "caverna” - pôde o legado de Platão rarificar as imagens míticas, senão mesmo eliminá-las.
 
Dessa forma, talvez com o que seria um laivo de perversidade, almejando suprimir as "imagens" míticas, Platão abriu caminho para o hodierno "aparato audiovisual" que, com base em um sem número de divisões e na lógica binária, se apresenta "ciberneticamente" para o consumo.
 
Hoje, com o advento da Internet, dos celulares e à vista do rápido processo de convergência entre essas mídias, o tema “Ilusões” se faz bem mais presente do que no início do século passado. No Brasil já são quase 100 milhões de celulares e os internautas passaram dos 30 milhões. Com a tendência cada vez maior de acesso a Rede pelo celular, o número de usuários da Internet tende a crescer ainda mais, de forma explosiva.
 
A Internet, em pouco mais de 15 anos, ampliou de forma espetacular as comunicações humanas, permitindo um avanço mundial na maneira de produzir, distribuir e consumir conhecimento, seja ele sonoro, escrito ou imagético. Arquitetada de modo colaborativo, a Rede é uma das maiores demonstrações da heterogeneidade cultural e da inventividade social da contemporaneidade. Descentralizada, a Internet baseia-se na interatividade e na possibilidade de todos tornarem-se produtores e não apenas consumidores de informação. Na Internet, a liberdade de criação de conteúdos alimenta, e é alimentada, pela liberdade de estruturação de novos formatos midiáticos, de novos programas, de novas tecnologias, de novas redes sociais. A liberdade é a base da criação do conhecimento. E ela está na base do desenvolvimento da Internet.
 
No entanto, vive-se nos dias atuais uma circunstância que reatualiza o desamparo decorrente da condição humana, inclusive da divisão originária. Agora há o sujeito das violências urbanas e sociais, da síndrome do pânico, da fome, do desemprego, das guerras, da corrida pela água e pelo petróleo, da miséria, dos transgênicos, das dúvidas, do desabrigo, dos desabamentos, dos filhos subnutridos, dos filhos obesos, das doenças endêmicas e epidêmicas, do SUS, do PT, do MERCOSUL, do consumismo, dos shoppings, dos psicotrópicos, das diferentes dependências, do aparelho econômico perverso, da bomba atômica, do terrorismo e da atual supercrise dos subprimes. Hoje há o sujeito da Internet.
 
Esse desamparo atualizado, decorrente da condição humana como ela hoje se apresenta, e o recente surgimento da Rede, deram lugar a uma síndrome que Goldberg (2008) chamou de Desordem de Dependência à Internet (Internet Addiction Disorder – AID). Avaliando esse desconforto, o Departamento de Psicotecnologia da Albany University, de Nova York, EE.UU., caracterizou a dependência da Internet como análoga à dependência de substâncias químicas, ocorrendo sintomas semelhantes como a tolerância (a necessidade de aumentar o número de horas on-line), a abstinência (mal estar, ansiedade e angustia quando longe do computador) e falta de controle no momento de interromper o uso de Internet.
 
Nos mais diversos países do mundo, esse mal-estar já se faz notar. A título de exemplo vale lembrar o que foi divulgado na Internet, no Portal Imprensa - Últimas Notícias, de 13/06/2008, sob o título: “Adolescentes são internados por dependência de Internet e celular na Espanha”.
 
Dois adolescentes da cidade de Lleida, na Catalunha, estão fazendo terapia para se recuperarem de uma dependência de aparelhos celulares e Internet. Com 12 e 13 anos, os jovens estão em tratamento no Centro de Saúde Mental infantil de Lleida. "Eles chegaram aqui pela sua dependência do Messenger, mas vimos que também eram dependentes do celular", declarou Maite Utgés, diretora da instituição. (http://portalimprensa.com.br/portal/ultimas_noticias/2008/06/13/imprensa20198.shtml).
 
Do ponto de vista psicanalítico, pode-se assumir que essa dependência decorre, em última instância, do fato da Rede poder viabilizar o acesso do sujeito a um mundo quase que infinito de possibilidades, “hic et nunc", com pronta satisfação, numa comunhão que tem por objetivo evitar o mal-estar.
 
A imagem eletrônica pode, então, convir como abrigo, na tentativa do sujeito de evadir-se da agonia de viver na contemporaneidade. A rede enlaça o sujeito, arrebatado pelos ideais que ela lhe oferece. Nesse sentido, a Internet proporciona a instantaneidade, a agilidade, o imediatismo, mas, também, a fragmentação, peculiares ao contemporâneo. O sujeito, pressionado pela dor da fragmentação, termina por procurar encontrar no espaço cibernético a unidade do eu, fazendo do ciberespaço uma extensão de si mesmo e conseguindo, com isso, uma identidade alienante e alienada.
 
Por outro lado, a procura pelo excesso, igualmente própria do contemporâneo, sugere, numa visada psicanalítica, a busca constante de complementação da "falta-a-ser", estimulada pelo desejo de reencontro do objeto perdido. Com isso, feições estruturais se aliam a aspectos culturais, desenhando novas configurações de se constituir e de se encontrar nessa nova cultura.
 
Na cultura global contemporânea, caracterizada pelas novas tecnologias da informação, as pessoas estão como que submersas nas representações. Como os tratamentos de imagem agora disponíveis, que já fazem parte do dia-a-dia dos indivíduos, são de uma realidade indiscutível, atuam como extensões do sujeito, expandindo o seu mundo e permitindo-lhe chegar a outras dimensões, prenhe de novos ambientes e de novos tempos.
 
No entanto, a Internet, ao introduzir uma nova forma de virtualidade, agora interativa, constitui-se, dada sua plasticidade, tanto em um espaço de encontro, criativo e libertador, quanto em uma morada do "des-encontro", ambíguo e aprisionante.
 
O ideário atual, que pugna pela autonomia, oculta o arranjo de dependência do sujeito: dependência da imagem, que atua, presentemente, como código identificatório e como fantasia de completude. O individualismo recusa o sujeito, ser dividido, atravessado e composto pelo Outro, mas, igualmente, assinalado pelo particular. Verifica-se como que uma troca do sujeito pelo indivíduo, que se reveste da conotação de uma não-divisão. O eu, portanto, assume o lugar do sujeito.
 
Esse individualismo tem a ver com o atendimento imediato das pulsões, sustentado pela quimera da autonomia total, que, enganosamente, é certificada veementemente pela mídia, dando como produto final o narcisismo da contemporaneidade.
 
Assim, na presença da fragilidade constitucional das relações humanas e na ausência de referências firmes e organizadoras, a marca permanente do espelho e seus efeitos de identificação estão levando o sujeito a buscar em um arcabouço ficcional uma apoio, mesmo que imaginário, conforme comentário recente de uma internauta:
 
"Na Internet eu posso tudo: eu faço amigos, eu me comunico com o mundo todo, eu compro, eu pesquiso, eu namoro, eu não me sinto sozinha, é mesmo uma companhia, eu chego em casa e entro na Internet e pronto! Acabou a solidão, os problemas” (http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672006000200005&lng=pt&nrm=is).
 
O poder de captação da imagem deslumbra e, ao mesmo tempo, aprisiona. A conseqüente alienação do internauta à imagem ou ao objeto observado o mantêm em um arranjo de subserviência. Com isso, o cibernauta enleia-se com o outro, não se distinguindo do objeto, diluindo os limites entre o privado e o social, não se reconhecendo “em casa” em nenhuma parte, desde que o espetáculo está em todo lugar.
 
Ele procura o lenitivo e a onipotência no ciberespaço para poder viver com sua impotência e sua fragilidade na vida real. Ter centenas de “amigos” na Rede o mantém na ilusão de superar seu isolamento. Capturado pelas redes imaginárias do eu, ele se separa da possibilidade de interrogar-se quanto às qualidades do seu desejo, mantendo-se na ilusão da propriedade de seu corpo e de um mundo arquitetado como sua virtual extensão. Esse suposto controle dissimula, no entanto, sua incoerência e sua alienação ao objeto aprisionante:
 
"No ciberespaço podemos realizar todas as nossas fantasias, o perigoso é não querer voltar..." (Simone, 20 anos, 20/6/2002, depoimento por e-mail) (http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672006000200005&lng=pt&nrm=is).  
 
 
 
 
 
Referências:
 
FREUD, S. (1927). O Futuro de uma ilusão. In Obras psicológicas-antologia. Rio de Janeiro: Imago, 1992.
 
MIRANDA, J. (2008). As Imagens no Início. Disponível em <http://www.letras.puc-rio.br/Catedra/revista/6Sem_03.html>. Acesso em 5/11/2008.
 
GOLDBERG, I. (2008). Depression Central. Disponível em http://www.psycom.net/iasg.html. Acessado em 5/11/2008.
 
RAZZOUK, D. (2008). Dependência de Internet: uma nova categoria diagnóstica? Disponível em http://priory.com/psych/dpnet.htm. Acessada em 14/11/2008.
 
 
 

 


[1] Artigo destinado a servir como avaliação da disciplina “Fundamentos básicos da teoria psicanalítica segundo Freud”, do Curso de Especialização em Clínica Psicanalítica, da FAFIRE - Faculdade Frassinetti do Recife, 2008.
 
[2] Fernando A. R. de Gusmão – Engenheiro e Administrador de Empresas. Pós-Graduado em “Psicologia Clínica nas Instituições” pela FAFIRE - Faculdade Frassinetti do Recife.
publicado por Fernando Gusmão às 18:50
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